''O
quadro no Sul do Pará é muito conflitivo. As elites nunca
tiveram projeto de desenvolvimento para a região. Ali sempre
houve espoliação da natureza. Seja para os minérios, quando
havia o garimpo manual do ouro, seja para a madeira. Essas
duas opções se esgotaram.
Sobrou a pecuária, e o pecuarista tende a ser atrasado,
sem interesse em desenvolver a região. A maioria deles nem
mora lá. No Sul do Pará ainda não chegou o Estado.
E se desenvolveu uma forma de luta típica de posseiros.
Um grupo pequeno, sem a família e só com alguns conhecidos,
se embrenha na mata com a espingarda - que chamam lá de
por fora, por ser carregada pela boca - e planta uma roça,
para não morrer de fome. É tradição dos posseiros fazer
essa luta corporativa, pela sobrevivência e extremamente
violenta.
Da parte do pecuarista, havia um olho fechado para isso.
Porque ele, no fundo, tinha interesse em que esse posseiro
desorganizado e despolitizado derrubasse a mata, amansasse
o mato, como dizem. Depois chegava com os pistoleiros e
a polícia e expulsava o posseiro.
O que fez o MST? Trouxe um novo método, ocupando a terra
de forma massiva, com homens, mulheres e crianças, transformando
a iniciativa individual ou de grupos em luta social. E aí
a pistolagem não resolve. Porque, com mil pessoas, ia ser
um Eldorado de Carajás por semana.
Onde está o MST o número de mortos é muito menor. As baixas
que tivemos, com exceção de Carajás, que é um caso atípico,
foram poucas. Quase todos os assassinados têm sido posseiros.
Casos como este que a reportagem do JB mostra não
são raros. Um pouco mais ao norte houve um que ficou famoso
na região. Quintino, um líder de posseiros, armou mais de
200 homens. Sobreviveram enfrentando polícia e pistoleiros
dois anos e meio. É a tal história: para quem já está no
inferno não custa dar um tapa do diabo.''
Depoimento
a Cid Benjamin