
Filme em questão: Capote
O ator americano Philip
Seymour Hoffman saiu da festa do Oscar, anteontem, consagrado
como o melhor ator de 2005. Sua interpretação
em Capote, também premiada com o Globo de Ouro, o
Screen Actor's Guild, o Bafta e troféus de várias
associações de críticos, tem sido um
dos principais trunfos do filme, que conta a história
da gestação do livro A sangue frio, do escritor
e jornalista Truman Capote, vivido no filme por Hoffman
com a meticulosidade da imitação de sua voz
e de seus trejeitos. O livro se tornou um dos ícones
do new journalism, ao contar, com estilismo de ficção,
a história real dos assassinos de uma família
no interior dos Estados Unidos. O filme, dirigido pelo estreante
Bennett Miller, documenta a ambígua relação
entre Capote, obcecado por escrever o grande livro de seu
tempo, e um dos assassinos, que luta para fugir do corredor
da morte.
A verdade e
a mentira lado a lado
Alexandre Werneck
Capote se debate entre
dois níveis de relação com a realidade.
Em um primeiro plano, mais instrumental, a história
trata da obsessão do escritor Truman Capote em dar
conta de uma série de fatos reais em um texto tão
interessante que pareça um romance de ficção.
Em um outro, mais cinematográfico, o próprio
filme exercita essa mesma obsessão, ao tratar da
busca de Capote, uma história real, com ares de new
journalism - o estilo de contar histórias reais que
buscou a distância ideal entre o relatório
científico e o romance investigativo.
Aparentemente, falta
radicalidade ao trabalho de Bennett Miller. Capote é
essencialmente um filme clássico. Soa também
como um lugar-comum a ultraperfeição no trabalho
de reconstituição de Philipp Seymour Hoffman.
Mas Capote é um filme diferente dos integrantes comuns
do gênero biografia-que-faz-o-personagem-ressuscitar:
é um filme sobre si mesmo, sobre a possibilidade
de sua existência, sobre a possibilidade de se estilizar
o real. Nesse sentido, a opção por uma filmagem
clássica, sem ''ousadias'' formais, é mais
um trunfo do que um demérito do filme.
E isso dialoga, por exemplo, com a opção
de mostrar um Capote um tanto inescrutável. Dificilmente
se tem acesso à verdade do personagem. Ele se mantém
de pé, plantando pequenas mentiras aqui e ali: para
conquistar a confiança de uma fonte, nega sua homossexualidade.
Para conquistar a do assassino, mostra interesse por ele.
Verdade e mentira. As duas em um mesmo corpo. Ambas com
um mesmo promotor.
Por isso, talvez a palavra-chave para Capote
seja cumplicidade. O filme é cúmplice de seu
personagem, cujo ethos - regido pelo objetivo supremo do
superlivro, objetivo que, na cabeça dele, tudo desculpa,
tudo permite - o faz se mover por diferentes territórios
da memória (sua e de seus personagens) e da mitificação.
O tempo todo no filme - como na aparição da
foto na cena de abertura ou na cena de revelação
''do que realmente aconteceu no assassinato'' - sintomas
denunciam a flexibilidade das verdades absolutas e, mais
que elas, das mentiras indiscutíveis.
E é este o grande trunfo de Miller:
ele escolhe como narrador sem credibilidade um dos narradores
mais dotados de credibilidade já conhecidos. E essa
rubrica é estética: a credibilidade de Capote
vem do fato de ele narrar verdades como lendas, como se
mentiras fossem. E a câmera está lá,
ao lado dele. Miller sabe que diante dos olhos o que a câmera
mostra é tomado como o real. E denuncia isso o tempo
todo, não apontando o dedo, e sim mostrando que toda
ética corresponde a uma estética.
Prova de maturidade de diretor
estreante
Luiz Carlos Lacerda
Cineasta
A primeira cena do filme
do estreante Bennet Miller é um plano fechado de
folhas de trigo embaladas pelo vento. Em seguida, um plano
geral dessa paisagem - referência à pintura
de Van Gogh. Essa paz emoldurada pelo som e pontuada por
uma seqüência de planos descritivos, de longa
duração, é interrompida pela descoberta
de um corpo de uma menina ensangüentada e morta, em
sua cama. E mais um primeiro plano da foto em preto-e-branco
da adolescente em um porta-retratos, quase como se fosse
um clichê do obituário de um jornal.
Esse estilo sofisticado de contar a história
define sua narrativa. Literário, no melhor sentido
da expressão, nem parece americano - naquilo que
se convencionou como linguagem das produções
de estúdio - e muito menos um filme de estréia.
Não é por acaso que a seqüência
seguinte apresenta o escritor Truman Capote numa roda de
intelectuais na noite mundana de Nova York, falando, superficialmente,
sobre literatura. E, logo, ética.
A atmosfera criada pela narrativa, a iluminação
extremamente elaborada - e que evoca os pintores americanos
dos anos 20/30, que descobriram a América sombria
do claro-escuro - estabelece o território propício
para a estupenda criação do personagem do
escritor. Que é interpretado magistral e emocionantemente
pelo ator Philip Seymour Hoffman.
Em Capote há o desvendamento de três
civilizações: o interior conservador e racista
(o xerife diz que um dos criminosos presos ''tem sorte,
pois está sendo tratado como branco'', embora seja
descendente de índios); o mundanismo metropolitano,
superficial e glamouroso das frases feitas e do sucesso
comercial como parâmetro; e o subproduto dessa contradição,
representada pelo sanguinário assassino que, para
roubar US$ 40, executa uma pacata família.
A curiosidade do personagem do escritor homossexual,
delicado, culto, pelo assassino de origem indígena,
enjaulado e objeto de uma reportagem para a revista The
New Yorker, vai sendo substituída por esse metafórico
encontro dessas duas Américas. O que parece paixão,
ou deslumbramento pelo proibido (matéria-prima de
artistas como Jean Genet), vai se desenhando como um jogo
ético, ora carregado de culpa (o escritor não
revela ao assassino que é objeto de seu livro), ora
carregado de interesse por aquilo que se apresenta também
como humanidade: o bicho acuado que expiará seu pecado
na forca.
Fugindo à superficialidade pseudo-psicanalítica
que costuma caracterizar a filmografia hollywoodiana (nem
o genial Tennessee Williams escapou disso em algumas adaptações
de sua obra!), o perfil psicológico do ''menino diferente,
de mãe alcoólatra'' se identifica com o do
outsider trancado na gaiola - e é essa confluência
de identidades tão similares quanto distantes que
os aproxima e os afasta.
O processo de ''enamoramento'' do escritor
pela sua diferença é, principalmente, o reconhecimento
de si próprio pelo outro. E isso é sutilmente
apresentado através da compreensão do personagem
do companheiro do escritor, que sabe que aquilo não
é amor. Tudo isso vai construindo uma história
com uma monótona elegância que, num certo sentido,
revela não a preferência, pelo menos a reverência
ao melhor cinema europeu. Robert Bresson, certamente.
A maturidade desta obra é espantosa
em se tratando de um diretor estreante na ficção.
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