Estudo
lança novas luzes sobre a história e as estratégias
dos conflitos mundiais
Os dispositivos
militares - versões renovadas e vitalizadas do escudo
de Aquiles - são acionados. As novas ordens constitucionais
representam também inovadoras modalidades de organização
das forças de combate e da arena de guerra. Os resultados
do embate são fundamentalmente dois: a emergência
de um novo padrão de ordenamento constitucional para
os países - evidentemente, o que saiu vitorioso no
conflito - e um sistema internacional modificado, cujas bases
são determinadas por esse novo padrão de ordenamento
constitucional.
Deve-se observar que muitas vezes um autor propõe sua
interpretação acerca do passado armado de uma
mentalidade e de uma visão carregada dos eventos e
das problemáticas do presente. Isso pode ser um problema,
pois abre espaço para o florescimento de equívocos
decorrentes de uma posição anacrônica.
Esse, contudo, não é o caso de Philip Bobbitt,
salvo dessa cilada por sua vasta erudição e
perfeito conhecimento dos abundantes fatos e personagens da
grande trama histórica.
Bobbitt se escora na saudável tradição
intelectual anglo-saxã, que insiste em municiar a inspiração
com nutrida transpiração, isto é, uma
incansável leitura dos trabalhos mais destacados sobre
o tema em questão, uma metódica enumeração
de dados demonstrativos e um cuidadoso exame dos fatos, entendidos
como a estrutura óssea necessária para o bom
historiador trabalhar em favor de sua análise. De fato,
o livro de Bobbitt abraça simultaneamente uma miríade
de conteúdos candentes e de grande interesse. Trata-se,
antes de tudo, de um exaustivo estudo de história contemporânea.
As formações nacionais, os conflitos, os tratados
e os ordenamentos internacionais mais destacados estão
todos presentes, permitindo ao leitor saborear e desfrutar
de suas análises e conclusões, muitas vezes
originais, e, por isso mesmo, alimentadoras de interessantes
polêmicas.
O livro também se propõe a ser uma obra de Teoria
do Estado, matéria que pode ser incluída na
seara do Direito Constitucional. Nesse campo, sugere uma tipologia
original para o exame das modulações do Estado
moderno desde sua origem nos tumultos do Renascimento italiano
do século 15. Parte do Estado Principesco, varia para
a modalidade de Estado Régio, em seguida, Estado Territorial,
Nação-Estado, Estado-Nação, e,
por fim, alcança um processo histórico de superação
do Estado-Nação que desemboca na hegemonia do
Estado-Mercado.
De acordo com Bobbitt, cada uma dessas alterações
constitucionais produziu comoções no quadro
estratégico das relações entre os poderes
que só puderam ser resolvidas por meio de uma sucessão
de Guerras Momentosas. A última delas teria sido ''a
Longa Guerra'', terreno em que se enfrentaram os modelos constitucionais
das Democracias Parlamentares, o Nazi-Fascismo e o Comunismo.
A ''Longa Guerra'' teria se iniciado em 1914 e terminado apenas
em 1990, com a derrocada da URSS e a vitória das democracias
ocidentais lideradas pelos Estados Unidos.
A guerra e a paz na História moderna contém
ainda um minucioso estudo de estratégia. Com o fim
da ''Longa Guerra'', esgotou-se o paradigma de segurança
nacional dos Estados Unidos. O tipo de ''escudo de Aquiles''
que contribuiu para a prevalência das democracias ocidentais
garantido pelo guarda-chuva nuclear, por poderosas forças
convencionais norte-americanas espalhadas pelas áreas
consideradas críticas no mundo e pela política
de contenção contra os soviéticos certamente
se mostrou inadequado para lidar com os horizontes planetários
que emergiram desde então. Nessa direção,
Bobbit diagnostica e lista exaustivamente cada uma das propostas
existentes no núcleo de poder dos Estados Unidos, avaliando
os complexos significados do contexto internacional atual
e as sugestões derivadas de tais análises.
Para muitos americanos já familiarizados com seu trabalho,
este livro de Bobbitt gerou fumaças proféticas.
O autor alerta para o perigo representado por organizações
não-estatais de militantes radicais que, contando secretamente
com o apoio de Estados Hostis aos Estados Unidos, disporiam
do poder e da capacidade política para agredir contundentemente
seu território e seus interesses em todo o mundo.
Diante de tal quadro, uma reformulação do paradigma
de segurança por intermédio do estabelecimento
de uma política externa fincada em princípios
bem demarcados tornou-se um imperativo para a preservação
do poderio norte-americano. Consoante a lógica do autor,
as providências nesse sentido produzirão uma
nova modalidade para a estruturação do escudo
de Aquiles, cuja conduta deve se basear na intervenção
e nas operações militares que o mundo teve a
oportunidade de observar durante a última guerra contra
o Iraque. (M.S.)
Solteiras em Nova York