O aviador

A velocidade da juventude
Alexandre Werneck


O aviador é um filme enorme. Não tanto pela metragem, de fato longa, mas pela quantidade de assuntos e dimensões que procura e consegue ter. Um traço, entretanto, grita no meio de tudo: Martin Scorsese, se não o maior, um dos maiores diretores americanos vivos, faz um monumental tratado sobre o elemento mais forte e, curiosamente, mais paradoxal da juventude: estar distante da morte e, por conta disso, desafiá-la constantemente. Até por isso, fica tão impressionante a primeira hora do filme, que não pára, impulsionada por uma seqüência frenética e aceleradíssima de acontecimentos e aventuras de seu personagem, o milio(visio)nário Howard Hughes. Nem o tom monumental - nos moldes do Oscar - nem a óbvia inclinação do filme para servir de vitrine para Leonardo DiCaprio conseguem desviar as atenções do ambicioso retrato feito pelo cineasta, sempre obcecado por geografar eras, sejam elas da inocência ou não. O aviador, então, acaba sendo um filme sobre a velocidade, sobre a pressa em conseguir fazer caber em uma vida todas as realizações possíveis de um mito. Hughes é construído como uma máquina de flertar entre um e outro, em um exercício quase meta-historiográfico: é jovem e não pode perder um segundo, caso contrário, perde o bonde (ou o avião) da história.


Menina de ouro

Hilary, uma lutadora
Carlos Helí de Almeida

Menina de ouro pode ser resumido como um filme sobre uma jovem pugilista (não tão jovem assim para a profissão) que recorre a um velho treinador para tornar-se uma estrela do esporte. Mas como Clint Eastwood produz, dirige e interpreta o principal papel masculino dessa história, não se deve esperar clichês comuns aos títulos sobre glórias dentro do ringue, à moda de Rocky, um lutador . Em Menina de ouro, o que importa não é o sonho de ser uma campeã do boxe em si, mas a vontade desesperada e apaixonada de ser alguma coisa na vida, de fazer da profissão a melhor expressão de si mesma. De certa forma, é o desejo de Maggie (Hilary Swank, fazendo jus à nova indicação ao Oscar), a garçonete com determinação e punhos de aço, que inspira as almas fracassadas a sua volta, como Frankie (Eastwood), o treinador de consciência pesada, e o melhor amigo deste, Eddie (Morgan Freeman), um ex-pugilista que viu sua carreira estagnar após um incidente no ringue. Vencidas as primeiras barreiras emocionais, o trio se transforma em um time coeso. É do relacionamento entre estes personagens, donos de bagagens bastante particulares, que Menina de ouro constrói um comovente e às vezes engraçado drama sobre viver e morrer com dignidade.


Ray

Do jeito que o Oscar gosta
Gustavo Leitão

Ray é facilmente atacável. Em vários aspectos, trata-se de uma cinebiografia ao gosto de Hollywood: simplista, didática e com um protagonista deficiente físico. Jamie Foxx, que passou meses ao lado do cantor e pianista para incorporar suas características, consegue um feito impressionante. Mas é também uma proeza que espelha a tendência atual (e desagradável) das performances de figuras reais. Há uma preocupação demasiada com exatidão que torna esses papéis muito mais imitações - aprisionadas em tiques, movimentação e fala forçada - do que atuações densas. O Oscar, no entanto, adora. Assim como adora roteiros como este, que conta, cronologicamente, a ascensão de um negro pobre e cego nas paradas musicais, desde sua infância traumática ao envolvimento com as drogas e à consciência racial. Com didatismo de especial para tevê, o filme relaciona cada criação no campo musical a acontecimentos na vida de Ray e simplifica episódios (a cena em que ele, de supetão, decide apoiar o movimento negro chega a ser ridícula). Tudo isso depõe contra o longa de Taylor Hackford (de Advogado do diab). Mas quer saber? Com o criticômetro desligado, dá para passar por cima e encarar a diversão. A seu favor, a produção tem a direção de arte caprichada e o inegável apelo musical do repertório do cantor (Foxx apenas dubla as canções). Além disso, apesar do caráter oficial do projeto, sobra espaço para facetas menos abonadoras da personalidade do artista, que mantinha uma amante durante todo o casamento, mesmo depois do nascimento do filho, e se drogava escondido da mulher.



