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Um
experiente estreante
RODRIGO FONSECA
Jornal do Brasil
AS
PÉROLAS PEREGRINAS
Manuel de Lope
Record, 288 páginas
R$ 32
Um
dos gêneros mais populares da literatura internacional,
o romance policial nunca teve uma grande produção em
terras espanholas. Seu representante mais conhecido,
desde a década de 70, foi o romancista Manuel Vázquez
Montalbán (Os mares do sul), criador do detetive
Pepe Carvalho. Entretanto, em 1998, outro escritor da
Espanha, consagrado em dramas autobiográficos, despertou
a atenção de críticos e leitores ao brincar com os clichês
que fizeram a fama do estilo noir. Paródia das
tradicionais novelas de mistério, As pérolas peregrinas
é uma criação de Manuel de Lope, 52, que estará na Bienal
no próximo dia 20, às 16h30, ao lado do colega Montalbán
para falar de bandidos e mocinhos literários de seu
país.
De Lope debutou na literatura em 1976, com o romance
Albertina en el país dos los garamantes, uma
temática distante das tramas detetivescas. A guerra
civil e a sombra franquista, somadas aos desencantos
pessoais da juventude, sempre foram os elementos centrais
de sua obra, que já soma sete livros. A idéia central
de As pérolas peregrinas, uma caçada por duas
jóias perdidas no submundo de Madri, apareceu para o
autor como uma forma de relaxar do tema trágico de seu
trabalho anterior. ''Em 1996, publiquei Vella en
las tinieblas, um romance que me exigiu dedicação
total. Foi aí que tive a idéia de brincar com um gênero
de fórmulas já consagradas'', afirma ao Jornal do
Brasil, em entrevista por telefone.
Os cânones da ficção policial nunca foram grandes referências
para De Lope. Leu mais Shakespeare que Dashiell Hammett.
Sem ter moldes para seguir, preferiu apelar para o humor
e trocar a violência dos conflitos entre investigadores
e marginais por uma trama rocambolesca apontada nas
confusões de seu protagonista: um advogado com mais
curiosidade que coragem. ''O universo policial é um
tema que pertence à literatura espanhola contemporânea.
Ainda não possui uma tradição. Resolvi aproveitar essa
condição para fazer uma paródia'', afirma.
Nascido em Burgos, em 1949, De Lope abandonou uma formação
em engenharia ainda na adolescência, após uma prisão
causada pela repressão política em seu país. Já no final
dos anos 60, vai tentar a sorte na França onde toma
contato com a agitação cultural da nouvelle vague
e começa a escrever profissionalmente. Influenciado
pela combativa intelectualidade francesa, começa a rever
a situação social da Espanha e decide dedicar suas palavras
a uma crítica à opressão e à censura que tolheram a
liberdade de sua geração.
Hoje, 25 anos depois de seu primeiro livro, De Lope
compreende sua participação na Bienal como uma forma
de comemorar a condição de uma nova Espanha. Uma terra
despida de fantasmas de un viejo tiempo que no hay
que volver. ''Sinto uma responsabilidade grande
pois não se trata de apresentar meu trabalho, mas meu
país'', desabafa.
A vinda à Bienal não será a primeira visita de De Lope
ao Brasil. O escritor conheceu São Paulo na década de
90, quando veio participar de uma breve conferência
com outros autores internacionais. Mas sua aproximação
com a cultura brasileira é bem anterior. De Lope tornou-se
fã da arte nacional ainda na juventude, através de três
referências.
A primeira foi a prosa de Guimarães Rosa. A segunda,
as obras de Aleijadinho, que conheceu através de uma
série de estudos franceses. E a terceira, a que considera
mais marcante, veio de Glauber Rocha. ''No final dos
anos 60, ao mesmo tempo que a Europa recebia o boom
do novo cinema americano que chegava com Easy rider,
vinham filmes brasileiros em preto e branco como Deus
e o diabo na terra do sol. Algo diferente e com
muito a dizer'', elogia.
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