Lula Branco Martins
A segunda noite de desfiles, na Marquês de Sapucaí, iniciada às 21h15 de ontem, começou com o Porto da Pedra cheio de problemas. A escola de São Gonçalo, que homenageava as mulheres brasileiras, fez um bom desfile até o Setor 11, quando parou de evoluir. Não andava para frente, pois havia um problema lá atrás, ainda na esquina da Presidente Vargas com a Marquês: era o carro Mães do Brasil (onde viriam, por exemplo, Glória Perez e Lucinha Araújo), que nem por decreto fazia a curva. Os diretores deram ordem para a escola desfilar devagar, mas não houve conserto. A alegoria não entrou, e a escola acabou estourando o tempo.
Depois do reboque, que atrasou em quase uma hora o início do segundo desfile, a Mangueira surgiu em cena apresentando uma enorme carranca, de onde surgia ocasionalmente o coreógrafo Carlinhos de Jesus, chefe da comissão de frente. Grandiosa, com a base das alegorias iluminadas por néon, num tom azul que lembrava as águas de um rio, carros com bolhas de sabão, muitos tripés e animação, a escola mostrou credenciais para tirar uma boa colocação. Merece destaque a ala das baianas, com uma bonita saia rodada. E também o Vapor Benjamim Guimarães, barcão com belo movimento, alegoria da qual os componentes jogavam flores para a platéia.
"A terceira escola – última a completar o desfile antes do fechamento deste caderno, às 2h45 – foi a Viradouro. Contando a história da arquitetura no Brasil, a agremiação niteroiense abriu o desfile com uma curiosa comissão de frente, assinada por Deborah Colker, com os componentes entrando e saindo de portas espelhadas. Os carros não eram nada rebuscados, ao contrário, simples até demais. Num deles havia ocas indígenas. Noutro tubarões com o brasão da República rondavam a Ilha Fiscal no seu último baile, do decadente Império. As alegorias pretendiam-se realistas. A da favela, por exemplo, tinha puxadinhos, caixas d’água, muito lixo, entulho e até foguetório anunciando alguma coisa no ar. Mereceu mais aplausos o carro do Museu de Arte Contemporânea, que, tal como um disco voador, levantava vôo de cinco em cinco minutos. A escola estava simples, e por isso mesmo passou sem problemas de harmonia ou evolução. Tanto foi assim que ainda deu tempo para o mestre Ciça brincar com sua bateria-show, com uma das paradinhas mais longas já vistas no Sambódromo.
Entre as que desfilaram no domingo, destaque para Beija-Flor, Vila Isabel e Imperatriz. Tudo havia começado com o Salgueiro, falando de microcosmos, com centenas de pipetas, provetas, glóbulos brancos, hemácias, vírus e toda sorte de organismos transformados em fantasia. Em seguida, entrou a bela e riquíssima Rocinha, com chuva e muitos problemas de evolução, conseqüência de carros quebrados e da falta de direção de harmonia mais competente. A Imperatriz foi a terceira a desfilar, exibindo o luxo de sempre e criatividade para carnavalizar a saga de Giuseppe Garibaldi. A Caprichosos entrou no meio da madrugada homenageando o Espírito Santo, com índios que emocionaram a platéia e uma ousada “corridinha”, em vez de “paradinha” de bateria.
Num enredo de tema latino, a Vila Isabel (Joãosinho Trinta à frente, em cadeira de rodas) fez belo desfile, em que a comissão de bananas, os chapelões mexicanos e o samba com letra em portunhol foram os destaques. Já com o dia clareando, entrou na avenida a Grande Rio, que parece ter sofrido de gigantismo amazônico: carros enormes, tripés a cada 30 metros de pista, jacarés vestidos por componentes que iam se arrastando – tudo tão pesado que a escola estourou o tempo.
A Beija-Flor fechou a maratona por volta das 7h30. Os guerreiros das arquibancadas puderam ver o tributo a Poços de Caldas em forma de grito de alerta pela preservação da água no planeta. Nos carros, aliás, muita água jorrando de uma escultura, de chafarizes e da alegoria final, com direito a cheirinho. Nilópolis, como nos últimos quatro anos, espera maré favorável durante a apuração.