Livro acadêmico deixou de ser chato

Presidente da Associação das Editoras Universitárias, José Castilho fala sobre revolução editorial promovida no setor


Cristiane Costa e Cláudia Nina

Editora do Idéias e Especial para o JB

Quando elas ficavam espalhadas, ninguém dava bola. Mas agora que ocupam 800 metros quadrados, um dos maiores espaços dentro da 11ª Bienal do Livro no Rio de Janeiro, as 96 editoras ligadas às universidades do Norte ao Sul do país reunidas no estande da Abeu (Associação Brasileira das Editoras Universitárias) ganharam uma projeção de causar inveja às mais ricas e badaladas editoras comerciais.

No estande podem ser encontrados livros que interessam não só aos estudantes como ao público em geral, mas que dificilmente poderiam ser garimpados nas prateleiras das livrarias comuns, para desespero de quem corre atrás da bibliografia de uma tese. Quem está por trás de toda essa movimentação é o presidente da Associação, José Castilho, também diretor-presidente da Editora da Unesp e presidente da Associação das Editoras da América Latina e do Caribe (Eulac).

Professor de Filosofia da Unesp, autor de Revolução solitária em Mário Pedrosa (Paz e Terra), José Castilho explicou ao JB o que as editoras universitárias estão fazendo para conquistar espaço no concorrido mercado editorial brasileiro, caprichando não só no conteúdo, mas também no visual. “Livro nenhum pode ser mais feio nem chato. Tem de ser bem formatado, para completar o seu ciclo e chegar até o leitor”, conta.

– O estande das editoras universitárias será um dos maiores desta bienal. É uma demonstração da força desse mercado?

– Sem dúvida. Hoje temos um padrão de qualidade muito similar de Norte a Sul do país e esse patamar muito deve à ação da Abeu, que sempre procurou, desde 1987, quando foi fundada, qualificar o trabalho editorial universitário, profissionalizá-lo e torná-lo visível aos olhos do leitor. Entendo que nosso esforço, agora em sua quarta edição na Bienal, porém repetido inúmeras vezes em feiras nacionais e internacionais nos últimos quatro anos, tem dado frutos e exemplos, inclusive para essa bela iniciativa da Libre (Liga Brasileira de Editoras), movimento de pequenas e médias editoras, que tem grandes afinidades com a Abeu.

– Editoras como a Edusp, Unesp e UFMG, entre outras, reformularam o padrão dos livros universitários. Quando isso começou a acontecer? O resultado tem sido satisfatório?

– O resultado tem sido muito satisfatório. A qualidade editorial e as formas inteligentes de circulação do livro são parte de um projeto de grande êxito. Na verdade, toda essa movimentação, que começou no país nos anos 80, foi um divisor de águas. Agora não existe mais livro avesso ao leitor, todas as editoras universitárias estão tentando fazer o livro atraente tanto no conteúdo quanto na forma; o livro não deve ser feio nem chato. É preciso que seja bem formatado para que complete seu ciclo. Afinal, o livro acadêmico não circula apenas dentro das universidades; ele é lido por um público amplo que está nas empresas, jornais e ruas. Não é mais uma apostila que os professores obrigam seus alunos a ler.

– Por que formar uma associação? Qual o objetivo?

– Temos 96 editoras espalhadas pelo país em todos os estados brasileiros, embora a concentração maior seja na Região Sudeste. A Associação é formada por universidades, centros de pesquisa e instituições científicas públicas e privadas. Esse é um ponto muito positivo, porque há quatro anos esse número não passava de 60. Dados de vendas, o apoio recebido nas universidades ao trabalho editorial, a aceitação ampla de público em feiras e livrarias demonstram que o crescimento dessa atividade é fundamental para o próprio crescimento do saber universitário e para o fortalecimento da universidade brasileira. Na Abeu temos desde editoras que funcionam como empresa privada, como a Unesp, até editoras pequenas, que só têm um diretor e uma funcionária. Essa diversidade é a nossa riqueza. Ter várias editoras diferentes significa vários projetos diversos em várias frentes de trabalho.

– Quando e como as editoras universitárias se encaixaram nesta nova concepção?

– O movimento que começamos há três anos, na Bienal de São Paulo de 2000, foi para mostrar de maneira eficiente a excelente produção editorial das universidades brasileiras, em um estande único. Dissemos um basta ao livro acadêmico “clandestino”, destinado aos depósitos. Foi algo que compeliu as editoras univesitárias a fazer cada vez melhor o seu trabalho. É até curioso que essa nova concepção criou no início um certo constrangimento com as editoras privadas, que hoje já está superado.

– O crescimento do mercado se deve também ao fato de que as universidades estão também querendo investir nesta área para divulgar a própria instituição?

– Claro. As editoras são uma excelente forma de divulgação das universidades; são um cartão de visitas para mostrar a produção acadêmicas de seus professores. Até as empresas privadas têm se preocupado cada vez mais em se abrir. Um exemplo é a editora da Universidade do Sagrado Coração, a Edusc, de Bauru, que já existe há seis anos e tem se revelado uma das melhores editoras universitárias do país, com uma repercussão muito boa.

– No que uma editora universitária é diferente de uma editora comercial, que também publica livros universitários? Qual o seu papel?

– A principal diferença é a relação institucional e seu objetivo editorial. No caso dos livros acadêmicos, tudo o que se ganha é revertido para o próprio negócio. Se ganhamos, por exemplo, R$ 1 mil com a venda de um certo livro, este dinheiro vai para o fundo da editora. Nosso objetivo é fomentar a edição de novos livros para o desenvolvimento do próprio negócio editorial.

– A burocracia institucional é um entrave?

– Problemas existem e alguns são persistentes, como a burocracia e outros, porém o movimento é ascendente e pode ser facilmente comprovado com um passar de olhos pelos estandes da Abeu, com a qualidade editorial e gráfica de nossos livros.

– Esse mercado foi afetado pela crise econômica? Tem crescido, mesmo com a política das universidades brasileiras de fechar os olhos para o problema da cópia?

– A crise econômica do fim do ano passado para cá tem nos afetado muito, mas não só a nós, como a todo o mercado editorial. Essa queda representou cerca de 20% a 30% do faturamento. Mas acreditamos que seguimos o ritmo normal da economia do Brasil. É claro que a reprografia nos afeta muito, mas este é um tema que a universidade vai ter de enfrentar de maneira séria.

– Qual o futuro das editoras universitárias?

– A Abeu quer aprimorar seus trabalhos, participar mais e intensamente da vida da universidade, contribuindo para a criação de novos leitores e aprofundando a informação e a geração de saberes para os leitores cultivados. São quase 100 editoras com espírito acadêmico, voltadas para o interesse público, imenso patrimônio que as autoridades educacionais e da cultura não devem desprezar para que o Brasil cumpra seu destino. Queremos então ampliar uma linha que se mostrou correta, apresentando a produção acadêmica não só em bienais, mas durante todo o ano. Em março, por exemplo, estivemos presentes na primeira feira do livro de Moçambique. Queremos continuar participando de eventos de integração da língua portuguesa. Em junho, organizaremos, junto à Editora da Universidade Federal do Ceará, o Fórum África, para onde vamos levar todos os livros da cultura afro-brasileira das várias editoras universitárias.

 

voltar

Veja a programação da Bienal