O Brasil amado por Jorge

Foto de Marcos ViannaO grande escritor que morreu ontem à noite, aos 88 anos, em Salvador, legou ao Brasil a obra mais popular e mais traduzida da história da literatura nacional. Milhões de mulheres e homens, fãs diretos da prosa de Jorge Amado, ou atraídos à sua leitura pela adaptação de seus livros pelo cinema e pela televisão, conhecem com intimidade o seu colossal universo imaginário: coronéis cruéis, lânguidas prostitutas, malandros simpáticos, heróicos militantes de esquerda, retirantes esquálidos, espertos meninos de rua, jagunços silenciosos.

Nos livros de estréia, nos anos 30, Jorge Amado trouxe para o centro da literatura toda galeria de personagens que durante séculos só lhe freqüentava a periferia: o povo brasileiro. Com perspectiva empática e generosa, o escritor esfregou na cara do Brasil letrado a experiência de proletários e colonos, de crianças abandonadas e jangadeiros, de marafonas, boêmios, de deserdados de toda sorte.

Ao traduzir a experiência popular em literatura, ao se solidarizar politicamente com os miseráveis, os primeiros romances de Jorge o fizeram amado pelo Brasil. Eles fincaram as estacas de uma obra frondosa que, no entanto, ao ser fustigada pelos ventos da História, não chegou a se cumprir.

Ao se filiar ao Partido Comunista, pelo qual foi eleito deputado na Constituinte de 1946, o escritor comprometeu a sua arte. Tornou-se um dócil propagandista da máquina do Kremlin, mais preocupado em justificar os crimes de Stalin e em fazer a hagiografia de Luiz Carlos Prestes do que em fazer boa literatura.

Jorge Amado jamais acertou as contas com esse período sombrio do seu passado. Não por acaso, seu livro de memórias, o moralmente indefensável Navegação de cabotagem, assim como os de sua fase de stalinista militante, é um dos de menor apelo em sua obra.

Ao abandonar o PCB, no fim dos anos 50, Jorge Amado havia se transformado. Mais e mais, seus romances afundaram no pitoresco, na macumba-para-turista, na obscenidade untuosa e no esquematismo populista. É esse o Jorge Amado do qual se apropriou a máquina mercante da indústria cultural, em filmes e minisséries que moeram a sua rebeldia em troca das bilheterias polpudas e audiências formidáveis.

Mesmo nos seus piores livros, porém, a Verdade ainda pulsa. Mas, como na vida do capitalismo que um dia Jorge Amado quis expor literariamente, misturada ao comercialismo mais atroz.

O corpo desse grande escritor está sendo velado no Palácio da Aclamação, em Salvador. Às 17h, como queria, será cremado no Cemitério do Jardim da Saudade. Suas cinzas serão dispersadas sob a mangueira de sua casa, no bairro do Rio Vermelho, onde gostava de se sentar para contar histórias aos amigos.