Emoções de plástico

:: João Bernardo Caldeira

Saí de casa sabendo o que me esperava. Já estava tudo programado para ser um show antológico. Os fãs fizeram a sua parte: dois milhões de pessoas, segundo a Polícia Militar, pisaram nas areias de Copacabana, dispostas a testemunhar mais um capítulo na história dos Rolling Stones. Com mais de 40 anos de praia, bastava a Mick Jagger e companhia fazerem o que se esperava deles: cantar os hits de sempre, dar umas reboladas, encaixar solos de guitarra e partir para o abraço. Seria mais do que suficiente para gravar um DVD fadado a vender milhares de cópias mundo afora. E assim foi.

Pois era isso mesmo que me chateava: a inexorabilidade da programação traçada. Não havia margem para o acaso, o inesperado, a espontaneidade. Este é o preço de um esquema profissional firmado entre parceiros internacionais, privados e governamentais, que impõe frieza e pontualidade militar.

Às 21h44 a banda desceu da plataforma que liga o backstage ao Copacabana Palace, onde estava hospedada. Três minutos depois já pisava no palco, conforme previsto: 21h50 era o horário do início do show. Ponto para os meninos (da produção).

Do repertório também não se podia esperar surpresas. Desse mato definitivamente não sairia coelho. Alguém aí lembra do primeiro show no Rio, em 1995, no Maracanã? E do segundo, na Apoteose, em 1998? Então. Já estavam lá Jumpin' Jack Flash, Start me up, Satisfaction, Sympathy for the devil e mais blablablá.

Estes são os hits que os fãs xingariam se não fossem tocados. E ai do Stone que contrariar a galera ou os organizadores do Super Bowl, a grande final do futebol americano. Há duas semanas, fiquei espantado quando uma das principais bandas da história do rock concordou com a censura imposta a duas canções apresentadas no evento esportivo, entre elas a clássica Start me up. Desde quando uma obra de arte pode sofrer alterações ao sabor dos caprichos de mercado?

No Rio, graças a Deus, não houve cortes. Não existe pecado do lado de baixo do Equador. Aqui, o roteiro previa folia desenfreada, tupiniquins provendo à banda um cenário de êxtase e calor. Ficaria bem na foto, ou no vídeo, tanto faz. Mas aí eu pergunto: custava colocar mais umas musiquinhas do novo CD, A bigger bang, o primeiro com material inédito em oito anos (aleluia!)?

Era um show para as massas, eu sei. Mas o novo disco recebeu críticas favoráveis e poderia ser bem aproveitado, ainda que reforce velhos clichês stonianos. Assim a platéia poderia ver a banda não com olhos de quem respeita um vovô aposentado cheio de histórias para contar, mas como quem se impressiona primeiro com as glórias do presente para então buscar as do passado. E o grupo quiçá se rejuvenesceria.

Mas só duas músicas do álbum foram executadas: Oh, not you again e This place is empty. E ninguém mais, fora eu, parecia estar preocupado com isso. Ali, na segunda fila, grudado ao palco, percebi que Mick Jagger estava em outra. O showman pedia palmas, rebolava sem parar e, nas deixas previstas, usava a passarela para chegar mais perto do público. No momento certo, o astro se posicionava no centro do palco, onde dois potentes ventiladores banhavam seu cabelo esvoaçante. Tudo lindamente cronometrado.

Às 23h26, um único minuto depois da banda encerrar o show, ela já estava de volta para o bis. Não deu nem tempo da platéia entender o que se passava. E lá vinha um Mick robótico outra vez olhar para a cola pregada no chão, onde lia frases randômicas em português. E até os sorrisos obedeciam a marcações, antenados com o posicionamento das câmeras.

O verdadeiramente encerramento chegou às 23h43. E não podia passar da meia-noite, conforme combinado com a Prefeitura. E toda a magia de plástico, a emoção forjada e o vigor pretendido estão agora para sempre registrados em um DVD lendário gravado numa noite lendária. Eu já sabia.

[19/FEV/2006]