Jamelão: “Quero o microfone principal!”

João Bernardo Caldeira

De bengala e andando lentamente, o eterno puxador da Mangueira Jamelão foi levado ao topo do carro de som da escola, a segunda a entrar na Sapucaí. Apenas o violonista o acompanhou, enquanto os demais colegas saíram no chão, logo abaixo do mestre, onde estavam um violão de sete cordas, bandolim, dois cavaquinhos, o puxador Richahs e mais três cantores na retaguarda. Minutos antes de entrar na avenida, ainda na concentração, no setor 1, o ilustre intérprete mangueirense reclamou no microfone, para todos ouvirem, de possíveis desfavorecimentos técnicos:

"Quero o microfone principal! Se precisar eu canto sozinho! Aqui tem quem cante! Só não quero andar no chão, porque não sou burro!", esbravejou Jamelão, mantendo sua fama de ranzinza e menosprezando as suposições de que sua voz já não é a mesma, aos 92 anos.

O técnico de som garantiu ao JB que o som de todos os puxadores foi a partir dali equiparado. Antes de mostrar seu talento vocal, o grande mestre chupou um limão, ali mesmo, no carro de som, sem explicar se a “mandinga” foi feita para dar sorte.

Às 23h21, com uma hora de atraso, a Mangueira entrou na Sapucaí, trazendo um Jamelão de óculos, o tradicional chapéu de sambista e terno vistoso. Ele preferiu não desfilar no chão, mas também não usou a cadeira que estava à sua disposição: durante os 79 minutos de desfile, o cantor permaneceu de pé.

Era visível a empolgação de Jamelão. Quando o carro de som estava parado no recuo da bateria, diversas alas da agremiação o saudavam com aplausos, e o mestre da Mangueira retribuía soltando a voz. Aos 70 minutos de desfile, o veterano intéprete já não acompanhava o samba da escola com o mesmo fôlego do início, mas ficou de pé até o último minuto. Jamelão só se sentou enquanto aguardava para ser retirado do carro. Enquanto isso, uma legião de fãs estava ansiosa por autógrafos.

[ 02:51 - 28/02/2006 ]