Notícias

Cabo-de-guerra nas telas do Rio

Filmes 'Munique' e 'Paradise now' e a vitória do Hamas põem o conflito entre Israel e Palestina na boca do povo

Cleusa Maria e Bianca Tinoco

Festinha de aniversário com saquê e sashimi reúne um grupo de amigos na casa da aniversariante em Botafogo. Duas ou três doses depois, na roda de conversa animada, um conflito geopolítico começa a gerar colisão entre os que defendem o Estado de Israel e os partidários da causa palestina. Por pouco não acontece uma intifada. A recente vitória do Hamas (a principal organização militante palestina) nas eleições legislativas na Autoridade Palestina e a exibição das faces dessa moeda em dois filmes em cartaz no Rio – Munique, do diretor judeu americano Steven Spielberg, e Paradise now, do palestino radicado na Holanda Hany Abu-Assad – trazem o debate de volta a festas, reuniões, mesas de bar e portas de cinemas na cidade.

Tanto Munique quanto Paradise now (o primeiro candidato a cinco categorias do Oscar; o segundo à estatueta de melhor filme estrangeiro) têm como ponto de convergência os conflitos morais de peões no xadrez da disputa por terras entre Israel e Palestina. Em ambos, homens comuns são designados por superiores para missões secretas. Um e outro têm suas motivações para matar ou morrer minadas por dúvidas sobre a importância de seus atos para uma vitória que parece ser inalcançável.

Em Munique, o protagonista é o agente Avner (Eric Bana), do Mossad – o serviço secreto israelense –, escalado para caçar e eliminar os 11 supostos autores do atentado do grupo Setembro Negro a 11 atletas israelenses nas Olimpíadas de Munique, em 1972. Em Paradise now acompanha os amigos de infância Said (Kais Nashef) e Khaled (Ali Suliman), convocados por militantes da Cisjordânia ocupada para um ataque a Tel Aviv como homens-bomba.

Dividindo ou somando opiniões, o atávico conflito – que recrudesceu em 1967 com a Guerra dos Seis Dias, após a retirada das tropas da ONU do Monte Sinai – não está apenas na boca da geração mais madura, contemporânea desta história sangrenta, sem paz e sem fim. O debate se espalha entre os que nasceram neste mundo já dividido, jovens que incluíram um ou ambos os filmes na agenda de fim de férias.

Leonardo Teatini, estudante de cinema, 20 anos, assistiu a Paradise now e não identificou uma posição premeditada do diretor palestino Abu-Assad em defender sua terra.

–É um filme que tenta não tomar partido, mas acaba se desviando e sendo, com todo o direito, pró-Palestina. O personagem principal (o homem-bomba vivido por Kais Nashef) se mata não pela crença na causa, mas porque não quer e não agüenta viver na condição de refugiado – diz Leonardo.

Tanto Paradise now quanto Munique despertaram o interesse da estudante Vitória Hadba, 17 anos, aluna do Ceat. Em sua opinião, nenhum dos filmes é parcial em relação ao conflito em questão. Mas ela aponta diferenças nos dois, não só em relação ao ponto de vista, mas também à linguagem e produção:

– Munique é grandioso e teve verba milionária, como o Estado de Israel, que tem dinheiro, exército equipado e visão mais pragmática. Paradise now foi feito com pouca verba, como os palestinos que não têm exército bem montado nem dinheiro e que, por amor à causa, dão suas vidas. Mas não entendo como Israel e os Estados Unidos podem chamar o Hamas eleito recentemente pelos palestinos de um partido terrorista. O choque da pobreza dos campos de refugiados palestinos não é uma espécie de tortura e terrorismo?

Também de férias, a estudante do segundo ano da Escola Princesa Isabel Gabriele Gaio, 15 anos, viu Munique, na tarde de quarta-feira, com sua avó Myrtes, 67 anos.

– No colégio, os professores falam sempre desse conflito, mas ninguém se interessa. E quem não tem noção da história vai sair do filme de Spielberg pensando que Israel é o mocinho e os palestinos, bandidos. Ambos estão errados, pois usam armas, violência e terrorismo em vez da diplomacia – reforçou.

Já o estudante Pedro Struchiner, 20 anos, discorda de quem diz que Spielberg defende Israel. Ao contrário, ele pensa que o filme leva o público a concluir que a política israelense é equivocada.

– A conclusão vem dos conflitos internos do personagem principal. Para israelenses e palestinos, nacionalidade e religião são questões complexas. E não é por meio de guerra ou sangue que a humanidade vai resolver alguma coisa – acrescentou.

Para outros, como o professor Leonardo Munk, de 36 anos, e o estudante alemão Jens Giersdoef, de 26, em temporada no Rio, Paradise now representa uma rara oportunidade de se ouvir a versão palestina sobre o conflito.

–É a voz do homem-bomba. O filme ajuda a entender o que leva alguém a se sacrificar por uma causa – diz Munk, ao lado de Giersdoef, que ficou incomodado com o maniqueísmo do filme na “caracterização da Cisjordânia como subdesenvolvida e de uma Tel Aviv próspera e turística”.

