Samba do caudilho doido
Patrocinadora da Vila, estatal de Chávez ganha embalo

Marcelo Kischinhevsky

RIO - Foi melhor do que a encomenda. Quando decidiu patrocinar o carnaval da Vila Isabel, a direção da PDVSA, estatal venezuelana de petróleo, não sonhava com o título. Apenas queria usar a Passarela como trampolim para fixar sua imagem no Brasil. A empresa lançou, na véspera do carnaval, inédita campanha de marketing em território nacional, utilizando rádio, TV e até busdoor, (outdoor na janela traseira de ônibus). O valor é segredo de Estado, mas circula no mercado que, só no apoio à escola de samba, foi desembolsado R$ 1 milhão.

Ilustre desconhecida na Avenida, a PDVSA, menina-dos-olhos do presidente Hugo Chávez, é uma potência mundial. Lucrou no último ano a bagatela de US$ 9,4 bilhões - praticamente o mesmo que a Petrobras - e virou instrumento de política social na Venezuela, onde o litro de gasolina custa menos de R$ 0,20. Único país latino-americano a integrar a Organização dos Países Exportadores de Petróleo, produz 3,1 milhões de barris diários, mais do que o dobro do 1,4 milhão da Petrobras. E, apesar do discurso antiimperialista de Chávez, quase metade da produção é vendida nos Estados Unidos, onde a empresa controla a Citgo, dona de uma das maiores refinarias americanas e de rede de 17 mil postos.

No Brasil, a presença é tímida, mas vem crescendo, no embalo das boas relações entre Chávez e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Desde 2001, a empresa mantém postos de revenda com a bandeira PDV na Região Norte e, ano passado, fechou acordo com a Petrobras para construir refinaria de US$ 2,5 bilhões em Pernambuco.

O enredo da Vila, Soy loco por ti América, foi talhado sob medida para o populismo de Chávez, um ex-coronel golpista que acabou presidente com aval das urnas e tem o líder da independência latina Simon Bolívar como ídolo. O samba do caudilho doido pode, contudo, trazer benefícios econômicos aos brasileiros. A PDVSA tem planos de expansão e vem cortejando a rede nacional de postos Ipiranga e multinacionais interessadas em deixar o Brasil. Seria uma concorrente de peso para a Petrobras. A assessoria de Chavez soube da vitória pelo Jornal do Brasil e disse que ele não poderá vir ao desfile de sábado.

[ 02/03/2006 ]