TERÇA, 11/12/2001

Empresa vira polícia privada no Pará
Seguranças de firma particular investigam ocupações de fazendas, agridem, torturam, prendem e atiram em sem-terra


AMAURY RIBEIRO JR
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Enviado Especial

XINGUARA, PA - Dia 19 de julho de 2001. O agricultor Carlos Pereira Teles está em um bar no povoado de Fogão Queimado, no município de Bannach, Sul do Pará, quando é abordado por um grupo de seguranças da empresa Marca. Eles vestem macacões marrons e coturnos e procuram um grupo de sem-terra que invadiu uma das 13 fazendas da família Bannach, no município do mesmo nome - o de um paranaense que chegou à região há 30 anos.

Comandados por Nazareno Ribeiro, que se apresenta como Diabo, os vigilantes ameaçam o lavrador. Este tenta explicar que não faz parte do movimento dos sem-terra. Teles corre, mas é atingido por um tiro na perna e outro nas costas.

''Não sei por que eles fizeram isso comigo. A vida para mim é dura. Trabalho para criar duas filhas, uma delas viúva com dois filhos. Não merecia isso. Além de não ter invadido terra, estava a 15 quilômetros da fazenda'', contou o agricultor ao Jornal do Brasil. Gravemente ferido, ele foi levado pelos próprios vigilantes ao Hospital Santa Luzia.

No dia seguinte, sempre sob o comando de Diabo, os seguranças já estão em Ourilândia do Norte, a 30 quilômetros da fazenda invadida pelos sem-terra. Dessa vez as vítimas são os agricultores Raimundo Rodriguez Silva e Benedito de Jesus. Eles estão pescando num rio do município.

Mal chegam, os vigilantes vão dando socos e pontapés em Raimundo e tentam fazê-lo engolir um cartucho de espingarda. Os dois são detidos, torturados e levados para a delegacia pelos seguranças. Acusado de participar de invasões de terras da família Bannach, Raimundo é detido por determinação de um delegado de Redenção presente na região para dar apoio aos seguranças. Já Benedito, em péssimas condições físicas devido às torturas, é deixado no Hospital Santa Maria.

Rotina - Episódios como esses se tornaram rotina no Sul e no Sudeste do Pará, onde firmas de segurança substituem a força pública no policiamento ostensivo. Em Bannach, esse papel é desempenhado pela empresa Marca, com sede na Grande Belém. O município é cercado pelas 13 fazendas dos Bannach, que ocupam área de 2.500km.

Ameaçado de morte pela família Bannach, o diretor do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, Geraldo Garcia, conta que os seguranças chegaram ao município em julho deste ano, quando 300 sem-terra de Redenção invadiram uma das propriedades da família. Segundo Garcia, diante do pequeno número de policiais no município - apenas um sargento e um soldado da Polícia Militar -, os seguranças da Marca não se limitam a proteger as propriedades da família Bannach. ''Eles fazem blitz nas estradas, prendem pessoas inocentes. Só se acalmaram um pouco depois de terem expulsado à força os trabalhadores rurais'', conta Garcia. ''Denunciados pela Prefeitura à Secretaria de Segurança Pública, os seguranças agora estão atuando mais perto das fazendas.''

Delegado de Xinguara, distante 30 quilômetros, Emerson Garçon Alvarenga afirma que os seguranças se apresentam na região como policiais de Belém. Na delegacia de Xinguara deixaram o seguinte endereço: Conjunto Guajará 01, WE 63 número 2002, Ananindeua, na Grande Belém. O Jornal do Brasil apurou que o endereço não existe.

''São empresas de fachada comandadas por policiais'', diz o coordenador da Comissão Pastoral da Terra em Xinguara, Frei Henri des Leuziers.

Colaborou Cid Benjamin



 

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