08 de abril de 2007
 
Confissões sem culpa no Orkut

Juliana Anselmo da Rocha

Ao mesmo tempo que conecta amigos e favorece a descoberta de contatos, redes sociais como o Orkut são terra franca para revelações politicamente incorretas e, em casos mais graves, infrações à lei. Em perfis falsos ou "dando a cara a tapa", jovens não hesitam em revelar seus excessos com bebidas, drogas e sexo ou assumir posturas preconceituosas e racistas.

Paula*, 18 anos, participa de uma comunidade que faz apologia ao suicídio, considerado crime no Brasil.

- Já escrevi sobre todas as vezes que quis morrer e as minhas impressões do mundo - conta. - Admito posturas que não revelaria em outras situações ou para pessoas que acabei de conhecer.

Na comunidade "Se mata", usuários contam sobre momentos dolorosos ou vexames e recebem como resposta sugestões para cometerem suicídio acompanhadas da frase que denomina o grupo.

- Não sabia que esse tipo de ação poderia causar problemas para mim na Justiça - diz Paula - Agora, talvez reconsidere o que publico na internet.

A advogada Patrícia Peck ressalta ser comum encontrar confissões de crimes no Orkut.

- O desafio do jovem é testar até onde pode ir. Desconhece que esse conteúdo publicado serve como prova jurídica - explica. - Por isso, a educação para o uso ético da tecnologia é essencial.

Juliana Depiné, 24 anos, confessa o exagero corriqueiro com bebidas alcoólicas. Entre suas comunidades constam a "A.C. - Alcoólatras Conhecidos", "Eu misturo vodca com qualquer coisa" e "Retiro o que disse na noite passada".

- Na minha descrição, digo em tom de piada que minha nova mania é pedir para dirigir o carro de amigos depois de beber. Mas aviso para não deixarem! Nem é tão politicamente incorreto, não é? Afinal, peço que sejam prudentes - argumenta.

Já Lázaro Breves, 17 anos, usa perfis falsos para enviar scraps aos amigos com detalhes picantes, ou que queria manter em segredo. O adolescente sabe que o Orkut exige a maioridade para participar, mas conta que mentiu ao preencher o formulário, "como todos fazem".

- Quando quero falar mal dos outros, uso o perfil falso - esclarece. - Assim me protejo da ira dos colegas e da Justiça.

Alex Primo, pesquisador da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, observa que "os usuários tem completa noção sobre o caráter público do que é dito no Orkut".

- A consciência aumentou principalmente depois da inauguração do serviço que revela quem visitou seu perfil - sugere o professor, que vai lançar em breve um livro sobre o Orkut.

Na quarta-feira, o Google anunciou uma parceria com o Ministério Público do Estado do Rio para coibir crimes no site. Um programa similar ao que já está disponível para a Polícia Federal será instalado na rede interna do MP.

- As denúncias das autoridades terão prioridade sobre a de usuários e serão respondidas em até um dia útil - garante o advogado da empresa no país, Durval Noronha.

Dentro da campanha "Mantenha o Orkut bonito", nos últimos três meses, o Google já analisou mais de mil denúncias. Além da parceria pioneira com a Justiça brasileira, filtros tecnológicos vasculham condutas incorretas no site. Os detalhes são mantidos em sigilo para evitar que os usuários criem formas para burlá-los.

A auto-regulação também parece prosperar nas redes sociais. Caso emblemático foi o de Ana Ferreira, que vendeu a um tablóide inglês uma foto onde o príncipe William aparece com a mão sobre seu seio. Depois de receber duras críticas por scraps, apagou seu perfil no Orkut.

- Ela revelou detalhes sobre a transação com o jornal buscando algum ganho social. Mas o tiro saiu pela culatra, e a jovem teve sua reputação ameaçada - avalia Raquel Recuero, professora da UFRGS.

Carlos Affonso Souza, coordenador adjunto do Centro de Tecnologia e Sociedade da FGV, pondera que "medidas para evitar a propagação de conteúdos ilícitos, mas que não retirem as principais funcionalidades dos sites são sempre bem-vindas".

Para Henrique Antoun, professor da UFRJ, "a falação, especialmente a adolescente, não é tão dramática".

- Adolescentes sempre mentiram e fantasiaram muito. Costumam lidar bem com a exposição - observa. - Até que se prove o contrário, agarrações verbais são apenas histórias.

O pesquisador lembra que muitas vezes "as revelações no Orkut servem como trampolim para a carreira artística ou chamariz para o perfil publicado na rede social".

- A televisão espernearia caso tentassem lhe imputar a imagem, até verdadeira, de que sua programação é promotora do crime, das drogas e da pornografia - critica Antoun. - Como o Orkut rouba seu público, tentam cinicamente eliminar a concorrência excitando os oficiais de Justiça e formadores de opinião contra a ferramenta - analisa.

*Os nomes foram trocados para preservar as identidades dos entrevistados