Carnaval latino da Vila supera favoritas

Foi necessário esperar o anúncio da última nota, no último quesito, para que a festa nos morros do Pau da Bandeira e dos Macacos pudesse começar. A Vila Isabel, tradicional escola da Zona Norte carioca, é a campeã do carnaval de 2006. Foi seu segundo título, conquistado somente nos critérios de desempate (no quesito samba-enredo), em cima da Grande Rio, de Caxias, que ficou com o vice-campeonato. Desde 1996, quando a Mocidade venceu desfilando no domingo, não acontecia de uma escola do primeiro dia ganhar o carnaval.

A Vila mostrou na avenida o enredo Soy loco por ti, América: a Vila canta a latinidade, assinado por Alex Varela, Alexandre Louzada e Martinho da Vila, e desenvolvido na Avenida por Louzada - que conquista seu segundo título pessoal. O primeiro havia sido em 1998, com a Mangueira, no ano em que homenageou Chico Buarque. O tema da latinidade não foi escolhido por acaso. Contava-se desde o início com o apoio dos países da América do Sul, e ele veio farto da Venezuela: a estatal de petróleo de lá investiu forte e o bairro de Noel será eternamente grato a Caracas. Tanto é assim que, na camiseta dos diretores, aparecem todas as bandeiras, mas a maior é a tricolor, do país de Hugo Chávez. Os julgadores gostaram da forma como o enredo foi contado e lhe deram quatro notas 10.

Outro quesito que a Vila gabaritou foi conjunto, que julga o todo da escola. Mas, nos detalhes, ela esteve longe da perfeição. Perdeu muitos décimos, por exemplo, na comissão de frente e em fantasias (pois realmente não estava tão rica e caprichada) e apenas um no polêmico samba em portunhol, cuja escolha acabou afastando deste carnaval um de seus componentes mais ilustres, Martinho da Vila - que concorreu, perdeu e a partir daí desprezou solenemente a escola do seu coração e de seu sobrenome.

Se o título da Vila surpreendeu alguns, o vice da Grande Rio deixou muitos mais boquiabertos. A escola desfilou pesada, arrastada, com tripés demais. Além disso, houve problemas na comissão de frente (momentos em que ocas eram esquecidas pela avenida), seu tempo estourou e pouco se falava dela no dia seguinte. Mas para os julgadores nada disso importou: a agremiação do carnavalesco polonês Roberto Szaniecki teve 10 absoluto em quesitos como enredo (sobre o Amazonas, tão patrocinado quanto o da campeã) e bateria (do veterano Odilon, que a cada carnaval diz que vai abandonar os desfiles). Em terceiro ficou a Viradouro, de Niterói, que fez mesmo um belo desfile, simples, linear, sobre a história da arquitetura brasileira, carnaval assinado por Milton Cunha, Mário e Kaká Monteiro.

E as três favoritas da imprensa, dos institutos, dos ditos entendidos? O que houve com Mangueira, Beija-Flor e Tijuca? Pois é, ficaram em quarto, quinto e sexto. A Mangueira repetiu fórmulas nordestinas (que lhe deram o título em 2002) e perdeu pontos em bateria, conjunto e evolução. A Beija-Flor teve notas baixas em enredo (parece que os julgadores se cansaram do estilo dor-fim do mundo-trevas-monstros-e-gosmas de Laíla) e a Tijuca, com seus carros de gente e de fuscas, perdeu mais décimos justamente em alegorias.

Foram rebaixadas a Rocinha, que teve duas alegorias quebradas e inúmeros problemas na avenida, e a Caprichosos, golpeada de morte em quesitos como enredo (sobre o Espírito Santo, patrocinado por uma fábrica de chocolates) e alegorias. No Acesso A venceu a Estácio, que no sábado havia reeditado o enredo Quem é você?, dos anos 80.

[ 02/03/2006 ]