Homenagem
à grande fada da literatura infantil
Rosa Amanda Strausz faz sua reverência a Sylvia Orthof
com a história de Alecrim, que nasceu de dentro de
um repolho LUIZ ANTONIO AGUIAR
Escritor e autor de DADÁ E DAZINHA
ALECRIM
Rosa Amanda Strausz
Ilustrações Laurent Cardon
Objetiva, 106 páginas
R$ 22,90
Quando um adulto começa a ler uma história para
crianças e se vê tomado, no mínimo, pela
saudade de ser criança, então pode ter certeza
de que encontrou um encantamento que vai funcionar às
maravilhas também para seu filho ou filha. É
o que acontece com Alecrim, de Rosa Amanda Strausz.
Alecrim nos transporta de volta ao Reino das Fadas. Veja você,
nunca se teve notícias de fadas nascendo, fada-bebê,
fada-filhinha, fada-mamãe... Como bem conta a história,
até os repolhos sabem que fadas já aparecem
feitas. Mas Alecrim não se deu por satisfeita com as
coisas assentadas assim para sempre. Surgiu, um mimo feliz,
fadinha-neném, de um repolho. No que a fada Claridade
chegava ao seu castelo, encontrou o folhudo vegetal aboletado
na entrada, e a pequena brotou lá de dentro exclamando:
''Mamãe!''. Ali do lado, uma hortazinha de alecrim,
para saudar o raro evento, soltou no ar seu aroma, e aquele
ficou sendo o nome da fadinha, Alecrim.
Nunca se viu fada tão enrolada como Alecrim, no item,
para elas banal, que é fazer o bem. Mas bem e mal,
em se tratando de outra pessoa, já é complicado,
quanto mais quando ela, fada, e a vítima, de outra
espécie, um insondável ser humano. No entanto,
não se pense que Alecrim é algo como uma antifada,
cheia dos relativismos correcionais, política, pedagógica
ou enfadonhamente justos. Jamais! Ela é um serzinho
que voa, dotada de poderes, compaixão, generosidade
e alegria. E vem exercer sua vocação de fada
no mundano reino humano, onde tanto compreende que a vida
não é só feita de mágica, quanto
demonstra que, sem mágica, também, não
há vida que valha a pena.
Como artesão do texto, Rosa Amanda Strausz não
dispensa dar-lhe sabor. Alecrim é contada com humor,
brejeirice e lirismo. E também com a afetividade de
mãe lambendo a cria. Com uma obra de títulos
premiados, reconhecida no seu meio como uma primorosa escritora,
Rosa Amanda encontrou aqui a parceria das ilustrações
e do projeto gráfico de Laurent Cardon, num sugestivo
e equilibrado diálogo entre texto e imagem.
É impossível deixar de destacar a ilustre linhagem
encantada de Alecrim. Assim como ocorre com as fadas, não
se sabe como nascem os escritores. Pode ser por contaminação,
como naqueles triângulos amorosos que envolvem flores,
pólen e insetos. Lembremos que o hábitat de
Alecrim é um ninho que instalou numa estante da Biblioteca
Municipal, onde, nos livros de Sylvia Orthof, descobre como
se tornar a fada que ela quer ser.
A saudosa escritora Sylvia Orthof, alegríssima e luminosa,
não só espalhou essa magia sem a qual a vida
não anda, como procriou outros muitos escritores. Alecrim
é também uma homenagem a Sylvia, prestada por
uma escritora que foi tocada pela varinha de condão
desta Grande Fada.
Tanto que, nas histórias tradicionais, a fada em si
costuma ser tão boazinha, tão bonitinha, tão
certinha, tão odientamente infalivelzinha, que perde
longe, em popularidade, para as bruxas; estas, tão
mais sedutoras quanto mais histéricas, escrachadas,
exóticas e verruguentas. Então, como sugere
Maria Antonieta Cunha, na orelha do livro, surge da fantasia
de Rosa e Sylvia, fantasia irrequieta e enxerida, que bole
e remexe com a realidade, esta fadinha que veio ao mundo,
criança assumida, para fazer bagunça.
Alecrim é história que adulto lê com prazer
para seus filhos; ou delicia-se ao ler, depois que eles já
leram e gastaram o livro; ou mesmo, não resiste e rouba
dos filhos, sem esperar que terminem. E tudo por este tal
encantamento que nos passam as boas histórias para
crianças, de nos transportarem, a nós, marmanjos,
falsos-embrutecidos, de volta ao Reino das Fadas.
[10/MAI/2003]