QUARTA, 12/12/2001

Guerrilha é arma de grupo sem terra
Agricultores partem para o conflito a fim de se defender de policiais e jagunços contratados por fazendeiros no Pará

AMAURY RIBEIRO JR.
Enviado especial

''Não vai ser fácil nos pegar. Pode ser que o Exército consiga, mas até lá, se a fazenda não for desapropriada, vai morrer muito pistoleiro''
XINGUARA, PA - Escondidos nas cavernas e matas fechadas da Serra da Andorinha, no Sul do Pará, sem-terra integrantes do chamado Grupo Goiano usam, há mais de um ano, técnicas de guerrilha para enfrentar jagunços e policiais contratados pela Fazenda Reunidas Santa Maria. Localizada entre os municípios de Xinguara e Rio Maria, a fazenda, de 4.500 hectares, foi comprada em 1999 por R$ 6 milhões pelo banqueiro Ângelo Calmon de Sá, dono do antigo Banco Econômico.

Desde que os líderes do grupo tiveram prisão decretada pela Justiça, os 45 integrantes passaram a viver na clandestinidade. Encapuzado e armado com pistolas, revólveres e espingardas, o grupo só sai dos esconderijos para fazer incursões nos arredores da Fazenda Reunidas Santa Maria, onde enfrenta policiais e jagunços da empresa de segurança J. Machado, comandada pelo delegado de Conceição do Araguaia, Aldo de Castro, o Robocop.

Considerado o líder do grupo, o goiano Moacir Pinto Marques, um dos procurados pela polícia, garante que os sem-terra mataram oito pistoleiros em dez confrontos. Segundo ele, morreram também três trabalhadores.

''Estamos cansados de ser torturados, mortos e perseguidos por jagunços, com a conivência das autoridades. Partimos para o enfrentamento, e só vamos sossegar depois que o latifúndio improdutivo for desapropriado'', disse Moacir ao Jornal do Brasil.

Delegacia - Natural de Mara Rosa, em Goiás, de onde vem a maior parte dos companheiros, ele disse que foi torturado por policiais da delegacia de Xinguara no ano passado. Acusado de comandar invasões na região, Moacir tinha sido preso por decisão da Justiça. ''Me quebraram as costelas. Uma noite, o delegado Nivaldo (já transferido) e outros policiais me levaram para um terreno baldio, onde fizeram roleta-russa com a arma na minha cabeça e deram tiros de raspão no meu ouvido.''

No dia 29 de novembro, depois de cumprir normas de segurança exigidas pelos intermediários, o repórter do JB encontrou-se com Moacir e com o comando militar do Grupo Goiano, na Serra da Andorinhas. O comando é formado por Misaque Silva, o Lampião, Nivaldo Cândido Mariano, e Valdeci, que se identifica como Irmão.

Os sem-terra conduziram o repórter pela mata até a ossada de um agricultor, identificado por eles como Zé Maranhão. Segundo o grupo, Maranhão teria sido morto há seis meses no Bar da Nestinha, nos arredores da Fazenda Reunidas Santa Maria, por pistoleiros.

No percurso, ficou claro que os sem-terra têm apoio logístico, incluindo locais em que escondem barcos, bisturis, remédios e comida. O grupo conta com o apoio da maioria dos 3 mil assentados da região. Além de fornecer alimentos e empregos esporádicos nas lavouras, os assentados montaram uma rede de informações eficiente.

Por meio de celulares e fogos de artifícios, o Grupo Goiano é informado pelos assentados da presença de policiais e jagunços da fazenda. ''Não vai ser fácil nos pegar. Pode ser que o Exército consiga, mas até lá, se a fazenda não for desapropriada, vai morrer muito pistoleiro'', diz Lampião.

Ao optar pelo conflito armado, o Grupo Goiano perdeu o apoio da Comissão Pastoral da Terra (CPT). No Brasil desde os anos 80, o advogado e coordenador da CPT em Xinguara, Henri des Roziers, se diz assustado com a violência no conflito entre sem-terra dissidentes e jagunços. ''Esse não deve ser o caminho'', disse.

Antes de se encontrar com o grupo de Moacir, o repórter do JB esteve, no dia 26 de novembro, na Fazenda Reunidas Santa Maria, onde policiais civis e militares, seguranças da empresa J. Machado e jagunços procuravam os sem-terra.

Surpreso com a chegada do repórter, o gerente da fazenda, Demerval dos Santos Lopes, tentou minimizar o conflito armado. Segundo ele, apenas dois vaqueiros da fazendas foram mortos pelos sem-terra, em emboscadas.

O gerente foi desmentido pelo delegado de Xinguara, Emerson Garçon Alvarenga: ''O próprio Demerval não sai da delegacia, onde vive denunciando o confronto na fazenda. Não entendo por que ele pode querer negar agora.''

O confronto entre sem-terra e pistoleiros já foi registrado em documento. Na delegacia de Xinguara há um boletim de ocorrência sobre a tentativa de assassinato do PM Raimundo Santos Ferreira por um grupo de sem-terra comandado por Moacir. O policial foi ferido num tiroteio entre jagunços da Fazenda Reunidas e sem-terra. Em depoimento, o PM disse que estava na fazenda à procura de um agricultor, mas acabou desmentido na rádio de Xinguara pelo próprio comandante da PM na região.

Colaborou Cid Benjamin


 

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