Capitão de mares e terras sem fim

Morre aos 88 anos o escritor que mostrou para o mundo retratos de uma terra cruel mas encantadora e vigorosa
Arte de Liberati
Arte de Liberati

O veterano capitão se foi: Jorge Amado, o mais popular escritor do país, morreu ontem, a quatro dias de completar 89 anos, na Bahia que traduziu e eternizou em seus livros. Entre 20 de junho e 16 de julho, o escritor esteve internado no Hospital Aliança, em Salvador, devido a uma crise de hiperglicemia e complicações cardíacas. Ontem, o escritor passou mal à tarde em casa e voltou ao mesmo hospital, sofrendo uma parada cardiorrespiratória às 19h30. Jorge não resistiu e morreu, tendo a seu lado a companheira de grande parte da vida, a também escritora Zélia Gattai. Os problemas de saúde do escritor vinham se sucedendo desde um infarto sofrido em 1993. Aberto ao público, o velório do corpo de Jorge Amado começou na noite de ontem, no Palácio da Aclimação, local cedido pelo governo do estado. A cremação será hoje, às 17h, no cemitério Jardim da Saudade. As cinzas serão espalhadas ao pé de uma mangueira que o escritor mantinha plantada no quintal de sua casa, no bairro do Rio Vermelho.

Um dos maiores contadores de histórias que o país já conheceu, o autor de Gabriela cravo e canela e dezenas de outros títulos é dono de uma obra que, como nenhuma outra no Brasil, atravessou o oceano e os continentes, tornando-se a mais traduzida e conhecida no exterior. Como o capitão, que sempre viajou muito, suas histórias também romperam o mundo e divulgaram além-mar as imagens de um país exótico, mestiço e místico, povoado de quengas, vagabundos e coronéis. “Nós não somos isso ou aquilo, nós somos tudo: branco, negro, índio. É isto que faz a nossa singularidade e nos dá uma importância real”, disse numa entrevista. Suas lembranças e invenções ajudaram a mostrar retratos do Brasil ao próprio Brasil, com personagens fortes e inesquecíveis.

Influências – Sempre que lhe perguntavam sobre o prazer de escrever, Jorge Amado dizia que a origem do ofício era um mistério. Sabia que tinha nascido para escrever e pronto. Mas, para que esse mistério se realizasse na prática, era preciso encarar a responsabilidade e o compromisso com o texto. “O trabalho na criação literária é imperativo”, dizia o escritor, para quem a leitura dos mestres era outro fator essencial na qualidade de um escritor. Jorge Amado costumava classificar a literatura em famílias, sendo, para ele, Rabelais o pai da família com a qual mais se identificava. Depois vinham Cervantes, Dickens, Gorki, Gregório de Mattos e José de Alencar, entre muitos outros.

Já na enorme galeria de livros que escreveu, predominantemente romances, o autor nunca conseguia escolher de pronto um preferido. Repetia sempre: “-Livro é como filho. Tem vida própria e não dá para escolher o melhor”.

Eleito por unanimidade para a Academia Brasileira de Letras em 1961, Jorge Amado ocupou enorme espaço não apenas nas letras, mas na vida cultural em geral e na vida política do país. Durante mais de meio século, construiu – com a alegria de escrever, uma de suas características mais evidentes – um amplo painel da sociedade brasileira. Segundo o crítico Antonio Candido, “trouxe o proletário e o trabalhador rural, o negro e o branco, para a sua experiência artística e humana – e quis e soube viver a deles”. Para Ferreira Gullar, “a obra de Jorge Amado é, entre outras coisas, a busca de uma linguagem literária que, sem abrir mão das qualidades encantatórias, quer ser ao mesmo tempo contundente e crítica”.

