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JOÃO UBALDO RIBEIRO
Profissão:
escritor
Você acha que teve influência do seu trabalho como
jornalista no trabalho de escritor?
Eu acho que tem sim, pela disciplina, de escrever com
prazo de fechamento. E também eu fui bom copidesque.
Você disse numa entrevista que não tem mais "tantas
ambições e ilusões na profissão (de escritor)" diante
de tudo que viveu. Chateado com alguma coisa?
Não. Tô ficando velho e perdendo ilusões, só isso. Estou
numa idade que é simbólica, 60 anos. A pessoa se torna
um sexagenário, um ’sessentão’, como a mulher de 30
anos e o quarentão, que também são idades simbólicas.
E você também já disse, acho que até se queixando
um pouco, que não tem senso de dramaturgia. Então eu
lhe pergunto: você gostaria de ter pela vontade de saber
ter, por curiosidade de fazer ou pelo dinheiro que dá
fazer novela no Brasil?
Pela experiência. Eu já tentei escrever peças de teatro,
por exemplo, e vi que não dava certo.
Falaram para você ’João, volta para o que você fazia
antes’?
Não, nunca terminei uma peça e nunca submeti peça nenhuma
minha à aprovação de alguém. Eu mesmo vi que não tinha
ficado bom.
Mas você não gostaria de escrever pelo dinheiro porque
você uma vez disse que escreve... por dinheiro?
É.
Escrevo. Eu escrevo por dinheiro.
Se você pudesse parar de escrever, pelo menos por
um tempo, faria?
Faria sim.
O que você prefere escrever: seus romances, seus contos
ou suas crônicas?
Meus romances e contos. Porque eu vivo das crônicas,
então só a obrigação estraga um pouco. Não que eu não
goste de escrever as crônicas.
É
a regularidade com que você tem de escrever.
Exatamente.
Você disse uma vez que não seria usuário de livro
eletrônico. Então por que você escreveu um?
Eu disse isso? Não disse isso não. Se juntassem todas
as besteiras que remetem a mim daria uma enciclopédia.
(risos) É claro, eu sou um homem de livro convencional,
mas hoje já existem aparelhos, ainda primitivos, de
leitura de livros, que armazenam os textos, armazenam
100 ou mais livros. E aí você pode guardar vários, para
ler nas férias. Se você não sabe se quer ler um romance
policial ou pôr Machado de Assis em dia, você pode guardar
para escolher de acordo com seu espírito lá na hora.
Mas esses aparelhos são muito caros e muito primitivos
ainda. E é inconveniente, porque não é papel, é eletrônico.
Mas dá para marcar notas, sublinhar. O que não se pode
prever é essa geração de agora, não é impossível que
eles prefiram o livro eletrônico ao de papel; meus filhos
fazem parte dela, por exemplo. Um acabou de sair da
adolescência, outro está começando a sair.
Você está tendo trabalho, hein?
Estou. (risos) Então, não é impossível que essa geração
aceite muito bem o livro eletrônico, como também não
é impossível que façam livros à prova d’água, ou que
venham com cheiro de papel.
Você não gosta de falar sobre e-books por causa da
recepção ao seu e-book (’Miséria e grandeza do amor
de Benedita’)?
A recepção foi meio decepcionante. Porque não havia
know-how para fazer e a empresa que fez se deu mal.
Parece que era tão difícil baixar o livro que era necessário
a pessoa estar apaixonada por mim, para ficar esperando
baixar.
Como está aquela história do Cacá Diegues ter pedido
para você adaptar aquele seu conto "O santo que não
acreditava em Deus" para o cinema, para que ele dirigisse?
Eu tentei adaptar com ele. Mas, olha, sou muito amigo
de Cacá, amigo mesmo, nos gostamos muito, nos comunicamos
com alguma regularidade. Somos, aliás, um casal amigo,
eu e Berenice, Cacá e Renata. Mas nessa questão eu não
concordava com coisas que ele queria e ele não concordava
com pensamentos meus. Não brigamos não, foram apenas
essas discordâncias. Então eu oficialmente desisti de
adaptar o conto, no ano passado. Ficou decidido que
o Cacá vai fazer o roteiro e colocará "baseado num conto
de João Ubaldo".
Vou lhe fazer outra pergunta de praxe: você está
trabalhando em algum livro?
Estou sim. Mas não tem previsão de nada não.
"Deus!
Deus!" - João e seus leitores
Você já falou em outras vezes, e mesmo durante esta
nossa conversa, de leitores que te importunam. Como
é essa sua relação com seus leitores? Qual foi a reação
que você mais gostou e a que você considerou mais irritante
por parte de um leitor?
Sabe o que acontece? É que, de vez em quando, tem gente
que fica me invadindo. Por exemplo, estou num restaurante
e aí sentam na minha mesa e começam a conversar comigo.
Como se fosse um amigo próximo.
É.
Às vezes também me agridem, não fisicamente, felizmente.
Mas já me xingaram. Apesar de que isso é muito raro,
as hostilidades eu posso contar nos dedos, foram três
ou quatro. Geralmente é aquele chato a favor. Todo dia
- todo dia - tem gente me parando na rua para conversar
comigo.
Essas hostilidades foram devido a quê? Ao seu estilo
de escrita, às suas posições políticas?
É,
ou que não vão com a minha cara, não sei. Já disseram
"escreveu merda" para mim.
Quando você fala dos seus leitores, parece que há
um certo incômodo. Você não gosta, ou não acha importante,
essa interação do escritor com seus leitores?
Eu estaria sendo hipócrita se dissesse que não queria
ser um escritor conhecido. Só não gosto quando dizem
que isso é o preço da fama. Isso não é o preço, é o
imposto da fama. O preço é você sentar o rabo na cadeira
e escrever, responder aos leitores. Eu também não quero
ser um escritor obscuro. E eu sou muito gentil com meus
leitores na esmagadora maioria das vezes. Mas há episodios
homéricos de gente enchendo meu saco. Na rua, se eu
estou de sapato, "nossa, você de sapato"; se estou de
chinelo, "nossa, você de chinelo". Uma vez - eu estava
no meio do sucesso daquele livro sobre luxúria, ’A casa
dos budas ditosos’ - uma moça se ajoelhou na minha frente
na av. Ataulfo de Paiva e gritou "Deus! Deus!".
Talvez ela tenha se libertado sexualmente com o seu
livro...
(risos) Não sei. Só sei que eu dei uma risadinha e fui
embora, deixei ela lá.
E os leitores continuam tomando conta de você com
relação aos seus chopes aí no Leblon?
Ah, alguns continuam sim. Mas eu não bebo chope não,
quando bebo, é uísque.
Já devem ter te perguntado muito isso, mas vou perguntar
assim mesmo. O problema com a bebida continua?
Não, eu não tenho mais problema com bebida. E realmente
me perguntam muito sobre isso. Será que sou o único
que teve problema com bebida no Brasil? (risos)
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O presidente FHc e o baiano ACM
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