Críticos fizeram restrições à obra

Nos anos 70 e 80, sem que as tiragens e vendas dos seus livros registrassem qualquer queda, Jorge Amado viu sua reputação ser posta à prova por parte da crítica. As investidas visavam tanto a qualidade literária dos seus últimos romances como a ideologia da “baianidade” expressa em seus livros. A acusação de repetição já aparecia no estudo de Carlos Guilherme Mota, Ideologia da cultura brasileira, de 1974. Em História concisa da literatura brasileira, Alfredo Bosi, detectando em sua obra um excesso de estereótipos e alguma pieguice, apresentou um juízo severo: “O populismo literário deu uma mistura de equívocos, e o maior deles foi o de passar por arte revolucionária. No caso de Jorge Amado, porém bastou a passagem do tempo para desfazer o engano.”

Apesar do grande número de traduções publicadas e das homenagens constantes que recebia no exterior, parte desse ceticismo diante de uma suposta fadiga da fórmula adotada pelo escritor também se manifestou fora do Brasil. Quando da publicação de Tocaia grande nos Estados Unidos, um crítico da revista Time observou que o romance sugeria um “Louis L’Amour com sotaque português”, comparando-o com um conhecido autor de best sellers que tinha no presidente Reagan seu maior fã.

Caricaturas – Típico da reavaliação crítica foi o ensaio Amado: respeitoso, respeitável, publicado por Walnice Nogueira Galvão no livro Saco de gatos, em 1976, em resposta ao lançamento de Tereza Batista cansada de guerra: “Cada vez mais há menor elaboração artística, a par da fórmula pessoal infalível que é o reforçamento da mitologia baiana: comida de dendê e cachaça, praias e coqueiros, candomblé e mulatas, pretos e saveiros, coronéis e prostitutas, sexo e violência”. Politicamente, Walnice também punha em dúvida a mensagem da obra de Amado: “A bandeira progressista de Jorge Amado é o populismo, a glorificação do ‘povo‘ justificando qualquer barbaridade que sua ficção perpetre. Tudo o que é bom vem do povo e, por isso, todas as personagens são caricatas. Abra-se exceção para o rico e fino Coronel e para a representante do povo, a prostituta mulata, casal revelador da ótica classista e sexista do escritor.”

Tereza Batista, a própria heroína do romance pareceu então a Walnice Galvão “uma notável produção imaginária do machismo latino-americano”. Ela era “a mulher ideal de todos os homens progressistas com dinheiro na carteira. Prostituta, bonita, calorosa, acolhedora, de bom caráter e, sobretudo, mulata; esta, fantasia erótica predominante em todos os povos com passado escravista.”