A inspiração das mães escritoras para
lidar com filhos e livros
Luciana Rangel
Ana
Maria Machado em família: lição de paciência
Ganhar o pão de cada dia e criar bem os filhos. Esta
tem sido a principal meta das mulheres nos últimos
tempos.
Com horários definidos e estabelecidos, as mães
operárias apelam para tudo: babás, creches e
apetrechos modernos. Mas quando o assunto é criação
artística, a coisa fica um pouco mais complicada. Aquela
paz necessária para fazer a imaginação
fluir é quase sempre interrompida por choros e horários
das mamadeiras.
- A maternidade é tema complicado para todas as mulheres
que trabalham. Eu aprendi a aproveitar o tempo em que as crianças
estavam na escola para fazer o que requer maior concentração,
como escrever. Também aproveitava a noite, quando dormiam.
Muitas vezes entrei no quarto de meus filhos, de madrugada,
para procurar uma borracha nas suas mochilas - diverte-se
a escritora argentina Maitena, autora da série Mulheres
alteradas, mãe de três filhos, e que veio ao
Rio, para participar da 11ª Bienal Internacional do Rio,
onde também estarão Ana Maria Machado e Suzana
Herculano-Houzel.
A escritora Helena Jobim sempre trabalhou, mas a gravidez
precoce a afastou da caneta por uns tempos.
- Tive minha filha com 17 anos e naquela época praticamente
não escrevi - conta Helena, que hoje acredita que
a maternidade contribuiu muito para seus livros. - Objetivamente,
no início a gravidez me deixou neurótica, mas,
subjetivamente, ser mãe e avó me ajudou muito,
me abriu canais como a criatividade e a inventividade. A maternidade
me ajudou a ser escritora. É tão importante
ser mãe, pois pude desenvolver minha afetividade, minha
espontaneidade. Isso me ajudou muito e continua me ajudando.
No livro O caminho das águas, a psicóloga
Edith Piza procura trabalhar a relação do feminino
e a criação artística. Na obra estão
depoimentos de escritoras de classe média, cultas,
que sempre tiveram os dois pés na literatura, mas só
começaram a escrever quando se tornaram mães
e esposas.
Foi assim com a cientista Suzana Herculano-Houzel, Ph.D. em
Neurociência. Seu primeiro livro, O cérebro
nosso de cada dia, que está na quarta edição,
nasceu depois de sua primeira filha.
- Comecei a escrever quando Luiza era bebezinha. Quando o
livro saiu ela tinha acabado de completar 2 anos, já
tinha de dividir a atenção. Ela aprendeu a dizer
''mamãe, desliga o computador''. Aí acabou a
fase de trabalhar em casa, levei tudo para o trabalho. Ela
também dizia ''cérebro'' - conta Suzana,
que, grávida de 5 meses, prepara novo livro que deve
nascer com o segundo filho.
Luiza Lobo, professora de Letras da UFRJ com vários
livros publicados, contou com a ajuda dos pais para cuidar
de Mariana, hoje com 17 anos.
- Minha filha nunca atrapalhou. Quando eu viajava para congressos,
ela ficava com meus pais. Você tem de dar limites à
criança. Quando você precisa de uma certa concentração
ela vai fazer as atividades dela. Ter uma filha me acrescentou
porque completou a minha vida, que ficou mais rica. A maternidade
não pode ser substituída por outras experiências
- conclui.
Ana Maria Machado, recém-eleita para a Academia Brasileira
de Letras, não planejou nada. Acabou seguindo seus
instintos maternais.
- Tudo foi tão de improviso, foi tão diferente
de um filho pro outro... Tive três filhos, um na década
de 60, outro na de 70 e outro na de 80. No primeiro ano de
vida de cada um consegui ficar com eles, fazendo tradução
e até escrevendo. Mais difícil foi com o Pedro,
quando eu estava no exílio e tinha um esquema para
deixá-lo na creche. Apesar do malabarismo de tempo,
consegui fazer tudo porque eles eram maravilhosos. Eles sabiam
que não poderiam me interromper naquela hora, mas depois
teriam toda a minha atenção. Eles tiveram muita
paciência comigo - lembra Ana Maria, que concorda
com as outras escritoras: no meio da guerra de mamadeiras,
anotações e brinquedos, o saldo foi positivo.
E, como já dizia o pai poeta Vinicius de Moraes,
''Filhos... Filhos? Melhor não tê-los. Mas se
não os temos, como sabê-lo?''