Novelas reforçaram popularidade

ALUIZIO R. TRINTA

Em entrevista concedida a uma revista semanal, no ano de 1992, o escritor Jorge Amado pôde, com a requerida sinceridade, externar seus pontos-de-vista acerca das adaptações feitas de sua obra ficcional. Não eram poucas. “Em geral, não vejo”, disse ele. “A adaptação de um livro para qualquer outro meio é sempre violência. Eles destroem coisas que são muito importantes no romance. Acho que a adaptação só é válida se ela não for um pastiche, mas uma recriação. De qualquer forma, por pior que seja a adaptação, por mais que deturpe, modifique, ela sempre passa alguma coisa do que você quis transmitir ao leitor quando escreveu o livro”.

Amado sabia do que estava falando. Graças a adaptações, sob a forma de roteiros e scripts, para o cinema e a televisão, sua obra escrita passara a ser ainda mais conhecida em todo o Brasil, chegando ao conhecimento de um vasto público que não disporia de meios para lê-la, em sua forma original. De resto, com a ajuda de Zélia Gattai, havia ele mesmo prestado colaboração a Antônio Bulhões, adaptador de Gabriela, cravo e canela (1958), uma das primeiras séries apresentadas pela TV brasileira. A extinta TV Tupi a exibiu em 1961. O colorido do romance devia amoldar-se, sem que houvesse desfiguração, a uma “incipiente linguagem de TV”, ainda em preto-e-branco; tinha-se também como certo que Gabriela iria conferir “seriedade estética” à dramaturgia de televisão.

Nova forma – Somente em 1975, a TV já dispondo de imagens a cores, Gabriela, em competente adaptação de Walter George Durst (que, como poucos, soube “dar nova forma” ao universo romanesco amadiano), viria a fazer notável sucesso como “novela de televisão”.

A cultura do cacau, os tipos humanos da terra baiana, seu falar, seus costumes, seus cultos religiosos, acrescidos de pitadas de exotismo, se ajustavam muito bem à comunicação dramatúrgica empreendida por um veículo eminentemente expressionista como a televisão. A descrição precisa do meio físico e geográfico, assim como a caracterização dos homens que o habitam, ao limite da caricatura ou da estereotipia, proporcionavam a imediata visualização prezada pela TV. E fariam de Jorge Amado um “escritor de imagens de televisão”.

Vieram adaptações para a telenovela, tais como Terras do sem fim (1982) e Tieta (1990), além de minisséries baseadas em Tenda dos milagres (1985) e Tereza Batista (1992), entre outras. Um Caso Especial da Rede Globo, que tantas adaptações fez, retomou e repropôs o argumento dramático de A morte e a morte de Quincas Berro D’Água (1993).

Em regime de “livre inspiração” ou de “transcriação poética”, com muitas liberdades tomadas em relação aos textos originais, Aguinaldo Silva e Ricardo Linhares adaptaram Mar Morto e A descoberta da América pelos turcos, em produção teledramatúrgica atualmente exibida pela Rede Globo com o título de Porto dos Milagres.

Aluizio R. Trinta é professor da Escola de Comunicação da UFRJ.