Nas comemorações,
duas visões opostas

Lucia Lippi Oliveira

As instituições estão sofrendo ataques por todos os lados, o caráter do homem brasileiro vem sendo questionado pelas denúncias cotidianas de corrupção, o rótulo "bom para otário" nos agride diariamente. Neste cenário, como pensar as comemorações dos 500 anos do Descobrimento do Brasil?

"Toda vez que se organiza uma comemoração do passado, o que se está comemorando é uma visão do presente" - nos diz o historiador Evaldo Cabral de Mello. Comemorações, "efemérides", permitem refundar, reatualizar identidades. Através da comemoração evocam-se antigas tradições, reais ou inventadas, para constituir um sentido de solidariedade coletiva. História, memória, mitos, são acionados para se definir o quê e quem faz parte de um todo chamado nação. Variantes dessa construção simbólica marcam nossa diferença em relação ao outro, mesmo que estejamos vivendo um mundo cada vez mais globalizado e menos nacionalista.

Sabemos que a memória nacional não é natural, e sim resultado do trabalho de grupos e pessoas. Envolve atividades de produção, circulação e consumo de sentidos e valores. O cenário das comemorações nos permite ver a memória nacional em funcionamento. Construída como um discurso de segunda ordem, já que faz uso de valores da memória coletiva de diferentes grupos, e principalmente das classes populares, a memória nacional pretende envolver toda a sociedade.

Os trabalhos mais acadêmicos, mesmo que realizados no bojo das comemorações, têm como compromisso questionar, complexificar e analisar os mitos, a memória e a história do país. Os trabalhos simbólicos, alguns diriam ideológicos, de produção das comemorações, têm como função reforçar os mitos, escolher os que melhor funcionam no momento presente. Vale lembrar que mitos não são falsos ou verdadeiros, ao contrário das teorias científicas. Eles servem, não para descrever a realidade, mas para conferir sentido ao produzir solidariedade social e viabilizar projetos coletivos futuros.

Podemos mencionar aqui dois projetos que são ou pretendem ser populares. Acompanhando os tempos atuais, ambos têm seus sites na Internet. O primeiro é o projeto Brasil 500 da Rede Globo, que deseja comemorar, junto com a sociedade, os 500 anos do Descobrimento com base na idéia do orgulho de ser brasileiro. Na primeira tela lê-se a frase: "A um passo do próximo milênio,o Brasil completa 500 anos de olho no futuro, mobilizado pelo desejo coletivo de construir um país cada vez melhor". Esse olhar para o futuro se expressa nas atividades de educação nas quais se insere o projeto Amigos da escola, entre outros. Na parte referente à História do Brasil, podemos ver como é construída a relação entre futuro e passado. Pretende-se resgatar fatos marcantes da origem e da formação do país como os que têm aparecido no Momento 500 anos, exibido aos sábados antes do Jornal Nacional, e na página Passeio pela História, que traz artigos como "A viagem do Descobrimento" de Eduardo Bueno e "A viagem de Pedro Álvares Cabral" de Max Justo Guedes, entre outros. O capítulo Celebrações acompanha o que a Rede Globo vem fazendo desde abril de 1998 e que culmina com o seriado "A invenção do Brasil" dirigido por Guel Arraes, e a transmissão do megashow no dia 22 na Esplanada dos Ministérios em Brasília e da missa no dia 26 de abril.

Todos esses eventos colocam o orgulho de ser brasileiro sob a forma de grandes espetáculos apresentados ao vivo e transmitidos via satélite para todo o Brasil. Faz-se apelo ao envolvimento emocional dos brasileiros, "todos de mãos dadas", à terra bonita por natureza, à união nacional (ainda que se divulgue a diversidade entre regiões), à miscigenação das três raças e das novas etnias chegadas com as imigrações e, por fim, à educação com os olhos voltados para o futuro. O site tem como financiadores o governo da Bahia, a Parmalat, o Itaú, a Telemar e a Petrobrás.

O discurso situado na contra-corrente das comemorações pode ser visto no site do projeto Brasil outros 500, que deseja "contar a história do povo brasileiro, a partir dele mesmo (...) pela perspectiva da maioria da população, e não somente pela história oficial da classe dominante ou de uma fatia de sociedade que deu certo". Da História do Brasil então recuperada fazem parte os capítulos: História das greves, Zumbi dos Palmares, Dívida Externa: o peso da dívida, Adeus Pindorama: opressão colonial e resistência indígena, Lugar de criança, Gregório Bezerra, Luta pela terra ontem e hoje. O compromisso com o povo é reafirmado pela proposta de se contar a História como ela "realmente aconteceu". As entidades responsáveis pelo site são a CUT, o Sindicato, o Instituto e o Conselho dos Economistas do Rio de Janeiro e o Conselho Indigenista Missionário (CIMI), entre os mais importantes.

Se orgãos sindicais e profissionais organizam a oposição ao discurso oficial, os grandes opositores da celebração são mesmo os índios. Organizados, estão exercendo o direito de reivindicar seus interesses e fazem bom uso da mídia para ampliar suas ações e demandas. Os confrontos entre as autoridades e os índios Pataxó de Coroa Vermelha foram assim anunciados: "A proximidade da chegada das autoridades maiores e seus convidados internacionais, como o presidente da ex-metrópole, Portugal" faz aumentar o cerco "contra aqueles índios e não-índios que podem ameaçar o brilho das festividades dos 500 anos de invasão" (matéria datada de 11/04/2000 do CIMI, transmitida por e-mail, sob o título "O show deve continuar").

Assim como os livros escolares, os museus e as festas cívicas foram fundamentais para construir um sentido de pertencimento à nação no início do século XX, hoje o rádio, o cinema, a música popular e principalmente a televisão estão construindo um novo cidadão/consumidor. E, é importante lembrar, quer se esteja comemorando os 500 anos do Descobrimento do Brasil ou da anexação forçada de Pindorama a Portugal, o que se está discutindo é o presente e o futuro do país.

  • Lucia Lippi Oliveira, socióloga, é pesquisadora do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC/FVG). Autora do artigo "Imaginário histórico e poder cultural: as comemorações do Descobrimento".


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