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Filme em questão: O segredo de Brokeback Mountain

Crítica ao conservadorismo americano

Moema Pombo
Montadora

O segredo de Brokeback Mountain é o filme com maior número de indicações ao Oscar deste ano. São oito candidaturas – melhor filme, diretor, ator (Heath Ledger), ator (Jake Gyllenhaal) e atriz (Michelle Williams) coadjuvantes, fotografia, trilha sonora e roteiro adaptado. Deveria surpreender essa consagração pela Academia, que deve vir em 5 de março, na entrega do prêmio, coroando uma carreira que passou pelo Leão de Ouro em Veneza e por quatro Globos de Ouro (melhor filme entre eles). Afinal, a produção trata de um tema espinhoso (embora recorrente) para Hollywood: o amor entre (sexos) iguais. Ainda mais quando esses iguais montam cavalos e usam chapéus. O diretor taiwanense Ang Lee, há anos militando no cinema americano, uniu o universo dos caubóis ao drama existencial, ao contar a história de Ennis Del Mar (Ledger) e Jack Twist (Gyllenhaal), vaqueiros que se conhecem na Montanha Brokeback, no Oeste dos EUA, e se apaixonam. A película acompanha a história de ambos, que levam vidas convencionais (com casamentos que os aprisionam), mas que se encontram furtivamente.

Quando se pensa no novo filme de Ang Lee, O segredo de Brokeback Mountain, a primeira coisa que vem à mente é que se trata da história de um amor gay entre dois caubóis no Oeste americano. Embora isso seja o ponto de partida da narrativa, muitas outras questões surgem dessa premissa, não apenas em relação ao sentido do filme, como também à sua forma.

Os dois cáubois de Brokeback Mountain são típicos personagens dos filmes de faroeste, especialmente o Ennis Del Mar de Heath Ledger, um tipo sisudo e não muito hábil com as palavras, mas com punhos fortes prontos para resolver seus problemas de comunicação. O conflito retratado no filme, diferentemente dos de muitos do gênero, porém, não é a briga por terras, as disputas entre famílias ou a luta pelo poder em alguma cidadezinha perdida no Oeste. A questão é como dois jovens lidam com a sua sexualidade e quais as escolhas feitas ao longo da vida de modo a conciliar o amor que sentem um pelo outro e as obrigações como homens adultos com um papel bem definido na sociedade em que vivem: o de macho progenitor.

Essa premissa traz algumas dificuldades ao roteiro, uma vez que este precisa lidar com uma longa passagem de tempo. Retratar 20 anos em 135 minutos é tarefa árdua, que acaba por determinar o ritmo da narrativa. Ao longo do filme, as cenas são econômicas e os diálogos (ou silêncios) sempre têm uma função clara de levar a história adiante e melhor definir a personalidade dos protagonistas.

Ainda assim, dois tempos são perceptíveis: os dois meses que se passam nos primeiros 40 minutos, com um tempo mais lento que parece acompanhar a cadência das montanhas (um local idílico para a concretização de um amor impossível); já nos outros 95 minutos, no qual 20 anos se passam, o ritmo se intensifica, com cada seqüência tendo em média um minuto, sendo exceções as cenas em que Ennis e Jack estão juntos, quando o tempo volta a ser o da Montanha Brokeback.

Para que o espectador não perca o rumo, as cenas são sempre entrecortadas entre a vida de Ennis e a de Jake em momentos similares (Ação de Graças, casamentos, crises conjugais e afins) com marcações de tempo eficazes: gravidez, criança que nasce, criança que cresce, criança que vira adolescente. O que resolve o problema da pouca caracterização física em relação ao envelhecimento dos personagens, sobretudo de Jack.

Ao optar por transgredir um dos gênero mais sagrados do cinema americano, mexendo com a imagem mítica do caubói, Lee acaba fazendo uma crítica aos bolsões conservadores da sociedade dos EUA. E o que mais incomoda, para esses mesmos conservadores, é a estrutura clássica com que Ang Lee conduz a obra: para contar uma história pouco convencional, ele se utiliza de uma estrutura há muito estabelecida pelo cinema hollywoodiano.

Com isso, faz um filme comercial e não um trabalho destinado a virar cult. Isso se torna um mérito na medida em que atrai pessoas que talvez nem entrassem no cinema por causa da temática, mas que, ao longo da projeção, se encantam com os personagens por se identificarem com a história de amor e suas questões: fidelidade, descontentamento amoroso, função social preestabelecida e amor eterno, questões que ultrapassam o sexo de quem as vive.

O Oeste moral de Ang Lee

Alexandre Werneck

O cinema de Ang Lee remete sempre a outros cinemas. Egresso de uma cinematografia periférica, a de Taiwan, o diretor estabeleceu sua carreira nos EUA depois de estudar por lá. Com isso, constituiu uma trajetória canônica, de referência acadêmica ao cinema que o acolheu. Uma olhada em sua cinematografia produz uma impressão de déjà vu, sempre parece que seus filmes são inspirados em exemplares do cinema clássico (e mesmo contemporâneo) americano. O banquete de casamento, por exemplo, seu filme (estrangeiro) de entrada nos EUA, assim como o atual O segredo de Brokeback Mountain, trata de homossexualidade. Mas tem cheiro de comédia de costumes dos anos 60, aquelas com Doris Day.

A parceria constante com o roteirista James Schamus, egresso do cinema indie e que se tornou produtor de Brokeback, diz muito a respeito disso. É um cinema (como em geral o que Schamus escreve) que se alimenta de cinema. Razão e sensibilidade tem a cara tradicional do filme de época anglo-americano (como as produções de James Ivory). Tempestade de gelo lembra o cinema de geração dos anos 70 e 80, como o de Lawrence Kasdan (de O reencontro).

Mesmo seu filme supostamente mais original, O tigre e o dragão, foi beber não apenas no cinema de artes marciais oriental, mas também em uma certa ficção científica tipicamente americana. Talvez caiba a Hulk, estranhamente, o lugar de filme mais ousado de Lee - recheado que é de articulações edípicas -, mas, ao mesmo tempo, é um representante do cinema de super-heróis americano. Nesse sentido, todo o trabalho de Lee diz muito sobre o cinema americano e a América.

Pois Brokeback Mountain também não é isolado do cinema clássico. Não exatamente o de caubói - o de heroísmo e masculinidade -, como se poderia pensar, mas o da crônica sofrida do interior americano que aparece em filmes como Assim caminha a humanidade (1956), de George Stevens. Não pela grandiosidade, mas pela lógica: o Oeste para Lee (como para Stevens) é um espaço de moralidade pessoal (diferente da moralidade prescritiva de um John Ford).

Isso fica claro no filme de Lee, que opera na relação entre desejo individual e social. E não porque os personagens sejam oprimidos pelo entorno. A opressão vem de dentro. A maneira como Lee edita o filme é o maior determinante disso: como é sobre personagens que não admitem libertar seus sentimentos, ele faz o mesmo: não permite que as cenas explodam. Tudo recebe um corte seco, fica sem conclusão. Mesmo o tocante final, quando se espera que o caubói vá liberar-se para a catarse nas lágrimas, é contido pela moviola: o Oeste moral do cinema americano é mais poderoso que os homens.

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