ADRIANA LORETE/AJBUm bate-papo com o "Hemingway da Bahia"

ALESSANDRA DUARTE

A fala arrastada não nega: ele é baiano. Da Ilha de Itaparica. O escritor João Ubaldo Ribeiro, uma das presenças desta X Bienal do Livro, é daquelas pessoas que falam devagar, mas não tiram a paciência de seu interlocutor. Muito pelo contrário. De uma inteligência privilegiada, uma sinceridade desconcertante e um humor, que quem lê suas crônicas ou livros, bem conhece. João Ubaldo, nesta entrevista ao JB Online, fala um pouco do que pensa sobre a Bienal, a educação e a política no país, sua obra como escritor e seus leitores.

O cineasta Glauber Rocha, seu colega de escola, o chamava de "Hemingway da Bahia". Os amigos mais próximos conhecem sua erudição misturada com originalidade e leveza de espírito. Se você não está entre esses felizardos, relaxe na cadeira e pense que, a partir de agora, você está naquele barzinho numa roda de amigos, sem mais nada com que se preocupar a não ser ouvir o João contar suas piadas, citar os clássicos - como Shakespeare e Mark Twain, de que tanto gosta - e, quem sabe, fazer uma de suas imitações impagáveis de Cauby Peixoto, Louis Armstrong e Dorival Caymmi.

Uma relação de amor e ódio
O que você pensa sobre a Bienal do Livro?

Eu tenho horror à Bienal. Mas sempre me chamam para participar, sempre inventam algo para me colocar lá.

Por que esse horror?

Não gosto de aglomeração, sou um cretino topográfico - eu me perco fácil demais, até para ir ao banheiro preciso de uma babá - e eu odeio o Riocentro.

Você disse uma vez que era longe.

É longe. Até Ipanema eu acho longe, e eu moro no Leblon. Além do mais, eu não sei dar autógrafo, escrevo sempre "um abraço do amigo João Ubaldo".

Você vai participar do "Bate-bola literário", não é? Você gosta de falar sobre futebol?

Eu gosto de futebol, mas espero que não seja um debate muito técnico, porque senão não vou saber responder. Parece que o tema é futebol e literatura. Aí sim.

Por que, mesmo sabendo que você realmente não gosta de Bienal, sempre lhe convidam?

Olha, eu sou forçado a ir à Bienal. O que eu sofro de assédio por causa disso você não tem idéia nenhuma. De amigos até. Só faltou ameaça de suícidio se eu não fosse... É sério mesmo. É gente que me fala que isso é falta de consideração, da possibilidade de criar inimigos.

Analfabetos funcionais

Os professores são convidados especiais da Bienal deste ano. Essa ligação entre educação e literatura me lembra o que o escritor português José Saramago falou quando esteve no Brasil, numa palestra na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Ele falou do problema do analfabetismo funcional em seu país, que é não o analfabetismo elementar, da pessoa não saber ler, mas de ela ler e não saber interpretar textos, extrair informações e conhecimento deles. Como você vê esse problema no Brasil?

Olha, isso tem aqui sim. Houve uma crônica minha uma vez em que eu pus vários ’a nível de’, ’enquanto pessoa’, fazendo justamente uma paródia a esse estilo modernoso de falar e escrever. Eu recebi várias cartas de leitores criticando o fato de eu ter escrito errado na crônica.

Não entenderam que era uma ironia.

Não entenderam. O (Luís Fernando) Veríssimo fala que às vezes só falta ele precisar colocar nas crônicas dele "Atenção, isso é uma ironia".

Você acha que falta investimento no combate a esse tipo de analfabetismo no Brasil?

Claro que falta! Como falta tudo que é importante neste país.Você vê, vamos ter apagão agora. Isso é imoral. Um país rico como o nosso. O Japão são ilhas, o Canada é 2/3 de gelo. Nosso país é riquíssimo. O falecido Aloisio Biondi disse uma vez que ele é uma das mais ricas nações em petróleo do mundo.

Como você acha que essa situação do analfabetismo funcional pode mudar?

Os professores - não todos, eu não quero generalizar -, a maior parte infunde terror nos alunos, principalmente em relação aos clássicos. Eles transformam a leitura num suplício. Eu sou objeto de ódio por parte de vestibulandos; tem perguntas sobre obras minhas que eu seria incapaz de responder. "No contexto pós-moderno, isso se insere...". Tiram o lado lúdico, de prazer da leitura, ela passa a ser uma tarefa a ser cumprida. Ler não pode ser uma tarefa terrível, sob a sombra de perguntas que vão fazer para você depois.

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