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'Thriller' político

Diretor de 'Paradise now', o palestino Hany Abu-Assad diz que fez seu filme pensando mais em cinema do que na geopolítica do Oriente Médio

Alexandre Werneck

Na cena mais comentada de Paradise now, do palestino radicado na Holanda Hany Abu-Assad, que acaba de ser indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro, o jovem Khaled lê um manifesto que explica os motivos de sua futura ação como homem-bomba. Fuzil na mão, ele olha fixamente para a frente e diz frases emocionadas, sinceras, manifestando seu engajamento a Alah e à causa palestina. É, na vida do rapaz, um momento único. Singular.
“Espere aí. Há algum problema. A bateria acabou”, diz outro homem, diante dele, empunhando uma câmera. Ante a revolta do futuro terrorista, o coordenador da ação tenta acalmá-lo: “Calma. Você ganhou a oportunidade de fazer a cena de novo, de fazer melhor”.

Pois é isso mesmo. Se há um ingrediente particularmente explosivo em Paradise now, que está em cartaz na cidade em sua segunda semana, mobilizando espectadores em torno de suas questões, como mostrou a reportagem deste Caderno B ontem, esse ingrediente é o cinema, a imagem.

– Todo o conceito do filme gira em torno de como você reutiliza imagens. Sejam elas filmadas, sejam idealizadas. A cena é um ponto de virada. Quando alguém se coloca diante de uma câmera e diz que vai fazer algo, ela está assinando uma espécie de contrato. É, então, uma virada também do ponto de vista emocional. É o momento em que, como em um filme, que muda de comédia para tragédia, que transita entre documentário e ficção, os dois personagens também mudam – diz Hany Abu-Assad ao JB, por telefone, de sua casa em Los Angeles, nos Estados Unidos, onde está rodando seu novo filme, L.A. Cairo.

Pois bem, a história de Paradise now e a virada a que Abu-Assad se refere já são bastante conhecidas: são as 48 horas anteriores a um ataque terrorista, do ponto de vista de dois homens-bomba palestinos. Amigos de infância, Said (Kais Nashef) e Khaled (Ali Suliman) começam a partir dali a viver a dúvida sobre a validade de sua missão para a resolução do problema político em que estão envolvidos.

Ganhador de três prêmios no último Festival de Berlim e do Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro e desde já o mais forte candidato ao Oscar na categoria, o filme, claro, criou controvérsia. Foi criticado por parcelas mais radicais da comunidade judaica americana. O Globo de Ouro e a possibilidade de vir um Oscar também. Pelo filme estar concorrendo com inscrição pela Palestina, que não é exatamente um país. As críticas, entretanto, vieram sobretudo pelo fato de ele humanizar os homens-bomba. Mas para ele o mais importante no filme é a noção de virada.


– Eu queria fazer o público ver algo e descobrir coisas o tempo todo. Queria fazer um thriller. Tecnicamente, é um filme de suspense, um filme em que você vê algo de um ponto de vista e, logo depois, vê a mesma coisa de um ponto de vista diferente.

Paradise now, então, é recheado de cinema, embora pouca gente tenha dado atenção ao tema. E isso não aparece apenas na cena da filmagem ou em outra em que um lojista vende ou aluga vídeos de homens-bomba. Os personagens discutem cinema. Said é questionado pela amiga (que parece querer ser algo mais) Suha (Lubna Azabal, conhecida aqui do filme Exílios) sobre gostos cinematográficos. Responde que foi ao cinema uma vez, para queimá-lo, em um protesto. Ela o acusa de parecer “um personagem de filme minimalista japonês”. Isso tudo, claro, sem contar o título, clara alusão a Apocalipse now, de Francis Ford Coppolla.

Abu-Assad agradece ao repórter pelo assunto cinema aparecer na entrevista. Diz que só perguntam a ele sobre suas posições políticas e sobre as eleições legislativas na Palestina, que elegeram o grupo radical Hamas. Também prefere não comentar o filme Munique, de Steven Spielberg. Diz que não fala do trabalho dos outros. Por incrível que possa parecer, segundo ele, a geopolítica aparece em seu filme como um elemento secundário.

– Meu maior interesse era em encontrar uma boa história para contar com imagens, algo que me permitisse pensar como usar a linguagem do cinema para criar personagens. É um filme alimentado de cinema. Tanto que é um filme de gênero. Queria fazer um jogo entre linguagem e realidade. Em um thriller, você se sente preocupado o tempo todo e não sabe por quê, quando na realidade, não há razão para temer. Mas no mundo das relações políticas, na Palestina, em um contexto como o atual, qualquer um é suspeito. Então, a linguagem do thriller (que aparece inclusive na música, tensa e onipresente) encaixa perfeitamente na realidade palestina.

O filme nasceu da pesquisa que Abu-Assad e seu produtor holandês, Bero Beyer, estavam fazendo em gêneros cinematográficos, em 1999. Como disse Abu-Assad, eles queriam fazer um thriller. Mas eles não conseguimos decidir que história usar. Levaram quatro anos trabalhando nela sem muito sucesso. Então, descobriram desenhos feitos nas últimas 24 horas de vida de um terrorista suicida.

