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Paixão,
ciúmes, mortes e nenhum ensaio
MARIA ISABEL BORJA
*
Jornal do Brasil
UM
VENENO CHAMADO AMOR: ENSAIOS SOBRE PAIXÕES, CIÚMES E
AMORES
Carmen Posadas
Objetiva, 172 páginas
R$ 20,90
Acaso
alguém verá mal em venderem-se canetas esferográficas
descartáveis ou guarda-chuvas de R$ 3 que se desmancharão
na primeira rajada de vento mais violenta, mas quebram
o maior galho na hora do aperto? Como canetas descartáveis
servem aos que não dão muito valor às montblancs
da vida, porque sabem que as perderão na primeira
oportunidade, e os tais guarda-chuvas parecem uma bênção
caída do céu quando começam a brotar nas mãos dos camelôs
no centro da cidade, Um veneno chamado amor,
de Carmen Posadas, também pode ter lá o seu valor como
produto. Não resistirá a mais de cinco minutos após
a leitura, mas pode divertir os muitos apreciadores
de revistas sobre celebridades e amantes de enlatados
americanos ''baseados em fatos reais''.
Todo, ou quase todo, o mal de Um veneno chamado amor
está no subtítulo: ''Ensaios sobre paixões, ciúmes
e mortes''. E o problema não está nas paixões nem nos
ciúmes nem na morte, mas em chamar-se ''ensaio'' a algo
que poderia ser, no máximo, uma crônica ligeiramente
envernizada com eventuais citações eruditas. Para pretender-se
ensaísta, falta à autora, ao menos nessa obra, objetividade,
compromisso com a coerência e, sobretudo, profundidade,
capacidade de duvidar de suas próprias afirmações. Por
outro lado, o livro não deixa de ser a testemunha fiel
das idéias sobre amor e paixão que circulam hoje nas
mesas de qualquer botequim. Em entrevista a uma revista
espanhola, Posadas afirmou considerar que o essencial
para um escritor era ''ser testemunha de seu tempo''.
Se avaliarmos seu livro a partir disso, não poderemos
negar-lhe o mérito: todos, absolutamente todos, os lugares-comuns
contemporâneos sobre amor e paixão estão ali.
Já no prólogo, a autora anuncia o tom impressionista
e melodramático, ainda que bem-humorado, que acompanhará
o leitor dali para frente: ''Porque amei e sofri, interessei-me
por aquelas mulheres e homens que foram capazes de atos
e comportamentos totalmente irracionais por amor (...)''.
Mas, no início do primeiro capítulo, a autora parece
propor algo um pouco mais consistente cotejando definições
e descrições de filósofos, escritores e compositores
de bolero (o que não deixa de dar um certo colorido
e interesse à explanação). Como seria de se esperar,
ao final do capítulo não se chega a conclusão alguma,
exceto a de que amor e paixão são coisas diferentes,
embora não se saiba exatamente o que são. Até aí, nada
que o leitor mais simplório já não soubesse antes de
começar a ler. Ainda assim, esse é o melhor capítulo
do livro. Ilustrado com algumas curiosidades históricas,
como a ''Igreja do Amor'' dos cátaros, o texto ganha
alguma sustentação e objetividade, e, com algum esforço
e boa vontade, o leitor poderá até farejar uns resquícios
da clareza de raciocínio que costuma dar brilho ao discurso
de espanhóis e franceses.
Daí para frente, o que há é uma sucessão de episódios
trágicos destinados a provar que a paixão, um mito estabelecido
no século 12, é o caminho mais curto para o crime e
a loucura. A tese não é nova e alguns pensadores ilustres,
vários deles citados pela autora, já escreveram bastante
sobre o assunto. Contudo, Posadas não quer provar coisa
alguma, não se detém numa linha de raciocínio e atira
em todas as direções, dissecando as agruras dos apaixonados
de todos os tempos. A seleção dos episódios que, à falta
de tese, recheiam o texto com assombrosa fartura, não
obedece a nenhum critério, exceto o de conterem rios
de lágrimas e bastante sangue. Histórias reais e lendas,
enredos do cinema e da literatura, tudo se mistura no
mesmo saco. Não há análise, mas tão-somente interpretação.
Interpretação, que, aliás, desconsidera qualquer outro
elemento da vida das personagens além paixão. Não importa
averiguar se o apaixonado sangüinário apresentava outros
traços de demência, se fora espancado pelos pais na
infância ou descendia de gerações de lunáticos. Para
Posadas, o único aspecto relevante de sua biografia
é a paixão.
Sem abandonar esse caminho, o último capítulo, ''Do
amor ao ódio'', surge enfeitado com certo feminismo
de butique sustentado por afirmações peremptórias sobre
o desejo de posse masculino e a complacência feminina,
para as quais a autora não parece necessitar de qualquer
comprovação. ''Em qualquer lugar do mundo os homens
têm um instinto de posse muito desenvolvido com relação
à mulher com quem dividem a vida e a cama'', ''É bem
verdade que a mulher de hoje luta para conquistar o
homem por quem se interessa, mas a traição ou o abandono
não desperta nela a necessidade de afirmar seu direito
de propriedade sobre o ser amado''. Será? Melhor não
discutir, Carmen Posadas assim o quer.
Isto posto, a autora conclui, surpreendentemente para
quem acaba de ler o registro de dezenas de suicídios,
homicídios e mergulhos na loucura, que uma paixãozinha
de vez em quando não é assim tão má e é mesmo essencial
para temperar a rotina do amor. Antes de terminar seu
livro, Posadas não se furta a oferecer um último conselho:
''Champanhe e lingerie ousada''.
Seja como for, Um veneno chamado amor deve ser
um sucesso de vendas, e talvez muito mais interessante
do que criticar o texto seja empreender a análise do
produto editorial e de seu provável sucesso. Gostemos
ou não dessa mistura, o fato é que a autora consegue
diluir porções de antropologia, sociologia, filosofia
e psicanálise de bolso numa seqüência de formidáveis
story lines para roteiros televisivos. E, isso
tudo, no molho de um texto inegavelmente fluente, leve
e bem-humorado. (Admitamos: é preciso ter talento para
dar leveza ao relato dos mais cruéis tormentos passionais!).
Além do mais, não obstante o risco de emprestar munição
à imaginação de alguns psicopatas apaixonados, não é
impossível que o livro ajude alguém a sair da fossa,
cumprindo com eficiência o papel da auto-ajuda, porém
nunca o do ensaio.
Nesses tempos em que os espanhóis, donos de uma das
mais conceituadas e prósperas indústrias editoriais
do planeta, começam a lançar suas âncoras em nossa costa,
talvez seja útil compreender que só muito raramente,
aqui ou no tal Primeiro Mundo, a chamada alta literatura
é popular. Seja onde for, incluindo-se aí países com
uma notável tradição literária, como a Espanha, a grande
literatura é majoritariamente financiada por obras de
qualidade literária discutível, mas extremamente bem-cuidadas
como produto comercial. Por mais contraditório que possa
parecer, é bastante provável que, no momento em que
os nossos editores comecem a fabricar nossas próprias
Carmen Posadas, com o mesmo esmero que europeus e americanos,
os grandes autores nacionais possam também conquistar
o lugar que merecem. Afinal, não dizem os homeopatas
que, na dose certa, o veneno pode provocar a cura?
* Maria Isabel Borja é mestre em Literatura
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