O físico Marcelo Gleiser entende que ensino ruim prejudica
interesse das crianças pelo tema
Alexandre Werneck
Como
todo cientista, Marcelo Gleiser já foi criança. Hoje, aos
44 anos, o físico que se tornou uma estrela com seus esforços
pela popularização da ciência (não só com best-sellers como
A dança do universo e O fim da terra e do céu
como também com sua consultoria ao programa Globo ciência,
da TV Globo, e sua coluna no jornal Folha de S. Paulo) se
lembra bem dos tempos em que, menino, sonhava em ser cientista.
Não era brincadeira. Mas, para Gleiser, isso não significa
que a ciência não possa ser divertida e atrair infantes e
adolescentes.
Seu novo
trabalho, O livro do cientista, lançado na 11ª Bienal
do Livro (pela Companhia das Letrinhas), abre um desafio para
o cientista, que leciona para gente bem crescida no Darmouth
College, em New Hampshire, Estados Unidos, desde 1991: fazer
com que os meninos – o grupo mais curioso e que demanda as
explicações mais exigentes – se interesse por física, astronomia,
química, biologia e matemática.
Mesmo que a obra tenha nascido a convite da editora, como
parte de uma coleção em que profissionais explicam suas profissões
para jovens, Gleiser transformou em desafio pessoal a idéia
de aproximar o conhecimento dos pequenos. Isso em um país
em que o ensino de ciências é notoriamente deficiente e onde
poucas pessoas chegam à fase adulta com conhecimentos sólidos
sobre questões científicas. Para Gleiser, não é preciso fazer
muitas contas para dar uma explicação:
– O grande
problema do ensino de ciências nas escolas comuns do Brasil,
as públicas, bem diferentes dos grandes colégios da classe
alta, é que neles quem ensina ciências não é um cientista.
Muitas vezes é um professor que, como os alunos, não teve,
quando aluno, a paixão pela ciência despertada e que não aprendeu
ciências como deveria – diz ele, por telefone, de sua casa,
na cidadezinha americana de Hanover, onde fica o Darmouth.
O físico
reconhece que o acesso às ferramentas que permitem a alguém
se apaixonar pela ciência se tornou um bem elitizado – como
aconteceu com ele, que estudava Engenharia Química, mas abandonou
o curso para mergulhar de cabeça em uma formação de Física
teórica, história que, autobiograficamente e com uma linguagem
de literatura infantil, ele conta no livro. Para agravar o
problema, ele vê uma grave inversão na abordagem das ciências
nos métodos de ensino:
– Elas
são sempre ensinadas do particular para o geral, e eu as ensinaria
do geral para o particular. Recorre-se sempre a exemplos,
com experimentos pontuais, mas não se faz a história do conceito,
não se explica como ele surgiu e por que ele é importante.
Pai de
três filhos, Gleiser não perdeu a manha de como falar aos
pequeninos. Mas foi buscar mesmo em suas memórias a maneira
de apresentar curiosidades e argumentos. Encontrou em histórias
como a travessura de estourar as bolas de uma festa de aniversário
os exemplos necessários para dar asas à imaginação de quem
precisa entender que a Terra gira em torno do Sol ou que a
matéria é formada por átomos.
Gleiser
nunca se intimida diante de uma pergunta. O desafio de falar
para a infância não é maior do que para o adulto? Aflora a
autoconfiança do professor, que costuma dar aulas nas turmas
dos filhos em suas escolas pelo menos uma vez a cada ano letivo:
– Crianças
e adolescentes são muito mais interessados e curiosos. É muito
melhor lidar com eles. Mas, aos 11 ou 12 anos, parece que
a curiosidade seca. Por isso, meu trabalho é voltado para
a faixa dos 11 aos 15 anos, para fazer com que não parem de
perguntar.
Pois o
ato de perguntar de um pequeno costuma ser um pesadelo para
os adultos. Por isso, ele pretende que seu discurso sirva
como guia para os pais que se vêem diante de filhos cheios
de sede de conhecimento e ostentam isso com perguntas 'cabeludas'.
– Se bem
que boa parte dos mais velhos precisa mesmo é aprender a ciência
mesmo antes de responder a qualquer pergunta – lembra ele,
chamando mais uma vez a atenção para o problema do ensino
escolar, para ele, o principal complicador do aprendizado
de ciências.
É preciso,
então, colocar no gráfico tudo aquilo que rouba a atenção
dos alunos (é quase impossível hoje em dia para divertidíssimos
vetores, cloretos e mitocôndrias competir com o clamor da
televisão e do computador). A batalha pela atenção é muitas
vezes covarde. Pois, se não se pode vencê-los, faça-os se
juntarem a você. Não é uma atividade muito fácil, como a experiência
de Gleiser prova.
– A mídia
poderia ter um papel muito importante. Mas, como os estudantes
lêem pouco jornal e como poucos têm acesso a computador, caberia
à televisão ocupar esse espaço. Mas na TV aberta brasileira
hoje há apenas um programa de ciências, justamente o Globo
ciência. E ele é exibido aos sábados, às 6h30 da manhã. Já
pedi mais de uma vez para o programa ir para um horário em
que seja estimulante assistir, mas ele continua lá.