– Foi fácil olhar para aquilo e ter idéias. Tentamos entender melhor aquilo, criar um filme que te permitisse questionar aquilo. Mas, claro, o diretor teve que se alimentar de informações sobre a rotina de uma ação nada rotineira como um atentado com homens-bomba. O que não parece ser muito fácil, do ponto de vista de um ocidental.

– Bem, sou um palestino, então conheço muita gente que conheceu homens-bomba e foi fácil colher histórias. Conheci também um advogado que defendeu homens-bomba que falharam em suas missões. E, claro, fiz pesquisa em jornais em livros e em reportagens de TV que mostram os resultados das ações.

Posições políticas claras

Assim como Hany Abu-Assad teve que mergulhar numa Palestina na qual ele é hoje mais visitante do que habitante (ele nasceu em Belém), o elenco do filme foi fazer oficinas em campos de refugiados para conhecer a realidade local. As filmagens aconteceram em Nablus, na Cisjordânia, e enfrentaram os problemas previsíveis para uma produção como esta. Em vez dos dois meses previstos foram quase cinco. Chegou a haver o cancelamento de uma filmagem, que ocorreria em um local atingido na noite anterior por um atentado.
- Era importante filmar em um local em que esse tipo de problema é cotidiano. Para que elenco e equipe tivessem noção do perigo, das dificuldades dessa realidade.

Toda essa realidade, que alimentou a feitura do filme, alimenta, como se sabe, a vida dele nos cinemas. Ao receber o Globo de Ouro, Abu-Assad falou pouco. Agradeceu à família e à equipe e à Warner, ''pela coragem de exibir esse filme nos Estados Unidos''. Soa curioso, porque, de certa forma, é o tipo de filme que se espera, nos EUA, de um diretor palestino: trata de um tema local com linguagem universal e tem inclinação pacifista. Mas o cineasta, nascido em Belém e lá criado até os 19 anos, quando se mudou para a Holanda para estudar engenharia aeronáutica, diz não se sentir pressionado a fazer o cinema que faz por sua nacionalidade.

- Não sei porque me deram prêmios pelo filme. Não sei por que dão prêmios. Eu não dou prêmios, nunca dei um, nunca estive em um júri, por exemplo. Escolhi essa história porque gosto de lidar com esses temas. São questões para mim, não apenas as políticas, mas as cinematográficas. Essas questões se tornam importantes para você questionar como cineasta. A política do filme fala sobre uma guerra cujas resoluções estão fora de minhas mãos.

Mas o certo distanciamento que o diretor mostra em relação à política não significa que ele não tenha posições.

- Tenho uma preocupação com a vida, com política e claro que tento fazer filmes sobre coisas que me preocupam. Quando os direitos humanos básicos são violados, não há como não se preocupar.

O filme ganhou rótulo de pacifista. Tanto ao ganhar o prêmio da Anistia Internacional e o Blue Angel (além do do júri do jornal Berliner Morgenpost) no Festival de Berlim, dois prêmios dados a filmes políticos ligados aos direitos humanos. A mesma dimensão foi explorada na campanha do filme nos EUA, que chama a atenção para ele com o slogan: ''Do lugar menos esperado, surge um forte novo clamor pela paz''. Ele recusa o rótulo, o que denotaria uma posição contra a ação dos homens-bomba.

- O filme não é contra nem a favor das ações. Ele é aberto para vários pontos de vista.

Mas a certa altura da entrevista, Abu-Assad para com rodeios. Resolve se posicionar mais claramente, embora diga que isso não é determinante para seu filme. Perguntado sobre - sim, ele não poderia escapar de ouvir essa questão - a vitória do Hamas nas eleições e sobre a ocupação israelense, ele não tenta meias-palavras:

- Muitas vezes esquecemos que as vidas daquelas pessoas, que chamamos de terroristas, são uma desgraça e que chamamos muito facilmente suas reações de terror. Mas elas são conseqüência da ocupação. Ela é tão aterrorizante quanto. Sim, podemos chamar aquelas ações de terror. Mas temos que ter noção de que elas são uma reação, uma resposta a uma ação. Essas ações não são o principal. O principal é a ocupação e a política externa de Israel.

Dito isso, um dado importante sobre Abu-Assad é que ele está se tornando um típico cineasta periférico cujo filme é celebrado nos Estados Unidos e/ou na Europa. Seu filme é uma co-produção entre França, Alemanha, Holanda e Israel, o que o impediria de ser indicado ao Oscar, não tivesse sido inscrito pela Palestina. Mas foi aceito assim mesmo pela Academia. Além de trabalhar na Holanda já alguns anos, onde fez filmes como Nazareth 2000 (2002), Ford transit (2002) e Rana's Wedding (2002), todos tocando na questão palestina, seu próximo filme é um típico movimento de carreira internacional: L.A., Cairo (título de trabalho ainda), é sobre, como ele diz, ''como o Terceiro Mundo vê o mito do sonho americano''. É feito com dinheiro americano, atores americanos e falado em inglês. Não chega a ser um Jardineiro fiel (produção inglesa do brasileiro Fernando Meirelles), mas é uma clara assimilação do diretor.

- Não vejo como um problema essa internacionalização. Gosto do que Fernando Meirelles fez, por exemplo. O importante é que ele buscou identidade própria em seu filme. No final das contas, não importa tanto quem paga a produção. O mais importante é que estou fazendo, nos Estados Unidos, um filme com minha visão de palestino.

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