ITUPIRANGA,
PA -
No município de Itupiranga, no Sudeste do Pará, o povoado
de Quatro Bocas é um abrigo perfeito para foragidos
da Justiça. A cidade mais próxima, Marabá, está a 200
quilômetros por estrada de terra. A luz elétrica ainda
não chegou. Televisão é privilégio de poucos. Matas
fechadas e estradas de barro com acesso a outras localidades
facilitam a fuga.
É
nesse escondido pedaço de chão, cujos 1.500 moradores
trabalham em madeireiras da região, que se esconde
o pecuarista Osmar Teodoro da Silva, procurado pela
Justiça como principal mandante do um dos crimes agrários
de maior repercussão: o assassinato do padre Josimo
Moraes Tavares.
Ocorrido em frente à igreja de Imperatriz (MA) em
10 de maio de 1986, o crime tornou conhecida a região
do Bico do Papagaio. Localizada na divisa do Pará,
Maranhão e Tocantins, ela foi o maior palco de conflitos
agrários nos anos 80.
Chapéu
- Seguindo as pistas de um agricultor, por medida
de segurança identificado apenas como Guia, o repórter
do Jornal do Brasil avistou o pecuarista, conhecido
no povoado como Paulão. O encontro ocorreu no último
domingo de novembro, na porta de um cabaré. Com o
chapéu cobrindo os olhos, Paulão deixou o local pilotando
uma moto.
A confirmação de que o jornalista havia estado frente
à frente com um dos homens mais violentos do Bico
do Papagaio foi dada por Maria (nome também fictício),
que conhecia Paulão de Buriti do Tocantins (TO), onde
morava a maior parte dos mandantes do assassinato
de Josimo. Outros moradores de Quatro Bocas, que também
vieram de Buriti, confirmam ter reconhecido Paulão.
''É ele mesmo. Lembro muito bem dele. Já conversamos,
mas sem falar do passado. Minha mãe trabalhou na fazenda
deles em Buriti e também esteve com o Paulão. Você
acabou de cruzar com o mandante da morte do padre
Josimo'', disse Maria ao repórter do JB.
Rotina
- Depois de conversar com o jornalista, com o
compromisso de não ter o nome revelado, Maria, nervosa
e chorando muito, falou da rotina de Paulão em Quatro
Bocas. Contou que o assassino vive no município sob
a proteção do irmão Deca (Nazareth Teodoro Silva),
que responde em liberdade pelo assassinato do padre.
Em Quatro Bocas, Deca apresenta Paulão como um primo
que veio trabalhar numa usina de arroz de sua propriedade.
São três os locais em que Paulão se esconde em Quatro
Bocas: a usina de arroz, onde costuma dormir; a Fazenda
Família, na região do Boca Larga, e a casa de um sobrinho,
na Rua Duque de Caxias.
Sempre de moto, Paulão costuma sair à noite para freqüentar
cabarés, onde mostra preferência por mulheres com
mais de 50 anos. Numa das saídas, mostrou seu temperamento
violento.
''Ele quebrou a porta da minha casa porque me recusei
a casar com ele'', disse uma moradora de Quatro Bocas.
Alguns moradores chegaram a reconhecê-lo no programa
Linha direta, da TV Globo, a que assistiram
em março em municípios vizinhos. O programa estimulava
telespectadores a dar informações sobre o paradeiro
dos mandantes do assassinato de Josimo. Mas tiveram
medo de ligar porque só há dois telefones em Quatro
Bocas: o do próprio Deca e um orelhão no centro.
Uma testemunha chegou a procurar a Comissão Pastoral
da Terra em Araguaína, mas pediu dinheiro para dar
informações, o que não foi aceito.
Colaborou Cid Benjamin