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Hoffman Capote

Astro do filme sobre o escritor americano Truman Capote, Philip Seymour Hoffman conta, no Festival de Berlim, que mal conhecia seu personagem ao aceitar fazer o filme

Carlos Helí de Almeida

BERLIM - Na última seqüência de Capote, do estreante (na ficção) Bennett Miller, exibido ontem fora de concurso na Berlinale, o escritor Truman Capote (1924-1984) voa de volta para casa depois de assistir à execução de Perry Smith, um dos perpetradores do massacre de uma família do interior do Kansas e principal personagem de seu último livro. Nas mãos, uma cópia de A sangue frio, resultado de seis anos de intensas pesquisas sobre a tragédia e de entrevistas com o assassino. A obra o tornaria um dos maiores escritores americanos do século 20, mas também marcaria o início da estagnação criativa de seu autor - Capote nunca mais conseguiu concluir outro livro.

Essa é a cena-gênese da produção de apenas US$ 7 milhões que se transformou rapidamente em um dos títulos mais rendosos e mais premiados da temporada americana de 2005/2006. Capote já ultrapassou a faixa dos US$ 18 milhões de bilheteria e chega aos cinemas brasileiros na próxima sexta-feira, coroado com cinco indicações ao Oscar, entre elas as de melhor filme e ator, para Phillip Seymour Hoffman, que vive o escritor e é considerado o mais forte candidato ao prêmio.

- Quando o projeto me foi oferecido, havia muitas dúvidas sobre como concretizá-lo. Mas o Danny (Dan Futterman, roteirista), que eu conheço desde os 12 anos, sempre teve essa idéia de uma cena final de Capote no avião. A questão era procurar uma forma de construir um filme a partir de uma única seqüência sem diálogos, que mostra Truman Capote numa cabine dourada, sobre as nuvens, banhada por luzes divinas que entram por grandes janelas. Ele está voltando para casa e acaba de conquistar o que mais desejou na vida e, ao mesmo tempo, percebe que está morto, que sua vida acabou ali, perdeu o sentido. Tínhamos esse momento chave, que funcionou como minha estrela guia, e o resto foi sendo construído para chegar até ali, naquele questionamento - conta Miller, em entrevista ao Jornal do Brasil, em uma suíte do Carlton Hotel.

O filme sobre o autor de Bonequinha de luxo, figura mais extravagante do jet set americano do pós-guerra e um dos pais do que se convencionou chamar ''novo jornalismo'' ou romance não-ficional, usa como fonte principal a biografia escrita por Gerald Clarke. Miller, que até então só havia dirigido um documentário, The cruise (1998), sobre um guia turístico de Nova York, e dezenas de comerciais para a televisão, há anos procurava material para sua estréia na ficção. A sugestão de Futterman, no início, foi recebida com certa resistência pelo diretor de 39 anos. Miller não tinha certeza se conseguiria fazer uma adaptação que transcendesse os aspectos biográficos do livro de Clarke. Até mesmo Phillip Seymour Hoffman (rosto conhecido de filmes como Boogie nights e Quase famosos) hesitou quando o velho amigo lhe ofereceu o papel.

- Eu estava relutante, Phil estava relutante. Era uma tarefa difícil, pois a minha intenção era fazer um filme que usasse um determinado momento da vida de um personagem do passado que encontra ressonância nos dias de hoje, sobre o choque de culturas, perda de valores. Não sabíamos se conseguiríamos fazer isso. Era difícil também para Phil, porque Truman Capote tinha um jeito muito característico de falar e de gesticular. Seria um desafio físico, inclusive, porque Phil precisaria ser uma espécie de acrobata em cena. Fomos vencidos pela necessidade de contar esta história - lembra Miller, que começou a desenvolver o projeto há três anos.

Tanto Miller quanto Hoffman não eram muito íntimos da literatura ou da vida de Capote. O ator, que tem em seu currículo uma série de personagens excêntricos, estranhos e, em geral, secundários, se deixou convencer justamente pela grandiosidade da empreitada, a de descrever uma tragédia pessoal que reflete uma tragédia maior, nacional, e suas conseqüências. Truman Capote já tinha dinheiro, fama e uma carreira estável quando rumou para a cidadezinha de Holcomb atrás de uma história de horror e encontrou em Perry Smith fonte ideal para desenvolver uma parábola sobre o choque entre duas culturas: a segura e conservadora comunidade em que os membros da família Clutters vivia e a violenta e amoral, em que habitavam seus executores. No final das contas, Hoffman assumiu também a função de produtor executivo, através de sua companhia, a Coopers Town.

- Confesso que não conhecia muito bem o trabalho de Capote quando aceitei o convite do Bennett. Minhas lembranças sobre ele remontavam à época em que eu era criança e o via no noticiário e em programas de televisão. Sabia que ele era escritor, que era famoso, essas coisas, mas a minha compreensão do que ele representava era muito ingênua. Foram as questões que o roteiro de Danny levantam sobre ele que me fascinaram e me fizeram ler a biografia escrita pelo Clarke e tudo o mais que escreveram sobre Capote. O filme se concentra na jornada dele para escrever A sangue frio e descreve o que acontece com ele e as reações das pessoas a sua volta. Capote criou uma história em que ninguém vence. É como se ele dissesse: ''Cuidado com o que desejas'' - explica Hoffman, momentos mais tarde.

A performance de Hoffman, elogiada desde a estréia do filme no circuito de festivais internacionais, em setembro do ano passado, é impecável. O ator reproduz a voz infantil e anasalada de Capote e seus pequenos gestos efeminados sem qualquer traço de artificialismo. Hoffman diz que seria impossível ser menos rigoroso na caracterização, devido à popularidade do escritor. Programas de TV, entrevistas gravadas (emprestadas por Gerald Clarke, que levou 13 anos para completar a biografia de Capote) e livros sobre o escritor foram fundamentais para que o ator construísse uma imagem próxima ao do verdadeiro Capote, sem traí-la ou, pior, caricaturizá-la. Fundamental mesmo foi o documentário With love from Truman (1966), dirigido por Albert e David Mayles, ao qual Hoffman recorreu dezenas de vezes.

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