Sideways

Viagem etílica e existencial
Carlos Helí de Almeida

Esqueça os porres emocionais regados a cerveja ou uísque tão comuns no cinema. Sideways - Entre umas e outras fala de crises existenciais entre copos e garrafas de vinho, e é preciso estar sóbrio para se apreciar as nuanças de um dos títulos mais comentados da temporada. OK, o filme de Alexander Payne, que concorre a cinco Oscar, inclusive os de melhor filme e roteiro adaptado, pode não ter a sofisticação (ou o preço), como alegam, de Romanée-Conti. Mas o seu maior mérito é justamente a ausência de artifícios da direção e a tridimensionalidade de seus personagens. A modéstia da narrativa ajuda a prolongar o sabor da história - com alguma sorte, até após a projeção. O roteiro, de Payne e Jim Taylor, transporta para as telas as ansiedades e expectativas de dois amigos de meia-idade durante uma viagem de despedida de solteiro de um deles pelo distrito de vinhedos de Santa Barbara, na Califórnia. Entre casas de degustação de vinhos e campos de golfe, Jack (Thomas Haden Church), o noivo, e o enólogo e escritor fracassado Miles (o excepcional Paul Giamatti), ainda sofrendo com o divórcio, demonstram o quão diferentes são um do outro. Até mesmo na forma como lidam com as namoradas que arranjam na estrada (interpretadas por Virginia Madsen e Sandra Oh), romances construídos a partir de mentiras. Sideways é um generoso retrato do caráter masculino, exemplificado aqui em seu formato patético (Miles) e juvenil (Jack), que em nenhum momento soam caricatos. E que, dependendo do estado de espírito do espectador, pode deixar um leve gostinho rascante no canto da boca.


Em busca da Terra do Nunca

Precisa de pirlimpimpim
Rodrigo Fonseca

Eficácia nem sempre conduz ao arrebatamento. Tampouco ela é suficiente para convidar um coração a cair em prantos emocionados. É isso que Marc Forster, um diretor eficiente, mas de maturidade estética duvidosa, ainda não entendeu sobre o ofício de filmar. Irmão-gêmeo do subestimado Peixe grande, Em busca da Terra do Nunca apenas revela o quanto a cerebral frieza do cineasta (já conferida em A última ceia) empaca histórias assumidamente folhetinescas como esta, em que Hollywood se esforça para provar que o dramaturgo J. M. Barrie não era pedófilo. A presença em cena de Johnny Depp apenas faz tornar mais evidente que a conversão de fantasia onírica em melodrama rasga-coração é cheia de tropeços. Não que a interpretação do mais provocador dos astros do cinema americano contemporâneo (só superado em talento por Sean Penn) mereça qualquer ressalva. Afinal, Depp, ainda que fique repetitivo aqui e ali, é sempre uma figura imponente, de ilimitados recursos. Mas o tempo inteiro seu rosto em cena parece evocar, ainda que sem intenção, a imagem de outro realizador, bem mais talhado para o universo de Peter Pan do que Forster: Tim Burton - de quem Depp é, há anos, astro-assinatura. Toda a direção (além da caracterização de elenco) parece seguir um caminho que Burton consagrou nos anos 90: dar às fábulas mais alegóricas um tempero agridoce que as humanize, fragilizando o encanto do sonho pueril e expondo o fel da vida adulta. Mas nessa mimese, falta pirlimpimpim a Pan, reduzindo tudo a um genérico de Ed Wood.



Mar adentro

Balada do mar adocicado
Rodrigo Fonseca

Viajante com vasta milhagem acumulada, o cartunista Hugo Pratt (1927-1995), mito das histórias em quadrinhos graças ao personagem Corto Maltese, batizou sua obra-prima nos gibis como A balada do mar salgado para indicar o gosto que viver a vida sem extremos, por vezes, deixa na boca dos que nela se arriscam na salobra da inconseqüência e da renúncia de um porto seguro. Mar adentro, que trafega por águas igualmente turbulentas, prefere adocicar o oceano da coragem e trocar o rascante tempero do risco pelo Dietil xaroposo do melodrama. Apesar do aroma galício que percorre seus fotogramas, trata-se de uma iguaria inegavelmente hollywoodiana, com a curva de heroísmo característica das produções americanas. O chileno Alejandro Amenábar, eleito quindim tipo exportação pela maior indústria de entretenimento do planeta, se deixou levar pela experiência bem-sucedida que teve nos EUA com Os outros, seu longa anterior. Aqui, ele se rende aos tiques gringos na feitura desta biografia romanceada de Ramón Sampedro, ex-marinheiro galego, confinado à cama por culpa de uma tetraplegia, que brigou durante 30 anos para ter direito à eutanásia. É Javier Bardem, em visceral interpretação, quem contém os exageros folhetinescos da produção, mesmo nas suas passagens pontuadas por ópera para convidar a platéia às lágrimas. Em sóbria composição, amparada por belas e talentosas atrizes, Bardem ajuda Amenábar a fazer um filme levemente anarquista.