A retórica no Ceará e
o consenso em Monterrey

ISABEL CLEMENTE

FORTALEZA - Agora que o encontro do Banco Interamericano de Desenvolvimento (Bid) chegou ao fim, os holofotes mundiais se voltarão para Monterrey, no México, onde será realizada, a partir do dia 18, a conferência da Organização das Nações Unidas para tratar de temas ligados ao desenvolvimento global. Mais de cem delegações governamentais e 40 chefes de Estado estarão tratando de questões como a necessidade de levantar mais recursos para atacar a miséria e a doença.
Em pauta também estará a discussão sobre acesso ao mercado internacional para o desenvolvimento dos países emergentes. Será interessante ver como os Estados Unidos, que decidiram sobretaxar o aço importado para proteger a própria siderurgia, irão se colocar num debate que, espera-se, pretende apontar caminhos para reduzir as desigualdades no mundo. A proposta do encontro de Monterrey, que contou com a efetiva contribuição do Banco Mundial, do Fundo Monetário Internacional (FMI) e da Organização Mundial de Comércio - fato inédito - visa levantar algo em torno de US$ 50 bilhões a mais, por ano, não só de instituições financeiras internacionais, mas de países, doadores e outros agentes. Resta esperar para ver se este novo consenso terá a força do que entrou para a história - ou para as rodas de discussões dos organismos multilaterais - como o Consenso de Washington. O título refere-se ao conjunto de medidas liberalizantes que pautou boa parte dos países latino-americanos nos anos 90. As tais reformas visavam abrir os mercados emergentes e reduzir a presença do Estado na economia, para citar duas das medidas mais conhecidas. Uma década depois, a região não alcançou o desenvolvimento esperado. Pior: continua suscetível aos impactos das crises internacionais, à fuga de capitais e baixo crescimento, diagnóstico mais do que esmiuçado durante a assembléia anual do BID, encerrada hoje (13 de março). Longe ainda estão as soluções, embora um bom número de economistas e ex-ministros da Fazenda tenham defendido o ponto-de-vista de que, sem as reformas, a região estaria muito pior.
A impressão que fica depois de uma agenda tão intensa de debates é que muito se falou e nada aconteceu. O ministro do Planejamento, Martus Tavares, governador do Brasil no BID, diz que não. Explica que os seminários, por exemplo, permitem uma troca de experiências que depois ajudam os países na formulação de politicas próprias melhores. Quando chefes de Estado se reunem para falar sobre democracia "recados políticos importantes" são dados para investidores, outros governos e organismos internacionais. "Não é retórica", diz o ministro. Não é à toa que o presidente Fernando Henrique Cardoso aproveitou a ocasião para criticar o tratamento dado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) aos latino-americanos, além do governo americano e sua política protecionista, na frente de autoridades do fundo e dos Estados Unidos. Esse recado foi dado e traduzido simultaneamente para o inglês e o espanhol.



[11/03/2002]


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