Navegação com engenho e arte

Afinal, Piloto, capitão e mestre carpinteiro eram os personagens fundamentais para o sucesso da viagem

Fábio Pestana Ramos

Em meio a um dia-a-dia sofrido, carregado de tragédias individuais, o destino da coletividade dependia em grande parte da aplicação correta das técnicas de navegação, ao passo que o destino de todos os embarcados estava já nas mãos dos mestres carpinteiros, responsáveis pela construção de cada navio zarpado de Lisboa. Afinal, à época, técnica e arte estavam intimamente relacionadas.

Livro das Fábricas das NausA arte de construir navios era coordenada por um mestre carpinteiro que, por sua vez, adquiria os segredos de seu oficio com seu pai, ou seja, a técnica de construção de embarcações era passada de pai para filho, e guardada a sete chaves dentro de corporações de ofício. Ocorre que depois do achamento oficial do Brasil e da abertura da rota da Índia, a demanda de navios cresceu muito mais do que a capacidade de produção, forçando as corporações a admitirem um grande número de indivíduos que não estavam ainda preparados para exercerem a profissão. Como conseqüência, ao longo do século 16 e até mesmo 17, foram construídas muitas embarcações defeituosas, algumas muito pesadas e lentas, outras mal calafetadas (vedadas contra a água), levando grande número de navios a um inevitável desastre.

Todavia, nem só dos construtores dependia o destino de cada navio. Estava também nas mãos do chamado piloto a segurança de todos os embarcados. O piloto era o profissional que realmente comandava a embarcação no que diz respeito aos aspectos técnicos; sua autoridade não era questionada nem mesmo pelo capitão do navio, a quem cabia um controle muito mais político sobre os embarcados, embora em alguns casos tenham sido registradas desavenças entre o piloto e o capitão. Mas em quase todos os casos em que o capitão fez valer sua autoridade suprema sobre a decisão do piloto o naufrágio do navio foi certo.

O piloto ia na rabada da nau, sentado sobre uma cadeirinha no alto do castelo de popa, ao lado do timoneiro, fazendo medições e cálculos, tendo ao seu redor diversos instrumentos, dando ordens ao mestre que as repassava aos marinheiros e ao guardião que as fazia cumprir pelos grumetes. Os principais instrumentos usados pelo piloto eram a bússola, a barquilha, o quadrante, a balestilha, o astrolábio e o prumo; no mais, cabia a sua experiência e bom senso o bem navegar. Com a bússola, o piloto dava o rumo que o navio deveria seguir, mas este instrumento nunca fornecia dados 100% confiáveis, uma vez que devido à característica técnica chamada declinação magnética, a agulha da bússola, ou como era chamada, agulha de marear, nunca apontava precisamente para o eixo Norte-Sul, variando conforme tempestades solares e acidentes geográficos (como, por exemplo, terremotos e erupções vulcânicas), até mais de 12 graus; sabendo deste fato os portugueses procuravam fazer uso da bússola em conjunto com outros métodos.

A barquilha era um desses instrumentos usados em conjunto com a agulha de marear. Através dela, os lusos conseguiam chegar a uma estimativa aproximada dos quilômetros percorridos. Na verdade, o instrumento consistia em uma corda com nós de que se conhecia a medida entre um nó e outro, com um peso amarrado na ponta, jogado a percorrer o casco da embarcação, do qual se conhecia também a medida. Era medido o tempo que o peso demorava para percorrer o casco por meio de uma ampulheta, ao que por uma fórmula que envolvia o comprimento da corda e do casco, chegava-se à velocidade aproximada do navio e, de posse deste dado, tendo em vista o tempo decorrido desde a última medição, chegava-se à distância aproximada percorrida.

Através do quadrante, adquirido dos árabes, o piloto fazia a medição da estrela polar e, por meio de uma tabela de declinação, conseguia situar o navio em uma carta de navegação; entretanto, passada a linha do equador, os lusos notaram que a estrela polar não podia mais ser observada. A solução foi desenvolver novos instrumentos; assim, surgiram a balestilha e o astrolábio. Com a balestilha, o piloto podia fazer a medição do navio na carta de navegação, através de outros astros noturnos que não a estrela polar. Porém, como realizar esta operação à luz do dia. quando as estrelas não podiam ser vistas?

O único astro observável a olho nu, durante o dia, era o Sol. Logo, por que não fazer uso dele? Assim surgiu o astrolábio, um instrumento bem simples, a grosso modo, composto por três orifícios que devem ser ajustados até refletir o astro, fornecendo uma coordenada que possibilita chegar, através de uma tabela de declinações, à latitude em que o navio se localiza; quanto à longitude, este foi um problema que os portugueses nunca conseguiram resolver. Ele seria solucionado somente no século 18 pelos ingleses.

Embora houvesse variantes dos últimos instrumentos descritos, outro equipamento indispensável, principalmente à navegação costeira era o prumo que, como a barquilha, tinha um peso amarrado a uma corda com nós de que se conhecia a medida, usada para medir a profundidade, a fim de evitar um possível encalhamento do navio, acidente muito mais corriqueiro do que se pode imaginar. De posse de instrumentos adequados, o piloto tinha, ainda, que valer-se de técnicas de utilização das correntes marítimas e da direção dos ventos. Essas técnicas, juntamente com o aperfeiçoamento do traçado das embarcações, elevaram a velocidade dos navios de cerca de 5 quilômetros por hora em 1400, para 10 quilômetros por hora no século seguinte. Somente munido de muita técnica, na época encarada como arte, o piloto podia conduzir seu navio pelo Atlântico, do Reino até o Brasil, em uma viagem que durava de um a quatro meses. A viagem poderia, com freqüência, estender-se em casos em que fossem enfrentadas calmarias, dependendo da época do ano.

Fábio Pestana Ramos é doutorando em
História Social da USP e pesquisador da Fapesp