SEXTA, 14/12/2001

Mandante de assassinato é localizado

Pecuarista que pagou pela morte do padre Josimo se esconde em povoado paraense sem luz elétrica e encravado na selva

AMAURY RIBEIRO JR.

ITUPIRANGA, PA - No município de Itupiranga, no Sudeste do Pará, o povoado de Quatro Bocas é um abrigo perfeito para foragidos da Justiça. A cidade mais próxima, Marabá, está a 200 quilômetros por estrada de terra. A luz elétrica ainda não chegou. Televisão é privilégio de poucos. Matas fechadas e estradas de barro com acesso a outras localidades facilitam a fuga.

É nesse escondido pedaço de chão, cujos 1.500 moradores trabalham em madeireiras da região, que se esconde o pecuarista Osmar Teodoro da Silva, procurado pela Justiça como principal mandante do um dos crimes agrários de maior repercussão: o assassinato do padre Josimo Moraes Tavares.

Ocorrido em frente à igreja de Imperatriz (MA) em 10 de maio de 1986, o crime tornou conhecida a região do Bico do Papagaio. Localizada na divisa do Pará, Maranhão e Tocantins, ela foi o maior palco de conflitos agrários nos anos 80.

Chapéu - Seguindo as pistas de um agricultor, por medida de segurança identificado apenas como Guia, o repórter do Jornal do Brasil avistou o pecuarista, conhecido no povoado como Paulão. O encontro ocorreu no último domingo de novembro, na porta de um cabaré. Com o chapéu cobrindo os olhos, Paulão deixou o local pilotando uma moto.

A confirmação de que o jornalista havia estado frente à frente com um dos homens mais violentos do Bico do Papagaio foi dada por Maria (nome também fictício), que conhecia Paulão de Buriti do Tocantins (TO), onde morava a maior parte dos mandantes do assassinato de Josimo. Outros moradores de Quatro Bocas, que também vieram de Buriti, confirmam ter reconhecido Paulão.

''É ele mesmo. Lembro muito bem dele. Já conversamos, mas sem falar do passado. Minha mãe trabalhou na fazenda deles em Buriti e também esteve com o Paulão. Você acabou de cruzar com o mandante da morte do padre Josimo'', disse Maria ao repórter do JB.

Rotina - Depois de conversar com o jornalista, com o compromisso de não ter o nome revelado, Maria, nervosa e chorando muito, falou da rotina de Paulão em Quatro Bocas. Contou que o assassino vive no município sob a proteção do irmão Deca (Nazareth Teodoro Silva), que responde em liberdade pelo assassinato do padre. Em Quatro Bocas, Deca apresenta Paulão como um primo que veio trabalhar numa usina de arroz de sua propriedade.

São três os locais em que Paulão se esconde em Quatro Bocas: a usina de arroz, onde costuma dormir; a Fazenda Família, na região do Boca Larga, e a casa de um sobrinho, na Rua Duque de Caxias.

Sempre de moto, Paulão costuma sair à noite para freqüentar cabarés, onde mostra preferência por mulheres com mais de 50 anos. Numa das saídas, mostrou seu temperamento violento.

''Ele quebrou a porta da minha casa porque me recusei a casar com ele'', disse uma moradora de Quatro Bocas.

Alguns moradores chegaram a reconhecê-lo no programa Linha direta, da TV Globo, a que assistiram em março em municípios vizinhos. O programa estimulava telespectadores a dar informações sobre o paradeiro dos mandantes do assassinato de Josimo. Mas tiveram medo de ligar porque só há dois telefones em Quatro Bocas: o do próprio Deca e um orelhão no centro.

Uma testemunha chegou a procurar a Comissão Pastoral da Terra em Araguaína, mas pediu dinheiro para dar informações, o que não foi aceito.

Colaborou Cid Benjamin



 

Copyright© 1995, 2001, Jornal do Brasil, Primeiro Jornal Brasileiro na Internet







   LEIA MAIS