QUARTA, 12/12/2001

"Um tapa no diabo"

JOÃO PEDRO STÉDILE

''O quadro no Sul do Pará é muito conflitivo. As elites nunca tiveram projeto de desenvolvimento para a região. Ali sempre houve espoliação da natureza. Seja para os minérios, quando havia o garimpo manual do ouro, seja para a madeira. Essas duas opções se esgotaram.

Sobrou a pecuária, e o pecuarista tende a ser atrasado, sem interesse em desenvolver a região. A maioria deles nem mora lá. No Sul do Pará ainda não chegou o Estado.

E se desenvolveu uma forma de luta típica de posseiros. Um grupo pequeno, sem a família e só com alguns conhecidos, se embrenha na mata com a espingarda - que chamam lá de por fora, por ser carregada pela boca - e planta uma roça, para não morrer de fome. É tradição dos posseiros fazer essa luta corporativa, pela sobrevivência e extremamente violenta.

Da parte do pecuarista, havia um olho fechado para isso. Porque ele, no fundo, tinha interesse em que esse posseiro desorganizado e despolitizado derrubasse a mata, amansasse o mato, como dizem. Depois chegava com os pistoleiros e a polícia e expulsava o posseiro.

O que fez o MST? Trouxe um novo método, ocupando a terra de forma massiva, com homens, mulheres e crianças, transformando a iniciativa individual ou de grupos em luta social. E aí a pistolagem não resolve. Porque, com mil pessoas, ia ser um Eldorado de Carajás por semana.

Onde está o MST o número de mortos é muito menor. As baixas que tivemos, com exceção de Carajás, que é um caso atípico, foram poucas. Quase todos os assassinados têm sido posseiros.

Casos como este que a reportagem do JB mostra não são raros. Um pouco mais ao norte houve um que ficou famoso na região. Quintino, um líder de posseiros, armou mais de 200 homens. Sobreviveram enfrentando polícia e pistoleiros dois anos e meio. É a tal história: para quem já está no inferno não custa dar um tapa do diabo.''

Depoimento a Cid Benjamin


 

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