
O
mehor e o pior da Bienal
Evento
que termina neste domingo foi sucesso de público,
valorizou livros e escritores, mas não está
imune a críticas
CRISTIANE
COSTA
Nem
mesmo o intelectual mais empedernido deixa de se alegrar
ao ver a quantidade de gente que vem superlotando a
10ª Bienal Internacional do Rio de Janeiro, a ponto
de os portões do estacionamento terem sido abertos no
domingo para facilitar o fluxo e diminuir o engarrafamento.
Mas, depois de passar por quilômetros de estandes e
milhares de livros em poucas horas, é raro o maratonista
que não sinta um certo cansaço, misturado com fastio,
e não diga baixinho para si mesmo: quanta árvore abatida
à toa.
Se é certo que as coisas boas de uma Bienal do Livro
se sobrepõem às piores, também não dá para fechar os
olhos para os defeitos do evento e que muitas vezes
dizem respeito ao mercado editorial brasileiro como
um todo. Ninguém duvida que a Bienal do Livro é uma
festa para a cidade; uma chance sem igual de o leitor
conhecer de perto seu autor favorito; um raro momento
em que o livro fica em primeiro plano no cenário cultural,
merecendo uma atenção da mídia que dificilmente é dispensada
no resto do ano. Mas também não dá para entender por
que é tão caro ir à Bienal. Fora a gasolina para chegar
ao Riocentro, são mais R$ 5 de estacionamento e R$ 6
de entrada por pessoa. O pior é que, com raras exceções,
como a FTD a Edusp, as editoras não dão desconto. É
o mesmo preço da livraria da esquina ou da internet
e ponto final.
É
preciso reconhecer que o Sindicato Nacional dos Editores
de Livros (SNEL) vem se esforçando para diminuir o caráter
comercial, de grande feira de livros, que até então
imperava na Bienal e transformá-la cada vez mais num
evento cultural. Desde que a Câmara Brasileira do Livro
(CBL) tentou criar uma feira em São Paulo no mesmo ano
em que se realizaria a Bienal do Livro do Rio de Janeiro,
o evento mudou da água para o vinho. Com o objetivo
de esvaziar o salão paulista, em 1999, foi feito um
tour de force que reuniu mais de 100 escritores
em torno de debates, conferências e cafés literários.
Detalhe: até o ano anterior, era uma roubada lançar
livro ou participar de qualquer conferência na Bienal,
tanto a do Rio quanto a de São Paulo. Os auditórios
ficavam às moscas e nem as mães dos escritores apareciam.
O público carioca correspondeu aos esforços e, nesta
edição, o Café Literário se consolidou como o grande
atrativo da Bienal. Debates como os que reuniram Tony
Bellotto, Luis Fernando Verissimo, Luiz Alfredo Garcia-Roza
e Patricia Melo para falar de literatura policial provocaram
filas quilométricas de leitores à espera de uma senha
no último domingo. Mas a programação bem que poderia,
na próxima edição, dar uma canja para os menos vendidos,
assim como jovens autores, misturando-os às celebridades
que monopolizaram as mesas.
Popular
- Os lançamentos das grandes editoras durante a
Bienal também priorizam os títulos comerciais e autores
célebres, abrindo pouco espaço aos escritores menos
conhecidos. Faz sentido, já que, no meio de 1.200 lançamentos
num único mês, aparece mais quem já tem um nome firmado
no meio literário. São quase nulas as chances de um
autor iniciante não ser engolido por um medalhão e conquistar
um lugar ao sol nessa selva de divulgadores.
Naquele que é um dos maiores eventos culturais da cidade,
não faltam livros de auto-ajuda para tudo. A impressão
é de que, dos alardeados 1.200 lançamentos em um mês,
um mil vieram à luz para ensinar os outros como alcançar
a paz, o sucesso, emagrecer, namorar, casar, separar
e fazer sexo (isso então é o que mais tem). Desde os
ensinamentos do colunista da Playboy James Petersen,
que explica em 265 maneiras de enlouquecer juntos
na cama quais os acessórios necessários para realizar
uma Filadélfia voadora (ou o que é que isso seja),
até as dicas médico-filosóficas inspiradas na sabedoria
indiana do Dr. Chopra - agora além do Deepak tem o Krishan
- pode-se aprender de tudo na Bienal. Krishan (o pai)
é autor de O segredo da saúde e da longevidade
e agora está tirando casquinha do sucesso de Deepak
(o filho), que lança Como conhecer Deus, obra
que dá seqüência aos 11 títulos que já tem publicados
no Brasil. Nem mesmo Sua Santidade O Dalai Lama escapa.
O adorável líder tibetano lança mais um título nesta
Bienal, Amor, verdade, felicidade: reflexões para
transformar a mente e assina o prefácio de outro,
Espiritualidade essencial, de Roger Walsh, um
típico M.D., Ph.D.
Bienal também parece ser a época perfeita para se lançar
best seller. A bucólica Nora Roberts comparece
com A pousada do fim do Rio - uma daquelas manjadas
histórias de uma mocinha que descobre o amor enquanto
busca pela verdade escondida em seu passado - e o elétrico
Michael Crichton com Congo - romance baseado
na história real de uma expedição ao coração da África
que encontra a morte em meio às ruínas de uma cidade
perdida e uma jazida de valiosos diamantes azuis. Mas
a onda do momento é mesmo o romance histórico passado
na Antigüidade, qualquer uma: de As memórias de Cleópatra,
a Os herdeiros de Nero, passando pelos primeiros
volumes de Os incas e da Trilogia de Cartago,
além de o último da saga de Ramsés, é o filão
do momento.
