SEXTA, 14/12/2001

CNBB: 'Religioso foi mártir'

CID BENJAMIN

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) aclamou o padre Josimo Moraes Tavares como ''mártir da Pastoral da Terra''. A Rádio do Vaticano dedicou-lhe um elogioso editorial. Quando foi assassinado, em 10 de maio de 1986, Josimo era o coordenador da Comissão Pastoral da Terra (CPT) em Imperatriz (MA), cidade a 780 quilômetros de São Luís, no Bico do Papagaio.

A região - que compreende o Sul do Pará, o Norte de Tocantins e o Sudoeste do Maranhão - tem enorme concentração fundiária e vive uma tensão social permanente. Como a CPT apóia a luta dos trabalhadores rurais pela terra, é odiada pelos fazendeiros.

Nascido em Marabá (PA), Josimo foi criado em Xambioá (TO). Viveu só até os 33 anos. Acabar de chegar a Imperatriz, vindo de São Sebastião do Tocantins (TO), onde era vigário, quando foi atingido por dois tiros de pistola calibre 7.65, disparados por Geraldo Rodrigues da Costa. O padre foi levado a um hospital, mas, por falta de anestesia, os médicos não puderam operá-lo. Morreu duas horas depois.

O pistoleiro fugiu num automóvel Corcel. A placa foi anotada e deu a pista para a prisão, menos de um mês depois do crime. Levado à Polícia Federal, Geraldo disse ter sido contratado por Osmar Teodoro da Silva para matar o padre. Semanas antes, fizera uma tentativa. Josimo saiu ileso, mas o carro em que estava ficou com cinco perfurações de bala.

Os trabalhadores rurais da região transformaram a camisa ensangüentada de Josimo em bandeira. Em passeatas e manifestações, a exibiam vestindo uma cruz de madeira.

Na missa de sétimo dia, em São Sebastião de Tocantins, à qual compareceram 500 pessoas, a líder sindical Raimunda Gomes da Silva, de 45 anos e seis filhos, fez o discurso mais aplaudido. Emocionou a todos ao afirmar, chorando: ''Eles tiram a gente da terra, mas a gente volta de novo. Mataram o padre Josimo porque ele era um líder, mas todos nós, do povo, somos também líderes.''

Se de parte da Igreja e dos trabalhadores o padre só recebeu homenagens, o tratamento dado a ele pelas autoridades policiais foi diferente. O secretário de Justiça e Segurança do Maranhão, coronel Silva Júnior, em entrevista coletiva oito dias depois do crime, acusou Josimo de ''ter feito agitação no Bico do Papagaio, pregando doutrinas contrárias ao regime''. Disse, ainda, que o padre ''era adepto da Teologia da Libertação e da pregação da Bíblia Sagrada num ângulo marxista comunista''.

O comando do 23° Batalhão de Infantaria de Selva, sediado em Marabá, informou, em relatório entregue ao então diretor-geral da Polícia Federal, Romeu Tuma, que Josimo era ''militante do PT e do PC do B (sic)''.



 

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