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A surpresa de 'Crash'
Drama sobre preconceito racial tira
o Oscar de
'Brokeback Mountain'
Levou algumas frações de segundo - uma eternidade
para os padrões televisivos - para que a equipe de
Crash - No limite reagisse à revelação
de que o filme havia ganho o Oscar de melhor produção
do ano e então se levantasse das cadeiras do Kodak
Theatre, palco da 78ª festa da Academia de Artes e
Ciências de Hollywood, anteontem à noite, em
Los Angeles. Todos tinham como certa a vitória de
O segredo de Brokeback Mountain, que vinha arrebatando todos
os mais importantes prêmios da temporada. Mas a surpresa
só fez acrescentar emoção genuína
a uma cerimônia tradicionalmente previsível.
E aos discursos de agradecimento também:
- O nível dos indicados ajudou
a fazer deste ano um dos mais memoráveis do cinema
em Hollywood - disse Cathy Schulman, co-produtora de Crash,
ao receber o troféu, ao lado do diretor Paul Haggis,
elogiando a qualidade dos finalistas da categoria.
No final das contas, a Academia, que priorizou
produções independentes e temáticas
de fundo social e político, acabou traindo a própria
iniciativa, concentrando os troféus em quatro títulos,
que ficaram com três estatuetas cada um. Dois deles
considerados puro entretenimento hollywoodiano: King Kong,
de Peter Jackson, e Memórias de uma gueixa, de Rob
Marshall, que ainda não conseguiu pagar o orçamento
de US$ 85 milhões, ficaram com prêmios técnicos.
A premiação deixou de fora
filmes de forte conteúdo político, como Munique,
de Steven Spielberg, que concorria em cinco categorias,
Boa boite e boa sorte, de George Clooney, que disputava
seis indicações. Mas premiou Clooney com o
Oscar de ator coadjuvante por Syriana, outro filme de temática
controversa, um thriller ambientado nos bastidores da política
americana em relação à indústria
petrolífera do Oriente Médio.
A pulverização de prêmios
diminuiu o impacto dos favoritos. Além do Oscar de
melhor filme, Crash, o drama sobre preconceito racial que
disputava seis troféus, converteu os de roteiro original
e edição. Brokeback Mountain e o amor proibido
entre dois vaqueiros, que brigavam em oito frentes, ficou
com os de direção, roteiro adaptado e trilha
sonora. Indicado em cinco categorias, Capote, de Bennett
Miller, levou apenas o de ator (Philip Seymour Hoffman),
tido como o pule de 10 desde o início da temporada
de prêmios por sua caracterização como
Truman Capote.
- Nunca pensei neste personagem como um papel-prêmio.
Se eu pensasse desta maneira, eu seria uma figura desprezível,
que faz escolhas baseadas em recompensas - disse Hoffman
nos bastidores da premiação.
Duas outras vitórias tidas como certas
foram as de Reese Whiterspoon, melhor atriz por Johnny &
June, e Rachel Weisz, como coadjuvante em O jardineiro fiel,
o único prêmio conquistado pelo filme dirigido
pelo brasileiro Fernando Meirelles. A maior derrota da seleção
pró-tolerância da Academia talvez tenha ocorrido
na categoria filme estrangeiro: Paradise now, de Hany Abu-Assad,
o candidato palestino, sobre os momentos que precedem uma
operação suicida de de dois homens-bomba,
foi derrotado pelo sul-africano Tsotsi, de Gavin Hood, sobre
um líder de uma gangue de rua de Johannesburgo.
Carlos Helí de Almeida
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