O servidor público Ricardo Rocha foi comemorar seus 40 anos de idade na platéia de Munique com o amigo Luiz Lacerda, 57 anos, aviador aposentado. O aniversariante não achou o filme tendencioso:

– É uma mostra de que a resposta violenta aos conflitos só termina em mais violência.

O amigo Luiz reage:

– Munique é direcionado para que o público simpatize com as razões dos israelenses. Duvido que fizessem um filme dessa dimensão se as vítimas fossem os palestinos.

A parcialidade da mídia na cobertura do conflito é lembrada pela estudante de Direito Taís Dantas, na saída do filme Paradise now. Ela observa que o cinema tem papel importante ao retratar realidades como essa:

–No Brasil, as informações chegam de agências de notícias americanas. Não sei se o filme expõe a realidade, mas com certeza tenta mostrar a cultura palestina, o cotidiano, a vida em família.


Mesmo sem ter visto os dois filmes, o antropólogo Paulo Hilu da Rocha Pinto, coordenador do Núcleo de Estudos do Oriente Médio da Universidade Federal Fluminense, afirma que o cinema de ficção cumpre a função de pôr os problemas do Oriente Médio na ordem do dia. Na sua opinião, porém, não substitui a informação objetiva oferecida por estudos acadêmicos, pelo jornalismo sério e até por alguns documentários:

– A população brasileira é mal informada sobre a disputa de terras entre israelenses e palestinos, em parte porque os meios de comunicação daqui tratam a questão de maneira insatisfatória. Os filmes, por mais verídicos que pareçam, são apenas ficção. Atendem ao objetivo principal do entretenimento e podem até desinformar, dependendo do enfoque do diretor, do quão parcial ele é.

Dois gritos de alerta

Em outras palavras, o engenheiro Airton Molina da Costa, 57 anos, também acredita que é preciso estar mais informado sobre a realidade. Mas diferentemente de Paulo Hilu, acredita que o filme Paradise now pode ajudar a quebrar a alienação dos brasileiros diante de problemas mundiais.

- O povo brasileiro não é politizado quanto aos temas de relevância internacional. No caso de Paradise now, a visão do diretor me parece equilibrada, equidistante - avaliou.

Desinformação não é o caso de Leopoldo Carneiro de Resende. Produtor da TVE Brasil, ele acompanhou o episódio narrado em Munique e diz que o drama humano se torna tão evidente no filme de Spielberg que ofusca a questão política.

- Ao priorizar a crise dos personagens, o diretor deixa lacunas sobre os fatos da época, como a participação de alemães no Setembro Negro e o prenúncio das batalhas de 1975, sobre as quais um militante árabe comenta. O filme dá uma idéia geral das razões que levaram ao conflito, mas não deixa entrever, por exemplo, a complexidade da recente eleição do Hamas (partido radical eleito democraticamente) pelos palestinos - avalia Leopoldo.

O argumento é reforçado pelo depoimento do sociólogo uruguaio radicado no Brasil Bernardo Sorj, especialista em cultura judaica. Diretor do Centro Edelstein de Pesquisas Sociais, dos dois filmes, ele só assistiu a Munique. Depois de destacar que, no longa de Spielberg, a mensagem contra a violência e a favor da negociação é mais relevante que o enredo da história, ele identifica algumas lacunas deixadas pelo diretor americano:

- Spielberg não lembra, por exemplo, que a morte dos atletas seqüestrados não era a proposta inicial dos palestinos. Ela ocorreu por uma inabilidade da polícia alemã, que queria contornar logo a situação para que os Jogos Olímpicos não fossem encerrados.

Sorj, entretanto, diz que o premiado diretor foi corajoso ao filmar Munique.

- A crítica que ele faz ao Estado de Israel é muito pertinente. O governo israelense ignorou o legítimo problema palestino durante 25 anos, de 1967 a 1992. Fez de conta que não era uma questão política, e sim militar, e exerceu uma política nefasta de ocupação dos territórios, pela qual hoje os próprios colonos israelenses estão pagando. Sou a favor da ação preventiva para evitar atentados, mas é preciso aprender o que os grupos adversários querem expressar antes de atacar. Essa é uma reflexão que serve inclusive para o relacionamento da sociedade carioca com as favelas - esclarece Sorj.

O fato histórico pesou no interesse do securitário Carlos Otávio Gomes, 48 anos, quando, levado pela crítica favorável, resolveu ver Munique .

- O episódio do atentado aos atletas foi muito marcante na época. É um tema interessante e embora seja do passado está cada dia mais atual.

Depois de assistir ao filme do diretor palestino, a pedagoga e cinéfila Tereza Brandão conclui que, mesmo não existindo cenas explícitas no longa-metragem, a violência está presente todo o tempo:

- Ela aparece no contraste entre os meios de guerra dos israelenses, fortemente armados, e os dos palestinos, que têm apenas o corpo para lutar. Em casos como este, o cinema funciona como um grito de alerta. O nome do filme já diz tudo (Paraíso já): já passou a hora de terminar com essa guerra.

Colaborou Manoela Cesar

voltar