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O dilema de Truman Capote
Philip Seymour Hoffman descreve:
- O documentário serviu como uma espécie
de Bíblia para mim, pois encapsula muitas coisas
que eu precisava saber a respeito do comportamento de Capote.
E, além do mais, foi realizado mais ou menos na época
em que se passa o filme, antes que Capote se desintegrasse
no que eventualmente se tornaria um homem devassado pelo
alcoolismo, e que morreu em conseqüência dele.
Eu me isolei por quatro meses antes de começarmos
a filmar, concentrado nessa caracterização.
Durante esse período, tentei passar uma hora ou duas
do meu dia dentro de uma sala com esse material toda a respeito
de Capote e a coisa começou a funcionar.
Fruto de uma família pobre de Nova
Orleans, Truman Capote teve uma infância problemática.
Os pais se separaram às vésperas de seu sexto
aniversário e o garoto foi criado pelas tias, no
Alabama, antes de voltar a desfrutar, já adolescente,
em Nova York, a companhia da mãe e do padrasto. A
voz e o comportamento extravagantes do pequeno Capote sempre
o mantiveram afastado de uma convivência amistosa
com colegas de escola e vizinhos.
Mesmo quando adulto, quando sua orientação
sexual ficou mais óbvia, Capote era julgado por suas
aparências. Isso fica claro, no filme, quando o escritor
chega ao Kansas para escrever uma reportagem sobre a tragédia
e é recebido com olhares enviesados. Perry Smith,
um dos dois assassinos, era órfão, e a mãe
e os irmãos tiveram morte violenta. Nasce uma ligação
imediata entre os dois.
- Há algo em Perry com que Capote
se identifica. Ambos são meio outsiders, só
que Capote venceu na vida, deixou de ser pária, e
Perry, ao contrário, continuou sendo um. Ambos tiveram
infâncias difíceis, foram crianças abandonadas
pelos pais, com um passado violento. Acho que ele, de uma
certa maneira, se apaixona por Perry, mas não é
uma atração sexual. É uma relação
diferente. Soube de comentários posteriores a respeito,
vindos do próprio Perry, que confirmavam isso - descreve
Hoffman, que reconhece o esforço de Miller em fazer
de Capote uma cinebiografia que não siga as fórmulas
aplicadas ao subgênero.
- É um filme importante estilisticamente,
porque oferece uma visão geral de um personagem a
partir de um trecho específico de sua trajetória,
sem desviar dela até o final. É como se Miller
estivesse colocando Capote sob o microscópio e, com
isso, jogando luz sobre outras facetas da vida dele. Em
suma, é uma biografia contada de maneira não
tradicional - entende o ator.
Outro ponto a favor de Miller é que
o filme não se arvora em construir uma imagem positiva
de Capote. As motivações do escritor na relação
com os personagens de seu livro são ambíguas,
do início ao fim. É verdade que Capote se
solidariza com a situação dos criminosos,
particularmente a de Perry Smith, chegando a encontrar um
advogado para ajudá-los na condução
do processo criminal, mas até a última seqüência
o conflito de Capote fica estampado em seu rosto. Na verdade,
ao adiar o julgamento dos criminosos, o escritor estava
ganhando tempo para conseguir as informações
de que precisava para concluir o seu livro.
- No fundo, Capote queria mesmo a execução
de Perry. Ele simpatizava com a tragédia dos assassinos,
se via espelhado em Perry de alguma forma, mas se sentia
muito mal convivendo com o desejo de vê-los pendurados
na ponta de uma corda. Nelle Harper Lee, a melhor amiga
dele, que o acompanhou durante suas incursões em
Holcomb (e que no filme é interpretada por Catherine
Keener, indicada ao Oscar de coadjuvante pelo papel), assistiu
ao filme semanas atrás e nos escreveu dizendo que
nós contamos a verdade sobre Truman - revela Miller.
Outros dois filmes sobre o escritor estão
agendados para chegar aos cinemas este ano. Um deles, Infamous,
de Douglas McGrath, previsto para estrear em outubro, fala
justamente da amizade entre o escritor e Dick e Perry, durante
o período de pesquisas para A sangue frio. Toby Lee
interpreta o jovem Capote e Sandra Bullock faz Nelle Harper,
sua melhor amiga. No outro, The hoax, dirigido por Lasse
Hallström, Capote é uma figura secundária
numa trama em que um escritor contemporâneo, vivido
por Richard Gere, tenta vender uma falsa biografia de Howard
Hughes, no início dos anos 70. O Capote de Miller
se beneficiou do fato de ser lançado primeiro. O
diretor soube do projeto de McGrath enquanto preparava a
sua versão, mas decidiu seguir em frente.
- Eu me comprometi a fazer Capote mesmo sabendo
que outros filmes sobre ele estavam a caminho. Cheguei a
ler o roteiro de Infamous e a ligar para o produtor deles
e me certifiquei de que se tratava de um filme completamente
diferente do meu. Mesmo assim, era um risco. De vez em quando
surgem casos de dois ou três projetos com o mesmo
tema e, quase sempre que isso acontece, os últimos
a serem concluídos acabam levando a pior. Às
vezes, todos acabam fracassando. Mas a gente sabe que todo
filme envolve dezenas de obstáculos e esse era apenas
mais um deles - diz Miller, satisfeito com sua decisão.
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