
Por causa do Oscar
Liderados por 'O segredo de Brokeback
Mountain', indicados a melhor filme marcam o Oscar mais
politizado da era Bush
Alexandre Werneck
O rei da montanha é mesmo O segredo
de Brokeback Mountain. Meses de estatísticas e prêmios
considerados preliminares depois, o filme do taiwanês
Ang Lee confirmou ontem todas as expectativas e teve o maior
número de indicações ao Oscar, oito:
filme, diretor, roteiro adaptado, ator (Heath Ledger), ator
(Jake Gyllenhaal) e atriz (Michelle Williams) coadjuvantes,
fotografia e trilha sonora. As indicações
ao prêmio da Academia de Ciências e Artes Cinematográficas
de Hollywood, que serão entregues em 5 de março,
foram apresentadas pelo presidente da Academia, Sid Garris,
e pela atriz ocarizada Mira Sorvino, em Los Angeles.
Mas mudou a montanha. O que se vem falando
é que este ano é dos filmes independentes.
De fato. Mas o fato mesmo é que dos cinco indicados
a melhor filme, só Capote, de Bennett Miller, indicado
a cinco Oscar, tem um tom abaixo no que se refere a ter
uma causa. Brokeback Mountain, com sua história de
amor proibido entre dois caubóis, virou bandeira
da comunidade gay (e não teria como não ser)
e contra a censura (o filme foi impedido de passar em uma
rede de cinemas pertencente a mórmons e não
será exibido na China). Crash No limite, de
Paul Raggis, que teve ao todo seis indicações,
é o filme de questão racial do ano. Boa noite
e boa sorte (seis indicações), dirigido pelo
ator George Clooney (que foi indicado a diretor pelo filme
e ator coadjuvante por Syriana), discute a relação
entre mídia e poder. E Munique (cinco indicações),
claro, incomodou tanto os mais fundamentalistas integrantes
da comunidade judaica americana quanto os esquerdistas pró-Palestina
ao contar a história dos assassinos israelenses que
mataram os terroristas responsáveis pelos atentados
aos atletas judeus nas Olimpídas de Munique, em 1972.
Seu diretor, Steven Spielberg, disse anteontem, em um debate
promovido pela revista Newsweek depois da cerimônia
de entrega do Directors Guild Award (vencida por Ang Lee),
que tudo isso é efeito do segundo mandato de George
W. Bush, que os diretores entenderam que precisam se posicionar
mais. Pois está lá: nem nos momentos mais
ácidos do documentarista Michael Moore (que passou
um sabão no presidente ao ganhar o Oscar de documentário
com Tiros em Columbine, em 2003) o establishment colocou
juntos tantos filmes com uma causa ali no topo das indicações.
E não só nas categorias principais. O filme
inglês do brasileiro Fernando Meirelles, O jardineiro
fiel, por exemplo, que era cotado a uma indicação
a diretor e até a filme, mas teve apenas indicações
a roteiro adaptado (creditado apenas ao inglês Jeffrey
Caine, sem as colaborações de Bráulio
Mantovani e Cris Riera), montagem, trilha sonora e atriz
coadjuvante, entra na mesma onda de filmes politizados celebrados
pelo cinemão americano.
Meirelles parece concordar com a tese de
Spielberg:
Acho que a era Bush de fato politizou
artistas, público e audiência.
A indicação dada a Rachel Weisz
que ganhou o Globo de Ouro e o Screen Actors Guild,
credenciando-se como a favorita na categoria , aliás,
parece passar por esse movimento. É um caso típico
querido de Hollywood: o da atriz que sai de papéis
em filmes comerciais menores (como A múmia ou Constantine)
e que cresce como intérprete dramática. Meirelles
reconhece seu papel no crescimento da moça, mas o
minimiza:
Ela está lá por ser
boa atriz, mas de fato teve uma chance que vai mudar sua
carreira. É uma pessoa extraordinária, não
apenas uma boa atriz. Em sua categoria é a favorita.
E a regra da causa também parece ter
valido entre os filmes falados em língua não
inglesa. O Brasil, mais uma vez, ficou de fora da briga.
O recordista de bilheteria da chamada retomada, 2 filhos
de Francisco, de Breno Silveira, não conseguiu entrar
na lista, formada por um representante da Itália
(La bestia nel cuore), um francês (Feliz natal), um
alemão (Sophie Scholl), um sul-africano falado nos
dialetos zulu, xhosa e afrikaans (Tsotsi) e um palestino,
Paradise now. Este último, aliás, que está
em cartaz no Rio, é um dos mais fortes representantes
da corrente politizada e de sua celebração
hollywoodiana: a história de dois homens-bomba palestinos
ganhou o Globo de Ouro e segue como favorito à estatueta.
Por mais que eu possa ter sido penalizado
por esse movimento, se ele existir de fato, acho muito bom.
Vejo de forma muito positiva o cinema americano se politizar.
Fiquei muito contente de o Paradise now ter sido indicado
diz Breno Silveira.
O diretor carioca diz não ter ficado
chateado com a não-indicação de 2 filhos:
Ele já foi muito longe. O Oscar seria legal,
mas mais para o nosso cinema. De maneira geral, valeu a
tradição estatística em relação
a prêmios e expectativas, sobretudo nas categorias
de elenco. Philip Seymour Hoffman e Joaquin Phoenix devem
disputar o prêmio de ator, ambos pelos tradicionais
papéis biográficos, o primeiro por incorporar
o escritor Truman Capote e o segundo por dar vida ao cantor
Johnny Cash, em Johnny & June. O filme, aliás,
abriu caminho para Reese Whiterspoon (premiada com o Globo
de Ouro de atriz de musical) disputar o posto de melhor
atriz com a favorita Felicity Huffman, de Transamerica,
outro filme de causa, que conta a história de uma
transsexual.
Entre os longas de animação,
a Academia fez uma opção clara por desenhos
considerados artísticos. Os três indicados
são uma obra do mestre japonês Hayao Miyazaki
(vencedor de 2003, com A viagem de Chihiro), O castelo animado;
a animação em stop motion de Tim Burton, A
noiva cadáver; e o longa da franquia de maior sucesso
na animação com bonecos, os britânicos
Wallace e Gromitt. Em documentário, valeu também
o que estava previsto: entre os indicados, aparece o recordista
de público A marcha dos pingüins, francês,
em cartaz agora no Rio.
voltar
|