"Só desisto
quando morrer"
Conhecido em sua tribo por Kanay Pataxó, que significa "comigo",
Nailton Patoxó Hã-Hã-Hãe, 54 anos de idade, é liderança ativa em sua
região, no Sul da Bahia. Na última semana, ganhou dimensão nacional.
Durante a Marcha Indigenista 2000, em Brasília, cobrou dos presidentes da
República, Fernando Henrique Cardoso, do Congresso Nacional, Antonio
Carlos Magalhães (PFL-BA), e da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP), mais
compromisso das autoridades com os povos indígenas. "Acredito e não
acredito, não acredito e acredito", tenta sintetizar o sentimento que teve
da conversa com o presidente Fernando Henrique. Nailton é vice-cacique da
aldeia Posto Indígena Caramuru Catarina Paraguaçu, situada no município de
Pau-Brasil, a 240 quilômetros de Cabrália, no Sul da Bahia, e presidente
do Conselho de Caciques de 15 aldeias da região. Em entrevista ao
JORNAL DO BRASIL, em Brasília, Nailton Pataxó revela que está
jurado de morte, mas que não desistirá de sua luta pela reconquista das
terras pataxós em território baiano, ocupando terras de fazendeiros. "Eu
só desisto quando morrer", avisa o índio pataxó, que, de sua conversa com
o presidente da República, também aprendeu que "cacique" de branco gosta
de ficar muito tempo em Palácio e que, por esse motivo, não morre de forma
violenta como os caciques indígenas. "Eu vou me cuidar", diz. Ele tem
"quase certeza" de que haverá confronto entre índios e policiais durante a
comemoração dos 500 anos em Porto Seguro. Segundo ele, os índios não vão
aceitar provocações. Nailton Pataxó quer a ida do presidente Fernando
Henrique à aldeia Coroa Vermelha, para "presenciar as violências e tomar
medidas sérias". A ausência do presidente da República é interpretada como
um gesto de "má vontade". Na avaliação do vice-cacique, o governo não
demarca as terras indígenas porque é omisso e não tem vontade política.
"Ele (o governo) tem cacique para resolver", afirmou.
- O que significam os "Outros 500 Anos" que vocês estão
reivindicando?
- A gente tem claro o que queremos nesses outros 500 anos, porque esses
500 que passaram foram de tanta angústia, massacre, tortura, genocídio,
tanto desrespeito ao nosso direito, à nossa integridade física, à nossa
comunidade. A nossa saúde foi uma saúde precária, a educação também, na
nossa agricultura também não tivemos apoio para adquirir a nossa
auto-sustentação. Então, esses 500 que passaram, para a gente, graças a
Deus que eles passaram. A gente quer construir um "Outros 500", com as
terras indígenas demarcadas, legalizadas, com a saúde perfeita, com postos
de saúde estruturados dentro das áreas, com uma educação respeitada e com
professores bilíngües para o índio falar, escrever e ler a sua língua.
- Quantos índios foram massacrados?
- A verdade é que, quando Cabral chegou aqui, ninguém sabia ao certo a
quantidade de índios que existiam. Naquela região, onde ele chegou, foi
feita uma avaliação de 6 milhões de habitantes. Mas eu creio que tinha
muito mais. Colocando por baixo, havia 6 milhões de habitantes. Hoje nós
temos aproximadamente 350 mil índios. Aí, vê quantos foram massacrados. O
Cabral, quando chegou com o povo dele, não trouxe mulheres. Quem teve que
ser as mulheres desses homens foram as índias. Eles matavam os índios e
estupravam as índias. E aí começou a mistura da raça do índio com o
português.
- A visão do índio e do governo sobre as comemorações dos 500 anos é
muito divergente.
- A visão do governo é a de investir nesse evento, deixando os povos
indígenas, até mesmo a sociedade branca, em falta desse dinheiro que está
sendo liberado e repassado para essas comemorações. Enquanto isso, no
orçamento da Funai, até hoje ainda não foram feitos os repasses de
recursos. Os índios acham que o governo pode fazer a sua comemoração, mas
tem que andar correto com as suas atividades. Hoje a Funai tem muitas
dívidas, as administrações nas regiões não recebem parte nenhuma de
orçamento e começam a fazer dívidas. As comunidades indígenas na região,
principalmente nas áreas de conflito, estão passando fome porque a Funai
não tem como mandar o dinheiro. Por esse motivo, a gente acha que quem não
pode fazer festa, não faz.
