A viagem e a descoberta
da diferença

Gerd Bornheim

Detalhe de gravura de Theodore Galle e Jan Van der Straet Digamos que nossos navegadores por todos os lugares viajam e fazem até mesmo a viagem viajar. Quero dizer que o próprio sentido da viagem subitamente se altera, e instala o homem de maneira a que dirija o seu olhar para endereçamentos que o levam a desvendar um gosto surpreendentemente novo pelas coisas diferentes. Não deixa de ser simples compreender a complexidade do tema, e é claro que há toda uma proto-história a respeito do que vou afirmar. Observe-se que o que importa aqui está na extensão e na intensidade das novas experiências, a par da transmutação de um sentido que corre de modo paralelo a tudo o que o mundo novo começa a oferecer de verdadeiramente novo. Isso em nada desmerece os avanços de outros empenhos viageiros, de velhos gregos, de romanos e nem de tantas outras empresas. Mas é importante não perder a grandeza do olhar, e perceber que nossos bons cristóvãos e cabrais mexem numa urdidura que põe em causa até mesmo as raízes neolíticas da história do homem.

Pois onde está o elemento novo das novas navegações? Nem penso aqui na dura realidade dos meios e utensílios outros empregados, sempre o desfraldar das mesmas velas, e isso ao longo dos milênios, até que fossem superados pela parafernália moderna das locomotivas e das aeronaves. Evidentemente, tudo isso tem o seu peso em nada desprezível, e que em nada desmerece - dou um salto - a experiência de um Goethe, sempre nostálgico e ávido por embrenhar-se no coração da eterna Grécia; mas, naqueles anos, ainda era difícil viajar, e nosso poeta não conseguiu ir além das praias da Sicília, de onde recitava, em grego, voltado para Atenas, os versos de Homero. Pois os tempos modernos descobrem também isto, que a imaginação se faz viajante. Interessa-me por ora chamar a atenção para um outro tipo de experiência, que uma breve comparação permitirá elucidar.

Já o nosso sagaz navegador moderno cultiva a astúcia da descoberta do outro. Ao cabo de cada viagem - qual a paisagem, qual o novo paraíso, que tipo estranho de homem outro, e mesmo, e muito, que nova riqueza, que novas promessas de riqueza? Por aí, e por tantas rotas, passaria a deslumbrar-se o saber moderno. Afirmemos que, nesse processo, a viagem moderna põe em jogo o estatuto ontológico da mesmidade do mesmo, e abre-se em direção à descoberta das dimensões da alteridade do outro.

Não retomo aqui a questão fundamental da aversão metafísica tradicional em relação à categoria do outro- já nos inícios do pensamento ocidental a tentativa de Platão de buscar a reabilitação da alteridade vem denominada por ele mesmo de parricídio, e é em nome desse parricído que Aristóteles expulsará, com a falsa aparência das coisas definitivas, o outro de qualquer tipo de presença no âmbito das ciências.

Com os descobrimentos modernos é justamente essa categoria do outro que se vê literalmente promovida e se torna objeto de uma descoberta que iria infiltrar-se em todas as dimensões da cultura ocidental. Dou, por enquanto, apenas um corriqueiro mas nada ingênuo exemplo disso. Já cedo formou-se na Europa o cultivo dos famosos Cabinets d’Histoire naturelle; neles, a pesquisa habitualmente nem seria tão grande, mas a moda se alastrava: os gabinetes colecionavam tudo o que não se tinha em casa, a fomentar uma curiosidade que aposentava os truísmos em que se disfarçavam os velhos hábitos do pensamento. A grande novidade reside agora no fato de que a dita curiosidade transladava-se aos poucos para a visão das diferenças - a presença do outro constrói o preciso alicerce de tudo o que possa constituir o fascínio da diferença. O tema apresenta uma vastidão deveras impressionante - comprova-o os relatos dos muitos viajantes, de diversas nacionalidades, que pervagavam nossas selvas - e parece-me que continua à espera de análises que mostrem a carga de sua progressiva constância e de sua abrangência. O assunto, visto pelo viés filosófico, leva a repensar coisas tão essenciais quanto o estatuto do erro, da contradição, das próprias bases da cientificidade, e isso a ponto de suscitar, na contramão, posições de um reacionarismo extremo.

Avento aqui mais um exemplo dessa abertura para a diferença: a antropologia científica. Trata-se evidentemente de uma ciência nova, que só poderia medrar no solo fertilizado por aquelas modificações no campo da ciência acima apontados. Pois a antropologia alicerça-se no exato reconhecimento da importância específica das diferenças. A novidade, portanto, que parece instalada no próprio berço da antropologia, está em que o survey do cientista assume o barco. O antropólogo constitui uma raça de gente que nasce com os pés plantados na proteção mínima das galochas: uma certa hegemonia do conceito de alteridade reclama que ele avance para adentrar-se na humanidade dos menores habitáculos, encravados na estranheza de pantanais e pedregais. Penso aqui nos barcos daqueles antropólogos, de tantos deles, que já na virada do século souberam dar vida nova aos propósitos dos grandes navegadores clássicos.

Claro que agora já se sabe do planeta, as rotas estão codificadas, as economias definidas, mas continua o velho deslumbramento, o fascínio pela descoberta do outro: cria-se até uma pedagogia do outro, o reconhecimento, por exemplo, da superioridade de certos comportamentos de tribos nativas das ilhas dos Mares do Sul em relação aos procederes da puritana sociedade ocidental; e começa-se a perguntar: será verdade que o sentimento de culpa tem de fato caráter universal? Mesmo um Lévi-Strauss, um tanto atordoado pelo excesso fragmentador das diferenças, buscou nos bororos mato-grossenses tão-só as suas estruturas específicas, alheio, como nem poderia deixar de ser, a quaisquer denodos de ordem evangelizante: nem a ciência transformadora, nem os enlevos da paulicéia desvairada - apenas a diferença.

E chegamos então a isto: o planeta filmado como um imenso catálogo, talvez sempre inacabado, de diferenças as mais díspares. Spengler enfim caducou: não existe apenas o elitismo de meia dúzia de "grandes" culturas, e sim o mapeamento de uma diversidade que torna suspeitas as hierarquias de superior e inferior, de normal e anormal, e mesmo de velharias como a de espiritualismo e materialismo. Trata-se, vê-se logo, de um jogo em tudo perigoso: onde fica, afinal, a estabilidade dos valores da Cultura Ocidental - precisamente da cultura que deixou-se inebriar pelas diferenças? Tanto que, hoje, todo o mundo já sabe: não existem mais culturas definitivas, todas elas são mortais. E já não resta dúvidas: estamos todos instalados no reino das diferenças. Mas, ao mesmo tempo - e urge que se pense aquela morte -, estamos engajados num novo tipo de construção.

Não há de ter sido por acaso que o século 18 criou o conceito de Humanidade, entendido justamente como albergue possível da geografia das diferenças. Nem dá aqui para entrar no tema, não obstante toda a sua urgência. Não há de ser também mero devaneio inconseqüente a hodierna cunhagem da expressão aldeia global, aparentemente tão cândida. Veja-se, entretanto, na palavra aldeia um prolongamento das diferenças, e no adjetivo global aquele desígnio que começou a ser fabricado na forja leibniziana do conceito de Humanidade. Imagino que tenha ficado manifesto que estou apenas indicando as fronteiras mais extremas da faina descobrimentista que varre nossos horizontes já faz um bom tempo - e continua e continuará a fazê-lo. De repente, até o Universo se torna pequeno.

  • Gerd Bornheim é professor do Departamento de Filosofia da Uerj

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