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ENTREVISTA/MARY
ALLEGRETTI
'Ainda
não existe o controle adequado'
ANTÔNIA
MÁRCIA VALE
Agência
JB
BRASÍLIA
- O
Plano Colômbia de combate ao narcotráfico traz riscos para a Amazônia
brasileira mas esse não é o pior momento já enfrentado pelo governo
com relação ao controle da área. Essa é a avaliação da secretária
de Coordenação da Amazônia, Mary Allegretti. Responsável pela
questão ambiental da parte brasileira da maior floresta tropical
do mundo, ela justifica seu otimismo afirmando que hoje o governo
federal está mais presente no território do que sempre esteve.
Para Mary
Alegretti essa presença do Estado na floresta se faz sentir por
intermédio de milhões de dólares investidos em vários programas
sociais, militares e ambientais. Entre eles o PPG-7, financiado
pelo grupo dos sete países mais ricos do mundo, a União Européia
e a Holanda; o Proecotur, programa de investimento no setor de
turismo ecológico que tem previsão de investimentos na ordem de
US$ 200 milhões, a partir do próximo ano; e programas sociais-militares
como o Sistema Integrado de Proteção da Amazônia e o Calha Norte,
que está sendo retomado.
A secretária
da Amazônia cita ainda a abertura de linhas de crédito de aproximadamente
R$ 100 milhões pelo Banco da Amazônia (Basa). Tudo isso fazendo
parte da política oficial de ocupação e desenvolvimento da região.
Mesmo com
todo esse investimento Mary Allegretti não se ilude, com a experiência
de quem está na área há mais de 20 anos afirma: "Ainda não existe
o controle adequado". E esclarece que o risco de perda da soberania
sobre a região só estará totalmente afastado quando, além dos
recursos financeiros previstos, houverem recursos humanos capacitados
para atuar nos diversos programas, alternativas econômicas para
a população local e opinião pública favorável à utilização sustentável
dos recursos naturais. além disso tudo, no entender de Aleegretti
é necessário aumentar o nível de atuação conjunta dos diversos
setores governamentais envolvidos.
Vigilância
- A secretária destaca a importância do Sistema Integrado de Vigilância
da Amazônia como passo fundamental para marcar a capacidade de
atuação do Brasil na região: devido às características da Amazônia,
a vigilância não pode ser feita diretamente em todos os locais.
É preciso usar a tecnologia e a grande quantidade de informações
que podem ser geradas pelos equipamentos do sistema militar.
Hoje o Ibama
monitora, controla, fiscaliza e pune quem comete crimes contra
o meio ambiente em áreas federais, mas para Allegretti a instituição
não tem, nem terá, condições de desempenhar todas essas funções
sozinho, por isso a utilização dos dados de satélites e pontos
de capturas de informações do Sivam serão fundamentais para controlar
eventos como queimadas e desmatamento.
A atuação
predatória das empresas instaladas mostra-se realmente como o
grande risco para a integridade da região. Entre as 20 maiores
multas aplicadas pelo Ibama desde a implantação da nova Lei Contra
Crimes Ambientais, 19 tiveram madeireiras como alvo. E esse dado
não inclui as multas aplicadas pelos institutos estaduais ou municipais
de proteção ao meio ambiente.
A secretária
da Amazônia destaca ainda que até bem pouco tempo a atuação dos
estados e municípios deixava muito a desejar, uma vez que governadores
e prefeitos viam o desmatamento como sinal de progresso e os empresários
tinham financiamento abundante para seus projetos sem que houvesse
por parte dos financiadores uma preocupação com as conseqüências
a médio e longo prazos.
Mas, ela
garante que hoje essa percepção está mudando e credita a renovação
do pensamento aos programas do PPG-7. "Eles (governantes e empresários)
começam a perceber que podem receber recursos e lucrar protegendo
a floresta, com base no uso sustentável", conclui.
Mas a mudança
de mentalidade é lenta, inclusive dentro do governo, e precisa
ser apressada. Para dar um novo impulso a essa visão de uso sustentável
da floresta amazônica a secretária Mary Allegretti pretende solicitar
ao ministro do Meio Ambiente, Sarney Filho, e ao presidente Fernando
Henrique Cardoso que reúnam novamente o Conselho Nacional da Amazônia
(Conamaz). A última vez que esse conselho se reuniu foi em 1995,
quando aprovou a Política Integrada para a Amazônia. Agora Allegretti
considera ser necessário que o país redefina o papel da região.
"A Amazônia
Legal é mais de 60% do território brasileiro. Nós precisamos definir
o que queremos da região", lembra a secretária. "Existem setores
que vêem a floresta como um grande corredor de exportações, outros
apenas como uma reserva de biodiversidade e um terceiro grupo
como uma área vazia a ser ocupada", exemplifica.
Mas saindo
fora dessa polêmica ela deixa bem claro seu ponto de vista: "Eu
penso que o modelo ideal é o que une uso e proteção das riquezas
estratégicas fundamentais, entre elas os recursos minerais, biológicos
e de conhecimento. Podemos usar sem depredar". Mary Allegretti
pretende chamar uma segunda reunião do Conamaz novamente no início
do ano que vem.
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