- O senhor acha que, ao invés de o governo estar gastando dinheiro para
fazer essa festa dos 500 anos, teria que usar o dinheiro para ajudar a
regularizar a situação dos índios?
- Não, eu quis dizer que ele faça a festa lá, gaste rios de dinheiro,
mas não deixe de repassar os recursos para o órgão. Quinta-feira falei com
o presidente da República e falei claramente: as liberações de recursos
têm que ser feitas. Ele disse: "Ah, o Orçamento ainda não foi aprovado."
Ora, tira do fundo de emergência ou então acelere a aprovação do Orçamento
para que a gente não fique sofrendo. Dê condições ao presidente da Funai
para a gente ver se ele vai ser um bom presidente. Com essa troca de
ministro agora, nós não sabemos como é que fica a situação do presidente
(da Funai). Por nós, ele continua porque ele ainda nem trabalhou, entrou
agora, não recebeu condição nenhuma. Eu disse: "Não é possível que, porque
mudou o ministro da Justiça, tem que mudar o presidente da Funai também."
Ele (o presidente da República) falou para mim que era um problema dele.
Eu disse: "Eu sei que é um problema seu. Se fosse meu, ele já estava
garantido na Funai com as condições para trabalhar." Ele deu até risada na
hora.
- O senhor ficou satisfeito com a conversa que teve com o
presidente?
- Não foi uma conversa que desse para sair de lá vibrando. Mas eu acho
que quem promete, tem que cumprir. Então, ele garantiu que vai liberar
mais recursos para a área de saúde, que já tem os recursos específicos
para a demarcação de terra e indenização de benfeitorias. Ele falou que
vai ver o problema de agricultura, aplicar mais recursos dentro das áreas,
falou também sobre o novo Estatuto do Índio, que ele vai ser votado o mais
rápido possível, e que ia apresentar uma proposta. Nós falamos também que
não poderia ser nessa carreira toda, porque nós precisamos fazer uma
avaliação dessa proposta para ver se estamos de acordo. Sobre os 500 anos
ele falou que não sabe se vai ou não, que talvez possa ir, mas que ele não
pode ficar andando assim muito exposto, porque ele é mais fechado, vive
mais preso no Palácio do Planalto, Itamarati, Alvorada. Eu até brinquei
com ele, falei que é por isso que não morrem caciques brancos, porque
caciques das comunidades indígenas quase todo ano morre um, porque ele
anda despreocupado, sem pensar que alguém está planejando uma maldade por
ele lutar pelos direitos dele, por uma causa justa. Eu disse que agora vou
aprender, vou ficar mais fechado também, sem sair.
- O senhor acredita que o presidente vai cumprir o que prometeu?
- Acredito e não acredito, não acredito e acredito. Porque eu digo o
seguinte: isso depende muito de nós, da nossa organização, e a gente sabe
que a Justiça é um bicho de três pés - só anda se empurrar, que é o
Legislativo, o Judiciário e o Executivo. Ele vai cumprir porque nós vamos
exigir o cumprimento desse encontro. Os índios estão trabalhando pela
autodemarcação de suas terras, que a gente já sabe que a Justiça, a lei,
não vai lá demarcar.
- O senhor acha que o presidente deve ir à comemoração no dia 22 em
Coroa Vermelha?
- Eu acho que o presidente da República deve ir. Acho que é um dever
dele presenciar os danos cometidos. Ele tem a segurança dele, sabe como se
conduzir. Eu acho que não faz medo nenhum o presidente da República chegar
e presenciar as violências causadas para que ele tome medidas sérias
contra essa violência, para ver se reina a paz na vida dos povos indígenas
do Brasil. Tem helicóptero que pega aqui e bota lá, pega lá e bota onde
ele quer. Então, não tem dificuldade nenhuma. Eu acho que, se isso não
acontecer, terá sido muita má vontade do presidente da República.
- A destruição do monumento foi uma coisa que vocês não esperavam.