Nacionais
- Obviamente não falta também polêmica na literatura
brasileira, como a que cercou o lançamento de Os
100 poemas do século, antologia organizada por Ítalo
Moriconi, que esgotou a primeira edição mal saiu da
gráfica. Outro destaque da literatura brasileira é Barco
a seco, o novo romance de Rubens Figueiredo, vem
sendo considerado por críticos e leitores mais exigentes
como a melhor obra de ficção nacional lançada nesta
Bienal e sério candidato ao Prêmio Jabuti. Mas pode
ser que dê zebra na hora da escolha, como em várias
categorias do prêmio entregue este ano, entre elas a
de melhor romance. Nunca se sabe quais os critérios
dos jurados.
Bienal também é época de convidados estrangeiros. A
delegação espanhola veio meio fraquinha, como assinalou
o jornalista Juan Árias em seu artigo em El País.
Seus únicos nomes de peso foram a perua Carmen Posadas
e o antipático Manuel Vázquez Montalbán. Mas, além dos
livros, uma das melhores coisas do estande da Espanha
era a exposição de encadernações premiadas. Ousadíssimas,
elas fogem da idéia de livro encadernado como coisa
do vovô. Só que, perto do investimento feito por Portugal,
na última Bienal do Rio, foi muito pouco. O bom é que
quem se apaixonou pela literatura portuguesa contemporânea
pôde contar este ano com um presente da editora Cotovia.
Seus mais recentes lançamentos, como o último livro
de Pedro Paixão, Do mal o menos, estavam à venda
a preços que não eram de importados.
Nem por isso deixou-se de falar espanhol durante a festa
de inauguração da Bienal, no Parque Lage, dada a presença
da alta diretoria da Prisa-Santillana, um dos grupos
editoriais mais importantes do mundo e que, de olho
no mercado brasileiro, comprou a Moderna. Os espanhóis
conversaram muito com os editores brasileiros, mas parecem
estar apenas observando o jogo antes de arriscar novos
lances milionários. Alguns tentaram uns passinhos de
forró numa festa que entrou para a história como a melhor
da Bienal - o que não é difícil, já que as outras tinham
como característica principal a chatice e a comida ruim.
Desta vez, o buffet escolhido arrasou, não tanto pelos
acepipes moderninhos, mas pela escolha dos animadíssimos
garçons e garçonetes (em que agência de modelos foram
contratados?), que arrancaram suspiros dos solteiros
e solteiras, lá pelas 4h da manhã, ao subir na bancada
do bar e fazer um show improvisado, que contou ainda
com uma performance espontânea de Débora Colker.
Ele
e ela - Se os escritores espanhóis se mostraram
discretos, sucesso mesmo, e por diferentes razões, fizeram
o cubano Pedro Juan Gutiérrez e a americana Shere Hite.
O jeitão do rei de Havana é um misto de latin lover
e bad boy, mas ele tratou logo de botar água
fria nas leitoras mais calientes, que levaram
à sério as realistas cenas de sexo de seus livros. "Sou
um homem de 50 anos, pai de quatro filhos. Estão confundindo
o autor com o personagem", dizia. Resultado: quase ninguém
viu a famosa tatuagem de uma cobra enrolada numa adaga,
camuflada pela camisa.
Louríssima, maquiadíssima, branquíssima, e com uns modelitos
que mais pareciam ter sido compradas na loja da Barbie,
a poderosa Shere Hite jamais passou despercebida, mesmo
no tumulto da Bienal. Lânguida como nenhuma outra feminista
até hoje teve a coragem de ser, ela podia ser reconhecida
pelos tons de suas saias de cetim, entre o azul Cinderela
e o rosa bebê.
Evidentemente, o sucesso não é medida de tudo numa Bienal.
Tanto as conferências do historiador francês Roger Chartier
quanto as do sociólogo italiano Domenico De Masi ficaram
lotadas. Mas se o primeiro, em Cultura escrita, literatura
e história, escapa brilhantemente do blá-blá-blá
em torno do fim do livro, o segundo repete, em A
economia do ócio, a lenga-lenga utópica de que o
capitalismo vai por livre e espontânea vontade permitir
que seus trabalhadores diminuam as horas de labuta para
que todos tenham mais empregos. Só se for no céu.
Infantil
- A cada ano, a Bienal do Livro se firma como um
dos programas mais int eressantes para se levar as crianças.
Dá gosto ver seus olhinhos brilhando ao folhear tantos
livros coloridos ou ouvir os contadores de história.
Mas que elas fazem uma algazarra, fazem. Principalmente
durante a semana, quando são esperadas as 170 mil crianças
dentro do programa de visitação escolar. As que estudam
em escolas públicas recebem R$ 2 para comprarem qualquer
coisa. É melhor que nada, mas bem que o governador Garotinho
poderia ter sido mais generoso com os futuros leitores
cariocas.
Se escapar de trombar com um pequeno em disparada, fugir
dos apelos insistentes dos vendedores de assinatura
de revistas, evitar perder tempo em dezenas de estandes
que não têm nada a ver com livros, o leitor pode encontrar
um bom motivo para sua ida à Bienal garimpando preciosidades
bibliográficas no estande das editoras universitárias
(que numa boa sacada se reuniram num mesmo lugar, em
vez de se espalhar pela Bienal), nas charmosas bancas
de importados da Livraria da Travessa (considerado o
mais inovador estande do evento) e da Leonardo da Vinci.
Se sair do Riocentro com um livro na mão e o desejo
de ler aguçado por todo essa movimentação em torno da
literatura, já valeu a ida à Bienal.
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