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Ao selecionar o exótico, procurava-se uma identidade que marcasse sobretudo a diferença
Lilia Moritz Schwarcz
Não é o caso de procurar por um modelo qualquer. Sabe-se, ao contrário, que a identidade, em seu sentido mais óbvio, é um pressuposto, um objeto quase virtual: não é dado puro, sendo antes uma construção. Não é, porém, o espaço da pura manipulação aleatória, na medida em que seu conteúdo é parte de um universo cultural reconhecível e compartilhado. Mas nada como lançar mão da comparação, já que nem todos os países experimentam a questão da mesma maneira. Basta lembrar do caso dos ingleses, dos franceses ou mesmo da reflexão que faz Eduardo Lourenço, com relação a Portugal. Na opinião desse autor, "nem o estatuto cultural, nem a situação histórico-política são, para os portugueses, um problema". É o passado - "a certeza de saber quem somos por ter sido largamente quem fomos" - que faz de Portugal um país centrado, bem concentrado e definido: "gente inscrita em um certo espaço físico e cultural que padece de ’hiperidentidade’, de uma quase fixação na contemplação da diferença".
Hora de desviar dessa seara escorregadia. Pode-se dizer que cada povo carrega ou existe em função de certo momento solar, que lhe confere sentido, euforiza magicamente a memória do que é. Poucas nações, porém, guardam para si o papel medianeiro e simbolicamente messiânico que Portugal desempenhou, quando a História Ocidental convertia-se em mundial. Mas, no caso brasileiro, a história é outra. Apesar de jamais ter incorrido no perigo de imaginar-se narcisicamente o centro do mundo - sendo quase uma ilha de memória - também aqui, e em vários momentos, selecionaram-se determinados ícones, prontamente transformados em símbolos da nacionalidade: 1822 (com a Independência), em 1888 e 1889 (com a Abolição e a República), ou 1930 (com o Estado Novo). Mas foi durante o Império, e mais particularmente no Segundo Reinado, que o tema da identidade se associou de forma mais imediata às práticas oficiais, quando investiu-se de forma pesada na recuperação e idealização de um modelo nacional e na conformação de um imaginário que colava o rei à imagem do Estado e - na ausência de uma história local (que não fosse portuguesa) - exaltava a natureza e os seus naturais como base material desse mesmo Império.
O modelo não era novo. Desde as primeiras imagens e relatos, o país foi associado à essa "feição natural". No entanto, nesse caso, o próprio processo de emancipação nacional, marcado pelas vicissitudes da afirmação de uma monarquia nos trópicos - cercada de Repúblicas por todos os lados - implicava uma tentativa palaciana de imaginar a nação. O Império oscilava, porém, entre dois pêndulos pesados: de um lado a representação de uma realeza européia, destacada por sua origem Bragança, Bourbon e Habsburgo; de outro, a relevância econômica do tráfico e da mão-de-obra escrava, que se espalhava por todo o território. Enredado por essa contradição fundante, o Império foi pródigo na criação de discursos que primaram por iluminar um tipo de memória e obscurecer outra: a presença do trabalho cativo e de uma sociedade miscigenada.
Dessa maneira, na medida em que era preciso dotar o país recém-independente de novos parâmetros de reconhecimento, cumpriu o romantismo o papel de uma verdadeira política cultural, altamente pautada em base ficcional, prontamente transformada em "matéria da realidade". Congregados em torno de algumas instituições diletas - como o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e a Academia Brasileira de Belas Artes - coube a um grupo selecionado a tarefa de pensar numa história feita de continuidades e sem conflitos e numa identidade que nascia colada aos indígenas, povos autóctones que, como tal, simbolizavam a nação em seus atos de bravura e de sacrifício. Afastados de qualquer base empírica, nossos índios eram mesmo bons selvagens, à moda de Rousseau, e conviviam envoltos por uma natureza que substituía, com méritos, a falta de palácios, de igrejas e de outros monumentos que bem servem para representar uma nação.
É assim que o nacionalismo brasileiro do 19 utiliza-se do romantismo na elevação da natureza (que vira paisagem), e das populações locais entendidas como nobres, autênticas e ao mesmo tempo ingênuas, diante do caminho indelével da civilização. O próprio projeto ganhava, assim, caráter estratégico a partir do momento em que era financiado pelo Estado e transformado em modelo de unidade nacional. Era responsabilidade dos pesquisadores fundar uma narrativa histórica e recortar um certo passado, de forma sempre enaltecedora. Por outro lado, os documentos saíam dos arquivos e compêndios e ganhavam vida nos romances épicos e em suas descrições que didaticamente misturavam ficção com descrições edênicas da terra e motivos de base histórica. Por fim, as pinturas acadêmicas retocavam a cena, recuperando a agenda histórica e os grande eventos exaltados na literatura romântica.
É assim que o círculo se fecha e o nacionalismo brasileiro de meados do 19 vira romântico, nas mãos de uma elite que convivia de forma paternalista com o espetáculo da escravidão e da mistura extremada. Longe do cotidiano, da violência de um sistema pautado no domínio de um homem sobre o outro, o país surgia destacado a partir do que tinha de mais universal e mais particular: de um lado uma realeza digna dos modelos mais tradicionais, de outro uma natureza grandiosa com seus indígenas envoltos em cenários idealizados, base espiritual dessa grande nação. Tratava-se, mais uma vez, de inventar um passado, recuperar o presente e associar uma certa aparência a uma essência, que havia de mostrar que o Brazil era mesmo, e tão-somente, Brasil.
Lilia Moritz Schwarcz é professora do Departamento de Antropologia da USP e autora de As barbas do Imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos, Companhia das Letras, 1998 | ||||||