TERÇA, 11/12/2001

Ilusão acaba em morte

AMAURY RIBEIRO JR
.

Enviado Especial

RONDON DO PARÁ, PA - Durou menos de uma semana o sonho do agricultor Manuel Ferreira dos Santos de acabar com a fome que aflige sua família em Imperatriz, no interior do Maranhão. Recrutado por um gato (agenciador de mão-de-obra), Manuel foi para Rondon do Pará com a intenção de trabalhar como bóia-fria na fazenda de Josélio de Barros Carneiro.

O agricultor não conhecia a fama de Josélio - um dos fazendeiros acusados pela Comissão Pastoral da Terra (CPT) de explorar trabalho escravo. Em 1995 a Polícia Federal encontrou numa de suas propriedades um cemitério clandestino. O inquérito para apurar a origem dos cemitérios foi arquivado.

Manuel tinha planos de voltar ao Maranhão em novembro, com dinheiro no bolso, para passar o Natal com a família. O sonho durou menos de um semana. Com as mãos e os pés amarrados, seu corpo foi visto no necrotério do município por uma enfermeira que o conhecia.

Segundo a perícia, o agricultor foi morto com um tiro da espingarda do gato. O fazendeiro, pai da promotora titular no município, contou outra versão: ''Ele brigou com um vaqueiro, que o matou com a arma.'' Como é comum na região, a polícia acreditou na versão do fazendeiro.

Filha - Na delegacia de Rondon do Pará, onde o delegado titular não aparecia há uma semana, o Jornal do Brasil encontrou no dia 21 de novembro a filha do agricultor, Claudilene dos Santos. Depois de conseguir dinheiro emprestado com parentes, ela tomou um ônibus em Imperatriz e seguiu para Marabá, disposta a investigar a morte do pai. Ingênua e há dois dias sem comer, Denise chegou a pedir ajuda ao fazendeiro Josélio para que os assassinos de seu pai fossem presos. ''Acho estranha a morte de meu pai. Não entendo por que ele estava com mãos e pés amarrados'', afirma.

Histórias como a do pai de Claudilene não são raras entre desempregados do Maranhão que tentam a sorte no Sudeste do Pará. A corrente que prende esses trabalhadores a fazendas no Pará é uma falsa dívida com o patrão. Segundo dados da CPT e do Ministério do Trabalho, só este ano 968 trabalhadores em situação de semi-escravidão foram libertados pela Polícia Federal das propriedades rurais do Pará.

''O pior é que a maioria das fazendas é reincidente nesses crimes e não acontece nada'', diz o coordenador da CPT em Xinguara, o frei dominicano Henri des Roziers.

Alerta - Desse destino escapou por pouco Gerônimo Gomes Moreira, que ia trabalhar na fazenda de Delsio Nunes, o Delsão, num município às margens da Rodovia Belém-Brasília. ''Por sorte, a comitiva parou para dormir numa cidade onde um velhinho me disse: Não vá. Quem entra naquela fazenda não sai nunca mais'', contou Gerônimo. ''O velhinho estava preso lá há mais de 20 anos e tinha saído sob vigilância de jagunços para fazer compras.''

Ao JB, Josélio negou que haja trabalho escravo em suas fazendas. E disse: ''O que falta na região é mão-de-obra qualificada. Esses vagabundos não querem trabalhar.''



 

Copyright© 1995, 2001, Jornal do Brasil, Primeiro Jornal Brasileiro na Internet







   LEIA MAIS