Cacau – Jorge Amado nasceu em 10 de agosto de 1912 numa fazenda de cacau, num distrito de Itabuna, na Bahia. Seu pai era irmão do pai do escritor e político sergipano Gilberto Amado. Escreveu o primeiro romance, O país do carnaval, aos 19 anos, quando já morava no Rio. Era a história de uma juventude angustiada, dividida entre Deus, a literatura e a política. Cacau, o segundo romance, sai em 1933, ano em que o escritor casa-se pela primeira vez, com Matilde Garcia Rosa. O livro trata dos trabalhadores do Sul da Bahia. Suor, publicado no ano seguinte, é um romance social, ambientado em Salvador, com caixeiros, prostitutas e sobradões do Pelourinho.

Jubiabá, de 1935, tem grande repercussão entre a crítica e ganha logo edições na França e na Argentina. Em 1936, o ano de Mar morto, que recebe o Prêmio Graça Aranha, da Academia Brasileira de Letras, o socialista Jorge Amado é preso por motivos políticos pela primeira vez. Capitães de areia, o romance da infância abandonada, sai em 1937, quando o escritor faz longa viagem pela América Latina e os Estados Unidos e é novamente preso, já no Estado Novo, ao voltar.

Ao sair da prisão, Jorge Amado vai morar em São Paulo e, depois, em Sergipe. Retorna ao Rio em 1939 e exerce a função de redator-chefe das revistas Diretrizes e Dom Casmurro. Lança, em 1941, o ABC de Castro Alves, e no ano seguinte, no exílio (Uruguai e Argentina), Cavaleiro da Esperança, a biografia de Luiz Carlos Prestes, editada em espanhol e vendida clandestinamente no Brasil. Em 1943, Jorge Amado publica Terras do sem fim, de novo sobre a região do cacau e os trabalhadores do campo. Em 1944, ano no qual se desquita de Matilde, escreve São Jorge dos Ilhéus, ainda o drama do cacau, as lutas que presenciara menino.

Zélia – Em julho de 1945 passa a viver com Zélia Gattai, com quem só viria a casar-se oficialmente em 1978. Naquele ano, foi eleito, por São Paulo, deputado federal pelo Partido Comunista. Durante a Constituinte de 1946, publica Seara vermelha. No ano seguinte, nasce seu filho João Jorge. De 1948 – quando tem, como toda a bancada comunista, o mandato cassado – a 1952, vive na Europa. Escreve O mundo da paz, sobre os países socialistas. Em Praga, em 1951, nasce sua filha Paloma. Nesse ano, escreve a trilogia Os subterrâneos da liberdade. Em 1953, substitui Graciliano Ramos, após a morte deste, na presidência da Associação Brasileira de Escritores. Em 1956, sai do Partido Comunista, “porque queria voltar a escrever”.

Depois de quatro anos sem escrever, publica, em 1958, Gabriela, cravo e canela, um romance picaresco. É agora um contador de histórias sensual e romântico. Para muitos, o romance marca uma guinada na sua carreira, provocada pela saída do Partido Comunista. “Existe essa idéia de que eu só escrevi Gabriela porque tinha saído do PC. Não é verdade. Eu teria escrito este romance de qualquer maneira porque, como eu disse, na minha opinião Gabriela representa uma continuidade dentro da minha obra”, diria anos depois.

O novo livro vende 20 mil exemplares em apenas 15 dias e, em três anos, chega à 20ª edição. A crítica o consagra. Seguem-se Os velhos marinheiros, Os pastores da noite, Dona Flor e seus dois maridos (um êxito também no cinema e na TV), Tenda dos milagres, Teresa Batista cansada de guerra, Tieta do Agreste, Farda, fardão, camisola de dormir, Tocaia grande, O sumiço da santa, Navegação de cabotagem, A descoberta da América pelos turcos.

O escritor nunca viu com bons olhos a expectativa da morte. Nem mesmo gostava de que se comemorassem muito seus últimos aniversários: “Por que comemorar a caduquice?”, perguntava. O velho capitão queria mesmo era continuar nos mares altos, trabalhando, vivendo a vida intensamente. “Para um homem que ama a vida e gosta de viver como eu, a idéia da morte não seduz de maneira nenhuma”.

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