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Afinal,
Piloto, capitão e mestre carpinteiro eram os personagens fundamentais para o sucesso da viagem
Fábio Pestana Ramos
Em meio a um dia-a-dia sofrido, carregado de tragédias individuais, o destino da coletividade dependia em grande parte da aplicação correta das técnicas de navegação, ao passo que o destino de todos os embarcados estava já nas mãos dos mestres carpinteiros, responsáveis pela construção de cada navio zarpado de Lisboa. Afinal, à época, técnica e arte estavam intimamente relacionadas.
Todavia, nem só dos construtores dependia o destino de cada navio. Estava também nas mãos do chamado piloto a segurança de todos os embarcados. O piloto era o profissional que realmente comandava a embarcação no que diz respeito aos aspectos técnicos; sua autoridade não era questionada nem mesmo pelo capitão do navio, a quem cabia um controle muito mais político sobre os embarcados, embora em alguns casos tenham sido registradas desavenças entre o piloto e o capitão. Mas em quase todos os casos em que o capitão fez valer sua autoridade suprema sobre a decisão do piloto o naufrágio do navio foi certo.
O piloto ia na rabada da nau, sentado sobre uma cadeirinha no alto do castelo de popa, ao lado do timoneiro, fazendo medições e cálculos, tendo ao seu redor diversos instrumentos, dando ordens ao mestre que as repassava aos marinheiros e ao guardião que as fazia cumprir pelos grumetes. Os principais instrumentos usados pelo piloto eram a bússola, a barquilha, o quadrante, a balestilha, o astrolábio e o prumo; no mais, cabia a sua experiência e bom senso o bem navegar. Com a bússola, o piloto dava o rumo que o navio deveria seguir, mas este instrumento nunca fornecia dados 100% confiáveis, uma vez que devido à característica técnica chamada declinação magnética, a agulha da bússola, ou como era chamada, agulha de marear, nunca apontava precisamente para o eixo Norte-Sul, variando conforme tempestades solares e acidentes geográficos (como, por exemplo, terremotos e erupções vulcânicas), até mais de 12 graus; sabendo deste fato os portugueses procuravam fazer uso da bússola em conjunto com outros métodos.
A barquilha era um desses instrumentos usados em conjunto com a agulha de marear. Através dela, os lusos conseguiam chegar a uma estimativa aproximada dos quilômetros percorridos. Na verdade, o instrumento consistia em uma corda com nós de que se conhecia a medida entre um nó e outro, com um peso amarrado na ponta, jogado a percorrer o casco da embarcação, do qual se conhecia também a medida. Era medido o tempo que o peso demorava para percorrer o casco por meio de uma ampulheta, ao que por uma fórmula que envolvia o comprimento da corda e do casco, chegava-se à velocidade aproximada do navio e, de posse deste dado, tendo em vista o tempo decorrido desde a última medição, chegava-se à distância aproximada percorrida.
Através do quadrante, adquirido dos árabes, o piloto fazia a medição da estrela polar e, por meio de uma tabela de declinação, conseguia situar o navio em uma carta de navegação; entretanto, passada a linha do equador, os lusos notaram que a estrela polar não podia mais ser observada. A solução foi desenvolver novos instrumentos; assim, surgiram a balestilha e o astrolábio. Com a balestilha, o piloto podia fazer a medição do navio na carta de navegação, através de outros astros noturnos que não a estrela polar. Porém, como realizar esta operação à luz do dia. quando as estrelas não podiam ser vistas?
O único astro observável a olho nu, durante o dia, era o Sol. Logo, por que não fazer uso dele? Assim surgiu o astrolábio, um instrumento bem simples, a grosso modo, composto por três orifícios que devem ser ajustados até refletir o astro, fornecendo uma coordenada que possibilita chegar, através de uma tabela de declinações, à latitude em que o navio se localiza; quanto à longitude, este foi um problema que os portugueses nunca conseguiram resolver. Ele seria solucionado somente no século 18 pelos ingleses.
Embora houvesse variantes dos últimos instrumentos descritos, outro equipamento indispensável, principalmente à navegação costeira era o prumo que, como a barquilha, tinha um peso amarrado a uma corda com nós de que se conhecia a medida, usada para medir a profundidade, a fim de evitar um possível encalhamento do navio, acidente muito mais corriqueiro do que se pode imaginar. De posse de instrumentos adequados, o piloto tinha, ainda, que valer-se de técnicas de utilização das correntes marítimas e da direção dos ventos. Essas técnicas, juntamente com o aperfeiçoamento do traçado das embarcações, elevaram a velocidade dos navios de cerca de 5 quilômetros por hora em 1400, para 10 quilômetros por hora no século seguinte. Somente munido de muita técnica, na época encarada como arte, o piloto podia conduzir seu navio pelo Atlântico, do Reino até o Brasil, em uma viagem que durava de um a quatro meses. A viagem poderia, com freqüência, estender-se em casos em que fossem enfrentadas calmarias, dependendo da época do ano.
Fábio Pestana Ramos é doutorando em | ||||||