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No
cinema, história de extremos
‘Dona
Flor e seus dois maridos’ é até hoje recorde nacional
de público, mas maioria das adaptações fracassou
CARLOS
HELÍ DE ALMEIDA
Na
televisão, os livros de Jorge Amado sempre acabaram
resultando em audiência significativa, e não é por
outra razão que o escritor baiano foi o autor mais
adaptado pela TV. Mas nem por isso a obra do criador
de Gabriela cravo e canela foi garantia de sucesso
de bilheteria nos cinemas brasileiros. Nada que apague
o impacto causado por Dona Flor e seus dois maridos
(1975), elogiada adaptação dirigida pelo então jovem
Bruno Barreto, que atraiu cerca de 12 milhões de espectadores
e até hoje mantém- se como o grande recordista de
público do cinema nacional.
A
bem da verdade, a repercussão de Dona Flor nos cinemas
também esteve atrelada à popularidade da versão televisiva
de Gabriela, novela dirigida por Walter Avancini transmitida
pela Rede Globo dois anos antes, e que tinha Sonia
Braga, a Dona Flor do filme de Bruno, no papel-título.
Quando a doce e atraente Flor de Sonia bateu na tela,
ao lado dos carismáticos Vadinho, de José Wilker e
Teodoro, de Mauro Mendonça, o protótipo da mulher
baiana já era uma fantasia nacional.
Bruno
tentaria repetir o feito em 1982, recriando a Bahia
de Gabriela – o romance, não a novela – no casario
da Paraty fluminense, novamente com Sonia Braga no
personagem que a tornou uma estrela. Era uma co-produção
estrangeira que trazia o italiano Marcelo Mastroianni
no papel do imigrante árabe Nacib, magnificamente
vivido por Armando Bogus na TV. A coisa não funcionou
muito bem na película nem nas bilheterias.
Social
– Ainda nos anos 70, quando a TV ajudou a difundir
o gosto dos temperos de Gabriela, a obra de Jorge
Amado foi visitada pelo menos mais duas vezes pelo
cinema. Mas a apenas razoável acolhida de Tenda dos
milagres (1977), de Nelson Pereira dos Santos, e o
quase anonimato conquistado por Pastores da noite
(1975), de Marcel Camus, que contava com um elenco
para lá de estranho, combinando os nomes de Wilza
Carla, Elke Maravilha, Antonio Pitanga e Jofre Soares,
serviram para provar que o brasileiro é mais aberto
à sensualidade e à brejeirice das comédias de costumes
criadas por Amado do que propriamente por seus dramas
étnicos e sociais. Outra adaptação fracassada sob
a direção de Nelson Prereira dos Santos foi com Jubiabá,
em 1986. A história do jovem boxeador negro que se
apaixona pela filha loura de um comendador, estrelada
por Charles Baiano, Ruth de Souza, Betty Faria e que
contou com a participação do rei Pelé, naufragou nos
cinemas em muitos sentidos.
O
último cineasta a se aventurar pelas terras benzidas
pelo dendê de Jorge Amado foi Cacá Diegues. Tieta
do Agreste, outra comédia de costumes da lavra do
baiano, finalmente chegou aos cinemas em 1996. Seus
direitos de adaptação passaram, num período de uma
década, pelas mãos da diretora italiana Lina Wertmuller
e da atriz e conterrânea Sophia Loren até chegar nas
da – adivinhem? – brasileira Sonia Braga.
Segundo
a eterna Gabriela, o escritor sempre fizera questão
de que ela vivesse nas telas a filha pródiga da minúscula
e preconceituosa Mangue Seco. A essa altura, Sonia
e Cacá já contavam com a acolhida da versão televisiva
do livro de mesmo nome, que foi ao ar em 1989 pela
Rede Globo, tendo Betty Faria no papel-título. A versão
cinematográfica atraiu cerca de 600 mil espectadores,
um número infinitamente abaixo do atingido por Dona
Flor nos anos 70. Mas deve-se levar em consideração
que, na época em que Tieta entrou em cartaz, o cinema
brasileiro ainda tentava se equilibrar sobre as próprias
pernas depois da devastação promovida pelo governo
Collor, que acabou com recursos de produção e, conseqüentemente,
afas-tou o brasileiro do seu cinema.
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