RONDON
DO PARÁ, PA -
Durou menos de uma semana o sonho do agricultor Manuel Ferreira
dos Santos de acabar com a fome que aflige sua família em
Imperatriz, no interior do Maranhão. Recrutado por um gato
(agenciador de mão-de-obra), Manuel foi para Rondon do Pará
com a intenção de trabalhar como bóia-fria na fazenda de Josélio
de Barros Carneiro.
O agricultor não conhecia a fama de Josélio - um dos fazendeiros
acusados pela Comissão Pastoral da Terra (CPT) de explorar
trabalho escravo. Em 1995 a Polícia Federal encontrou numa
de suas propriedades um cemitério clandestino. O inquérito
para apurar a origem dos cemitérios foi arquivado.
Manuel tinha planos de voltar ao Maranhão em novembro, com
dinheiro no bolso, para passar o Natal com a família. O
sonho durou menos de um semana. Com as mãos e os pés amarrados,
seu corpo foi visto no necrotério do município por uma enfermeira
que o conhecia.
Segundo a perícia, o agricultor foi morto com um tiro da
espingarda do gato. O fazendeiro, pai da promotora
titular no município, contou outra versão: ''Ele brigou
com um vaqueiro, que o matou com a arma.'' Como é comum
na região, a polícia acreditou na versão do fazendeiro.
Filha
- Na delegacia de Rondon do Pará, onde o delegado titular
não aparecia há uma semana, o Jornal do Brasil encontrou
no dia 21 de novembro a filha do agricultor, Claudilene
dos Santos. Depois de conseguir dinheiro emprestado com
parentes, ela tomou um ônibus em Imperatriz e seguiu para
Marabá, disposta a investigar a morte do pai. Ingênua e
há dois dias sem comer, Denise chegou a pedir ajuda ao fazendeiro
Josélio para que os assassinos de seu pai fossem presos.
''Acho estranha a morte de meu pai. Não entendo por que
ele estava com mãos e pés amarrados'', afirma.
Histórias como a do pai de Claudilene não são raras entre
desempregados do Maranhão que tentam a sorte no Sudeste
do Pará. A corrente que prende esses trabalhadores a fazendas
no Pará é uma falsa dívida com o patrão. Segundo dados da
CPT e do Ministério do Trabalho, só este ano 968 trabalhadores
em situação de semi-escravidão foram libertados pela Polícia
Federal das propriedades rurais do Pará.
''O pior é que a maioria das fazendas é reincidente nesses
crimes e não acontece nada'', diz o coordenador da CPT em
Xinguara, o frei dominicano Henri des Roziers.
Alerta
- Desse destino escapou por pouco Gerônimo Gomes Moreira,
que ia trabalhar na fazenda de Delsio Nunes, o Delsão, num
município às margens da Rodovia Belém-Brasília. ''Por sorte,
a comitiva parou para dormir numa cidade onde um velhinho
me disse: Não vá. Quem entra naquela fazenda não sai nunca
mais'', contou Gerônimo. ''O velhinho estava preso lá há
mais de 20 anos e tinha saído sob vigilância de jagunços
para fazer compras.''
Ao JB, Josélio negou que haja trabalho escravo em
suas fazendas. E disse: ''O que falta na região é mão-de-obra
qualificada. Esses vagabundos não querem trabalhar.''