Desde que os líderes do grupo tiveram prisão decretada pela
Justiça, os 45 integrantes passaram a viver na clandestinidade.
Encapuzado e armado com pistolas, revólveres e espingardas,
o grupo só sai dos esconderijos para fazer incursões nos
arredores da Fazenda Reunidas Santa Maria, onde enfrenta
policiais e jagunços da empresa de segurança J. Machado,
comandada pelo delegado de Conceição do Araguaia, Aldo de
Castro, o Robocop.
Considerado o líder do grupo, o goiano Moacir Pinto Marques,
um dos procurados pela polícia, garante que os sem-terra
mataram oito pistoleiros em dez confrontos. Segundo ele,
morreram também três trabalhadores.
''Estamos cansados de ser torturados, mortos e perseguidos
por jagunços, com a conivência das autoridades. Partimos
para o enfrentamento, e só vamos sossegar depois que o latifúndio
improdutivo for desapropriado'', disse Moacir ao Jornal
do Brasil.
Delegacia
- Natural de Mara Rosa, em Goiás, de onde vem a maior
parte dos companheiros, ele disse que foi torturado por
policiais da delegacia de Xinguara no ano passado. Acusado
de comandar invasões na região, Moacir tinha sido preso
por decisão da Justiça. ''Me quebraram as costelas. Uma
noite, o delegado Nivaldo (já transferido) e outros policiais
me levaram para um terreno baldio, onde fizeram roleta-russa
com a arma na minha cabeça e deram tiros de raspão no meu
ouvido.''
No dia 29 de novembro, depois de cumprir normas de segurança
exigidas pelos intermediários, o repórter do JB encontrou-se
com Moacir e com o comando militar do Grupo Goiano, na Serra
da Andorinhas. O comando é formado por Misaque Silva, o
Lampião, Nivaldo Cândido Mariano, e Valdeci, que
se identifica como Irmão.
Os sem-terra conduziram o repórter pela mata até a ossada
de um agricultor, identificado por eles como Zé Maranhão.
Segundo o grupo, Maranhão teria sido morto há seis meses
no Bar da Nestinha, nos arredores da Fazenda Reunidas Santa
Maria, por pistoleiros.
No percurso, ficou claro que os sem-terra têm apoio logístico,
incluindo locais em que escondem barcos, bisturis, remédios
e comida. O grupo conta com o apoio da maioria dos 3 mil
assentados da região. Além de fornecer alimentos e empregos
esporádicos nas lavouras, os assentados montaram uma rede
de informações eficiente.
Por meio de celulares e fogos de artifícios, o Grupo Goiano
é informado pelos assentados da presença de policiais e
jagunços da fazenda. ''Não vai ser fácil nos pegar. Pode
ser que o Exército consiga, mas até lá, se a fazenda não
for desapropriada, vai morrer muito pistoleiro'', diz Lampião.
Ao optar pelo conflito armado, o Grupo Goiano perdeu o apoio
da Comissão Pastoral da Terra (CPT). No Brasil desde os
anos 80, o advogado e coordenador da CPT em Xinguara, Henri
des Roziers, se diz assustado com a violência no conflito
entre sem-terra dissidentes e jagunços. ''Esse não deve
ser o caminho'', disse.
Antes de se encontrar com o grupo de Moacir, o repórter
do JB esteve, no dia 26 de novembro, na Fazenda Reunidas
Santa Maria, onde policiais civis e militares, seguranças
da empresa J. Machado e jagunços procuravam os sem-terra.
Surpreso com a chegada do repórter, o gerente da fazenda,
Demerval dos Santos Lopes, tentou minimizar o conflito armado.
Segundo ele, apenas dois vaqueiros da fazendas foram mortos
pelos sem-terra, em emboscadas.
O gerente foi desmentido pelo delegado de Xinguara, Emerson
Garçon Alvarenga: ''O próprio Demerval não sai da delegacia,
onde vive denunciando o confronto na fazenda. Não entendo
por que ele pode querer negar agora.''
O confronto entre sem-terra e pistoleiros já foi registrado
em documento. Na delegacia de Xinguara há um boletim de
ocorrência sobre a tentativa de assassinato do PM Raimundo
Santos Ferreira por um grupo de sem-terra comandado por
Moacir. O policial foi ferido num tiroteio entre jagunços
da Fazenda Reunidas e sem-terra. Em depoimento, o PM disse
que estava na fazenda à procura de um agricultor, mas acabou
desmentido na rádio de Xinguara pelo próprio comandante
da PM na região.