DOMINGO, 09/12/2001

Sem-terra é o inimigo

RIO MARIA, PA - Não há lei que faça o delegado de Eldorado de Carajás, José Euclides de Aquino, limitar-se à jurisdição quando se trata de combater a ocupação de fazendas. Em 18 de setembro, saiu de São Geraldo, onde era delegado titular, e foi à Fazenda Talismã, em Marabá, cumprir missão rotineira. Percorreu mais de 150 quilômetros para retirar 45 famílias de uma área invadida em junho do ano passado.

Aquino não levou oficiais de Justiça nem tinha mandado de reintegração de posse. Fazendeiros, capangas armados e oito policiais o acompanhavam. ''Fortemente armados e junto com os pistoleiros, os policiais destruíram as lavouras e jogaram as famílias em frente ao sindicato em Marabá'', conta Sebastião Alves de Moura, um dos líderes dos trabalhadores da região. ''Sem mandado judicial, prenderam quatro pobres coitados como comandantes da invasão''.

Soltos após pagar fiança, os sem-terra foram instalados pelo Sindicato dos Trabalhadores Rurais num assentamento vizinho à área desocupada.

Revólver - O delegado Aquino não se negou a falar ao Jornal do Brasil. Vaidoso, com os braços e o pescoço com pulseiras e correntes de ouro, fez uma exigência: ao ser fotografado queria ter sobre a mesa o revólver e o distintivo da policial. Aquino diz agir dentro da lei. E defende os seguranças da Fazenda Talismã: ''Lá não tem pistoleiro, só tem trabalhador''.

Discurso semelhante faz o delegado de Paraopebas, Carlos Augusto Mota. Ele nega até que exista conflito agrário no Sul do Pará. ''De um lado estão os fazendeiros pioneiros. Do outro, um bando de baderneiros e ladrões de gado.''

Há pouco mais de dois meses em Paraopebas, Mota é acusado de fazer prisões ilegais. Para o aumento dos casos de mortes de trabalhadores, ele tem explicação: ''Os sem-terra estão se matando''.

Parceiro - Nas operações de despejo, Mota tinha, até o início do mês, a ajuda do escrivão Haroldo Batista Macedo. O parceiro foi transferido para Marabá, depois de a Secretaria de Segurança ter recebido denúncias contra ele. Haroldo teria feito prisões ilegais e espancado trabalhadores.

''Nunca vou me esquecer da humilhação que sofri. O Haroldo chegou tocando fogo nos barracos, agredindo todo mundo'', relata a viúva Dalva Cordeiro de Mello. ''Me levou para uma delegacia onde fiquei mais de um mês, longe dos meus filhos''. Dalva foi presa em agosto por seguranças, na desocupação da Fazenda Santo Antônio.

A transferência de Haroldo não modificou a rotina do delegado Motta. No dia 5 de novembro, apareceu no assentamento Goiás. Estava à procura dos líderes. (A.R.J.)

 

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