Crônicas que deram origem ao seriado 'Sex and the city' viram livro divertido

BEATRIZ RESENDE
Professora Unirio e pesquisadora da UFRJ e CNpq
SEX AND THE CITY
C andace Bushnell
Record, 352 páginas

R$ 39
Sex and the city é conhecido sobretudo como o seriado que quase nos persegue em um canal a cabo, a versão da noite repetida no dia seguinte, depois à tarde, em seguida pela manhã. Na internet, encontra-se tudo sobre as personagens: Carrie, a narradora, Samantha, Miranda e Charlotte. No site {www.whowouldyoukill.com} pode-se conhecer melhor o amigo gay ou o novo namorado, interagindo de alguma forma com os odiados ou invejados. Um outro site oferece um quiz para a internauta verificar com que jovem mulher se parece. Curioso fenômeno midiático que nos coloca, subitamente, no lugar em geral reservado às crianças, das mais tolinhas às sabidas leitoras de Harry Potter.
Tudo começou, porém, no New Yorker Observer, onde Candace Bushnell, em 1994, iniciou uma coluna com este título. Em seguida, as crônicas que tratavam do cotidiano de Nova York - ou antes de suas noites - por onde circulavam mulheres vitoriosas, homens sedutores e modelos idiotizadas, transformou-se no divertido livro agora publicado no Brasil.
As filiações são expressivas. Se o excelente romance de Michael Cunning, inspirado no clássico do moderno escrito por Virgina Woolf, Mrs Dalloway, transformou-se no sensível filme de Stephen Daldry, As horas, as colunas de Candace multiplicaram-se adequadamente no seriado. Mas, atenção, os seriados de TV têm trazido muito de interessante e inovador. Aos que nunca freqüentaram o gênero, nem mesmo entre um zapeada ou outra, só resta crer no que digo. Nos limites da telinha, é em seriados que encontramos adolescentes gordos e feiosos, famílias negras de verdade, com todos conflitos corajosamente encarados, imigrantes sem espaço social e mulheres dispostas a vingar todo o comportamento pautados em outras eras pelas tradicionais soap operas.
É assim no Sex and the city. Sarah Jessica Parker, a quem cabe encarnar o papel da colunista de sucesso, é uma nova-iorquina cheia de espírito, louca por sapatos e por homens, mas meio maltratada, com as raízes do cabelo crescidas demais por debaixo das luzes, roupas meio cafonas e pernas finas. Bem diferente do lugar comum das louras sedutoras que ocupam os canais do mundo inteiro.
O livro, possivelmente já editado de olho nessa multiplicação midiática, guarda a estrutura episódica entre a crônica e o folhetim, mas com a ação acompanhando, inevitavelmente, o romance mais importante, o de Carrie/Candace com Mr. Big.
Na voz muito presente de uma mulher conduzindo a narrativa está o mais provocante na construção deste manual de como sobreviver sem um companheiro constante, como se divertir mais na companhia de amigas mulheres, só desenvolver pensamentos mais profundos diante dos amigos gays (os straights fogem imediatamente ao menor sinal de inteligência em um cérebro feminino), ''fazer amor como um homem'', levar, enfim, a vida no estilo ''quem precisa de um marido quando tem um porteiro?''.
Candace, como é conhecida nos meios nova-iorquinos, vai dando um mapa das boates, restaurantes e galerias de arte da Grande Maçã e fazendo sonhar com lofts de causar inveja e suas camas king size. O amor está pendurado em muitos cabides, todos iguais, e o sexo fica como algo entre o objeto de consumo e a fast food. Também, o que fazer quando parece que o prefeito Giulianni eliminou da cidade os homens na casa dos 30, dos 40 ou menos de uns 50 bem-tratados? Descobrir os encantos dos rapazes de 20 e poucos anos? Vale a pena tentar, desde que você não se esqueça de que os homens são todos iguais, o que significa dizer que nenhum homem presta. Mas isso, convenhamos, a literatura vem tentando mostrar desde a Medéia, de Eurípedes, passando por Hamlet - e a pobre Ofélia está lá mesmo para provar - até nossos contemporâneos.
Em contrapartida, as mulheres vitoriosas no mundo do trabalho são sempre cheias de espírito, talvez espirituosas demais e por tempo demais absolutamente seguras de seu poder de sedução, apesar das muitas horas hesitantes diante do espelho antes de sair de casa, e sem qualquer problema em pegar um táxi sozinha quando a noite não dá certo. Ou seja: Nova York é aqui, e nisso está o apelo das histórias narradas. ''Ainda se transa muito em Nova York, mas só se transa para ter amigos e fechar contratos, não para ter um romance.'' O que nos leva também a perguntar qual é a diferença, afinal, entre cosmopolitismo/globalização e provincialismo se o que importa mesmo é conhecer todo mundo nos lugares por onde se anda?
Como era de se esperar, a mulher que afirma que ''toda vez que um cara me diz que é romântico, eu sinto vontade de gritar'', apesar dos conselhos de sábio amigo gay, acaba se envolvendo. Mr. Big toma espaço. Os solteiros de Nova York ''são todos horríveis'', e os melhorezinhos são ''modelengos'' (cá pra nós, a tradução usada no seriado: modelomaníano é mais simples e eficiente). Quer dizer: preferem perseguir essas garotinhas anoréticas - e gastar bastante dinheiro com elas - em vez de acompanhar as poderosas que não hesitam em pagar o drinque. Mas também eles não escapam, sempre, ao desejo mais íntimo de acordar ao lado de uma pessoa normal. Rola o romance. Quando tudo termina, Mr. Big acaba bem casado e Carrie bem solteira.
Saber o final não muda nada. O que vale mesmo são os fragmentos - como no seriado - e os melhores personagens são os que estão à volta, como Amalita Amalfi, a latino-americana que sabe de tudo, ou Stanford Blatch, o gay de talento que termina escrevendo um romance em que Mr. Big aparece assando uma criancinha.
Agora, se o leitor espera encontrar no livro cenas calientes de sexo e erotismo por entre a droga sem rock & roll, pode ir desistindo. Mais vale voltar para a novela das oito. Melhor ainda, saltar para a leitura da moçada malcriada que anda escrevendo os nossos ótimos romances brasileiros contemporâneos.

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