- A gente não esperava. Do jeito que foi feito, os índios até aceitaram
o monumento do governo, mas um monumento natural, que fosse de madeira de
lei. Mas ele quis uma cruz de aço. E essa cruz de aço foi plantada lá
dentro da terra indígena, em Coroa Vermelha. Quando quisemos fazer o
nosso, do outro lado, aí não aceitaram. Aí eu fico preocupado porque nós
não estamos mandando mais nem em nossa casa.
- O senhor pressionou o senador Antonio Carlos Magalhães para ajudar a
retirar a polícia da área.
- O problema do Antonio Carlos Magalhães é que, na época do governo
dele na Bahia, deu título de posse aos fazendeiros dentro da terra
indígena. O patrimônio da União não pode ser titulado por pessoas no
individual. Esses fazendeiros é que vêm matando os nossos índios. Ele deu
títulos de posse na nossa terra, e nos seus governos botava polícia para
ir atacar os índios. Então, essa rotina de polícia atacar os índios na
Bahia, isso já é tradição do governo de ACM. Eu falei para ele corrigir o
erro dele e conversar com os fazendeiros, dizendo que aquele título não
tem validade, que houve um erro.
- O senhor disse que o senador Antonio Carlos Magalhães é uma grande
autoridade, um grande político do Brasil e do país. Com essa importância,
ele poderia melhorar a vida dos índios na Bahia?
- Eu acho que um homem como ele, que tem esse respaldo político no país
inteiro, devia limpar o nome dessa sujeira que ele fez com os índios
pataxós e com os índios do Nordeste da Bahia também. Eu acho que, com a
vontade que ele tem de ser o presidente da República, ele tem que estar
com o nome dele bem limpo. Com essas violências que estão acontecendo,
isso não o leva ao Palácio do Planalto. Só vai cada vez mais distanciá-lo
do Planalto.
- O senhor está jurado de morte?
- Estou jurado de morte pelo coronel Santana, o comandante da tropa
numa ocupação em novembro, e estou jurado de morte por Marcão, que é um
Marcos Vinícius que tem lá, e também por outros fazendeiros, o Paulo
Leite. O presidente do Sindicato dos Fazendeiros de Pau-Brasil, Miguel
Arcanjo, falou de voz alta no sindicato que eu tinha que ser matado porque
ele nunca viu um índio tão endiabrado como eu, que parece que eu vim do
inferno e para lá eu tenho que voltar. Então, qualquer hora dessas eu
posso morrer. Mas eu vou tomar os meus cuidados e vou dar continuidade a
toda essa luta.
- O coronel Santana é o que comandou a invasão da Coroa Vermelha?
- Nos atos de violência, o coronel Santana é o titular no Estado da
Bahia. Foi ele que comandou a violência da destruição do monumento dos
índios pataxó e pataxó hã-hã-hãe do Sul da Bahia.
- Quantas terras o senhor já recuperou?
- Lá no Sul da Bahia a gente recuperou primeiro o lugar onde os pataxó
Hã-Hã-Hãe moram. No total foram trinta e poucas áreas de terras que eu já
participei de ocupação.
- O senhor vai continuar ocupando terras?
- Eu só vou parar quando morrer.
- Qual é a grande dificuldade para demarcar as terras
indígenas?
- A dificuldade pra mim é a omissão e a falta de vontade do governo
federal.
- O senhor teme que haja confronto no dia 22?
- Eu tenho quase certeza que pode haver algum confronto. Com o comando
do coronel Santana lá, a gente pode esperar qualquer coisa. Agora, as
comunidades indígenas estão todas conscientes de que não vamos lá para
brigar. Nós vamos lá para mostrar a nossa organização e deixar claro o que
as organizações indígenas querem em relação aos povos indígenas e qual a
participação nesse evento, mesmo no paralelo. Agora, não vamos aceitar
provocações, agressões físicas, ofensa moral, não vamos aceitar nada
disso. Vamos querer respeito pelo que a gente está manifestando.
- O senhor teme que a marcha possa ser barrada na chegada a Porto
Seguro?
- Eu não estou temendo não. Eu sei que eles são capazes de fazer isso.
Aqui em Brasília, os índios flecharam o relógio dos 500 anos. Lá em Porto
Seguro, eu digo que a polícia vai reagir de uma maneira violenta. Lá tem
um relógio também e eu creio que, quando os índios estiverem flechando,
vai ter uma violência da polícia. Se a vontade do índio é flechar o
relógio, então o relógio tem que ficar flechado.