O olhar de especialistas
  Acima de tudo um democrata

Articulador, moderado e determinado. Um democrata. Assim Tancredo de Almeida Neves é definido por especialistas que pesquisam sua vida pública. Contrariando a tradição de críticas de cientistas políticos às principais personalidades do cenário nacional, de Tancredo só se ouvem elogios.

"Ele Tinha características raras na política: não trocou de partido, não apoiou o golpe militar de 1964 e sempre defendeu a democracia", ressaltou a doutora em Ciência Política e professora da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Fundação Getulio Vargas (FGV) Maria Celina D'Araújo.

Na opinião da cientista política, durante toda sua trajetória, o estadista empunhou a bandeira da legalidade. Postura que ficou clara logo após o suicídio do então presidente da República Getúlio Vargas, em 1954, quando trabalhou para evitar um golpe autoritário iminente. No entanto, sempre se baseou no diálogo para atingir seus objetivos.

"Devido à capacidade de negociar, foi escolhido pela oposição para se candidatar à Presidência da República. No momento da abertura política, ele era a pessoa ideal para assumir o cargo", explicou Maria Celina.

Para o professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Lincoln de Abreu Penna, Tancredo foi o político mineiro de maior destaque em seu tempo. Sua carreira ganhou dimensão nacional entre os anos 50 e 80 e foi marcada por muita habilidade de articulação.

Durante o golpe militar, em 1964, Tancredo novamente pôs em prática o reconhecido caráter democrático. Roteirista do DVD 'Tancredo Neves, mensageiro da liberdade', lançado neste 21 de abril para homenageá-lo, o jornalista José Augusto Ribeiro conta que o político mineiro foi um dos primeiros a protestar contra a derrubada de João Goulart da Presidência da República - quando os militares assumiram o Executivo e o retiraram à força do poder.

O jornalista lembra ainda a oposição ferrenha de Tancredo à legitimação da ditadura. Quando deputado federal pelo PSD, se negou a votar em Castello Branco para a Presidência, ao contrário de muitos correligionários.

"Tancredo sacrificaria a vida para garantir a transição democrática", acredita Ribeiro, ressaltando que, mesmo ciente de que sofria sérios problemas de saúde, relutou em se submeter à cirurgia antes da posse. Temia que a ausência abrisse caminho para que as tão necessárias mudanças políticas não se concretizassem.

 

Tancredo no Poder

Apesar de povoar o imaginário dos brasileiros como o político "salvador da pátria", ressentida com os desgostos de duas décadas de ditadura militar, especialistas apostam que Tancredo seguiria um caminho similar ao do vice José Sarney (PMDB). Estudiosos afirmam que a abertura democrática teria sido consolidada da mesma forma.

Na área econômica, tampouco haveria grandes guinadas durante a administração de Tancredo Neves. A diferença seria na elaboração de projetos monetários. Para os cientistas políticos, dificilmente o presidente eleito se aventuraria em um pacote nos moldes do Plano Cruzado, de Sarney.

Com a experiência obtida em anos de vida pública, perceberia mais facilmente que insistir no congelamento de preços para manter a popularidade - fundamental para o sucesso nas eleições estaduais de 1986 - poderia ter consequências drásticas para a economia nacional.