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O programa dos partidos de oposição é claramente alternativo aos interesses da classe dominante
Daniel Aarão Reis Filho
Nesta perspectiva, e preliminarmente, é preciso resgatar, para o campo das esquerdas, as tradições trabalhistas. Por várias razões, mas eu me limitaria a destacar três: 1. Porque estas tradições foram capazes de mobilizar amplos contingentes de trabalhadores brasileiros ao longo de décadas, em expressivas lutas e em grandes movimentos nacionais e sociais; 2. Porque fixaram temas recorrentes, sempre retomados por grande parte das forças de esquerda, como por exemplo, o Estado forte e intervencionista, a soberania nacional e a justiça social; 3. Porque se concretizaram em estruturas - corporativas - e em estilos de fazer política, baseadas em lideranças carismáticas, até hoje vigentes, pode-se dizer mesmo, hegemônicas, no campo multifacético das esquerdas. A reunião de todos estes elementos constituiu uma tradição que se poderia chamar de nacional-estatista.
Basta considerar o PDT de Brizola e Garotinho e o PT de Lula para constatar a permanência e a força desta autêntica cultura política, forjada há décadas e que, apesar de parcialmente submersa e reprimida pela ditadura militar, retornou com todo o vigor desde que mínimas condições de liberdade foram asseguradas ao povo brasileiro.
Falar em tradições trabalhistas, reconhecê-las como de esquerda, significa enfrentar uma espécie de consenso, que a preguiça intelectual consagra, o firmado em torno do pré-conceito de populismo, que rejeita as tradições realmente existentes dos trabalhadores brasileiros, efetivamente por eles construídas, e reconstrói os trabalhadores como mera massa de manobra de líderes maquiavélicos e superconscientes no contexto das problemáticas da manipulação da massa e dos desvios. Como se fosse possível supor que lutas e movimentos sociais históricos não passassem de rebanhos pastoreados por hábeis prestidigitadores. Ou que a construção do futuro pudesse ser figurada com o auxílio da metáfora ferroviária do desvio, acidente de percurso no trajeto marcado, traçado, de uma história cujo devir estaria assegurado por leis de bronze.
Embora freqüentemente perseguidas, não raras vezes com violência (não esquecer que, entre os anos 30 e os anos 60, por duas oportunidades, adotou-se a tortura como política de Estado em nosso país), as esquerdas brasileiras não se limitaram a desempenhar papéis de meras coadjuvantes dos interesses dominantes. Se assim fosse, não teriam sido tão reprimidas, e por tão longo tempo. Em vários momentos, não somente conseguiram elaborar concepções alternativas, mas conseguiram que estas concepções adquirissem uma notável expressão social.
Foi assim nos anos 30, quando se construiu, depois de muito tateamento, a efêmera Aliança Nacional de Libertação - a ANL. Foi assim, novamente, nos anos 50 e 60, quando, sob a hegemonia das concepções trabalhistas, se construiu um programa de reformas de base que, caso vitorioso, promoveria uma redistribuição radical de renda e de poder no Brasil. Tem sido assim, igualmente, depois do fim da ditadura militar, e sobretudo em anos recentes, neste limiar de novo século, quando, retomando as grandes bandeiras do passado, e em sintonia com processos que se desenvolvem no conjunto da América Latina, voltam-se a se aglutinar as esquerdas em torno das bandeiras da soberania nacional e da justiça social no quadro de uma proposta, cada vez mais avançada, de refundação do Estado Nacional.
Com efeito, nos dias de hoje, há uma surpreendente reatualização do programa e dos valores nacional-estatistas em grande parte das forças de esquerda deste país, e o fenômeno, como referido, não parece limitar-se ao Brasil. O próprio Partido dos Trabalhadores - o PT, que surgiu pretendendo formular novos parâmetros para a luta política, e cultivou, ao longo dos anos 80, uma arrogância de marco zero, parece mais do que nunca rendido a este padrão.
Assim, para o bem ou para o mal, é difícil imaginar, pelo menos num curto prazo, que uma inversão radical de rumos venha a acontecer. As esquerdas reconstróem-se e se reagrupam, sem dúvida, em torno de um programa nacional-estatista. Lastro inevitável do passado, e de pesadas tradições, inarredáveis? Falta de imaginação? Uma coisa, no entanto, pode ser dita: embora com um certo ar de anacronismo, trata-se de um programa claramente alternativo aos interesses dominantes, agrupados em torno da proposta dita neoliberal, vende-pátria, desestatizante e destruidora das chamadas conquistas sociais que beneficiavam os trabalhadores do setor formal da economia, principalmente os da função pública. Em que resultará este choque, quem viver, verá. Mas se os dois pólos forem mesmos estes, não se consege afastar a impressão de que as esquerdas estejam entrando de costas no século 21.
Daniel Aarão Reis Filho é professor titular de História Contemporânea da UFF | ||||||