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Entrevista
A
Máquina de Escrever humana
LEANDRO
MAZZINI
Ninguém imaginava que um menino mudo até os cinco anos
seria hoje um consagrado romancista brasileiro. O garoto
encontrou no defeito uma saída para se expressar: escrevia
tudo o que queria dizer. O que era, então, uma alternativa
para a comunicação, tornou-se o embrião de páginas literárias
que conquistaram leitores em todo o Brasil. Assim nasceu
o escritor Carlos Heitor Cony.
O romancista relembra, numa de suas crônicas, que um
dia descobriu a voz quando passeava na praia de Icaraí,
em Niterói. Ele viu um hidroavião pousando na praia
e ficou em pânico. O pavor o fez gritar, a voz apareceu
gradualmente, todavia não perdeu o gosto pela redação.
No início, passava por situações constrangedoras, como
a troca da letra g por d na pronúncia, a ponto de falar
"fodão" em vez de "fogão". Corrigiu-se a tempo. Foi
seminarista, abandonou a missão, mas não a devoção por
Santo Antônio. Hoje, aos 75 anos, autor de 33 livros
e colecionador de vários prêmios nacionais e internacionais,
Cony redige crônicas diárias para jornais de circulação
nacional e realiza palestras em diversas cidades do
Brasil.
O escritor se calou durante 23 anos. Quando lançou o
polêmico romance Pilatos, em 1973, considerado pelos
críticos a sua melhor obra, Cony jurou para si mesmo
nunca mais publicar um livro. Caiu em tentação. Em 1995,
desiludido com a morte da cadela Mila, uma fiel companhia
da família, volta à ativa com o excelente Quase memória,
um misto de romance e nostalgia - que ele prefere denominar
melancolia -, cujo enredo narra a sua convivência com
seu ídolo: o pai, jornalista Ernesto Cony Filho. O livro
conquistou três prêmios nacionais e incentivou a retomada
de sua produção literária. Dentre as muitas histórias
contadas nas recordações, uma fascina o leitor e será
referência para futuras citações: o caso do balão solto
pelo pai numa noite de São João e que, dias depois,
volta ao lugar de origem, para ser sepultado nas mãos
de seu criador.
O autor é um perfeccionista quando o assunto é literatura.
O primeiro e bem elaborado romance O Ventre foi reescrito
onze vezes e marcou seu batismo no cenário cultural.
A verdade de cada dia, segundo livro, foi redigida em
nove dias. Daí por diante, as letras tornaram-se rotina
do escriba e prova de que a fluidez de sua produção
o transformou numa máquina de escrever humana. Em 1999,
Cony redigiu Romance sem palavras em onze dias, cujas
134 páginas são recheio de um intrigante enredo envolvendo
um triângulo amoroso nos tempos do Regime Militar no
Brasil. A ditadura, aliás, é fator marcante em sua obra,
conseqüência de seu combate ao movimento e das muitas
prisões que sofreu, obrigando seu exílio em Cuba. Jornalista
desde 1952, iniciou carreira no Jornal do Brasil, passando
pelo Correio da Manhã, Revista Manchete e, atualmente,
é membro do conselho editorial da Folha de S. Paulo.
Por conta disso e de outros bons livros lançados em
seu retorno à literatura, Carlos Heitor Cony aceitou,
depois de muito relutar, o convite de Arnaldo Niskier
para concorrer à cadeira número 3 da Academia Brasileira
de Letras, tornando-se imortal em 31 de maio de 2000,
data que escolheu por devoção à Maria. Seu discurso
de posse foi marcado pela consolidação da fé na alma
de um escritor persistente e religioso.
Este ano, Cony lançou O presidente que sabia javanês,
coletânea de crônicas que têm Fernando Henrique como
personagem e sua política como conteúdo. O autor também
está produzindo dois romances, que provavelmente serão
publicados no início de 2002. A editora Cia das Letras
relançou Pilatos há dois meses. O livro conta a trágica
história de um homem que se acidenta, tem o pênis amputado
e vaga pelo Rio com o órgão dentro de uma compota, vivendo
as mais hilariantes situações. O autor dá um toque pitoresco
no enredo, criando casos que mostram as mazelas da personalidade
humana. Polêmico sim, mas nada que fuja de uma boa literatura
que se imortaliza nas páginas.
O autor na Bienal:
Café Literário 19/05 - 19h "Os Encantos do Romance"
Café Literário 24/05 - 19h "A Praia, as Cidades e as
Serras"
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