O país dos Robinhos e Ronaldinhos

Discussão quase tão antiga quanto o próprio futebol, a briga entre os que defendem a busca do resultado a qualquer custo e os que defendem a criatividade e a brincadeira no esporte, de tempos em tempos, reaparece com toda a força. A tal divisão entre times e jogadores 'sérios' e 'brincalhões' já pontuou até Copas do Mundo e há quem diga que é melhor perder jogando bonito do que ganhar na base das caneladas. No mundo infantil, a ascensão dos craques brasileiros Ronaldinho Gaúcho e Robinho, entre outros, faz mais forte ainda a presença do drible e dos lances de efeito nas escolinhas e nas peladas de rua.

Professor de futebol de salão do Fluminense para alunos entre 5 e 15 anos, Luis Verçosa acha que, especialmente nos mais novos, é difícil conter este ímpeto, especialmente em uma modalidade que exige habilidade e rapidez.

''Principalmente nas brincadeiras sempre têm aqueles que não ligam muito para a competição. Mesmo perdendo, a criança pode passar pelo seu dia de Robinho e há sempre um para dizer 'tudo bem você ganhou, mas eu te dei duas lambretas'(risos)'', disse o professor.

Nos treinamentos e nas competições, entretanto, o espaço para a brincadeira diminui, mas Verçosa admite que não vê como conter este traço marcante da nossa escola de futebol, principalmente nos chamados 'virtuosos', que não resistem a um bom drible:

''Especialmente quanto aos mais habilidosos, penso que não tenho como tirar isso do jogo da criança. Acho que, inclusive, o aluno deve utilizar tal característica sempre que puder, mas sempre visando ao gol''.

Outro espaço futebolístico que torna a habilidade quase um pré-requisito é a praia. Na areia, um novo repertório de jogadas surge diante das crianças e, mais uma vez, os pequenos jogadores reforçam a mística do craque nacional.

Professor do Projeto Gol de Placa, da Secretaria Municipal de Esportes e Lazer, que conta com 35 núcleos no Rio de Janeiro, Gerson Guerreiro trabalha com cerca de 200 crianças na Praia de Botafogo. Ele é mais um dos que não pensa em tirar da criança este potencial criativo no futebol.

''não posso exigir muito nas faixas etárias mais baixas, mesmo com os mais 'fominhas'. Em primeiro lugar, o aluno precisa sentir-se bem jogando'', afirmou Guerreiro.

O treinador de futebol de areia admite que as transmissões de televisão acabam funcionando como um modelo a ser seguido pelas crianças, que não hesitam em imitar seus ídolos:''Não tem jeito. Eles assistem aos craques na TV e tentam imitá-los. Voce precisa ver como eles ficam quando um jogador como o Benjamin (da Seleção Brasileira de futebol de areia) vem aqui''.

Quanto à criançada não há dúvida: o gosto pela brincadeira no esporte aparece quando perguntados sobre seus principais ídolos. Ronaldinho Gaúcho e Robinho são presenças obrigatórias nas listas de escolhidos. E se o assunto for qual a jogada preferida da molecada, temos uma eleita por maioria quase absoluta: a ''pedalada''. Popularizada por Robinho, que deixou os campos brasileiros para jogar pelo Real Madrid, da Espanha, a manobra é o xodó dos pequenos jogadores.

Matheus Correia Lima de Aguiar, de 9 anos, e Rafael Marques Estrada, de 11, são alunos da escolinha de futebol de futebol de salão do Fluminense. Matheus, por exemplo, é um dos fãs de Robinho e diz que procura imitá-lo nos treinamentos:

''Gosto dele porque dribla muito bem e, quando posso, procuro imitar seus lances. Uma vez, até marquei um gol parecido com um dele''.

Já Rafael foi direto ao ponto, perguntado sobre o seu ídolo Ronaldinho Gaúcho deu uma resposta seca, mostrando toda a sua admiração pelo jogador do Barcelona.''Porquê? Cara, ele Joga muito!(risos)''

Na praia, não é diferente. Lucas de França, de 9 anos, diz que adora um bom drible e que tenta sempre as jogadas de efeito:

''Driblar é legal, sempre tento, mas jogo sério'', diz já ensaiando um discurso quase profissional.

Quem conclui a questão é Matheus Rodrigues, de 10 anos, que, em coro com todos os brasileiros fãs de futebol, não resiste ao brilho individual de nossos craques, mesmo quando o assunto é jogo de campeonato.

''Não tenho dúvida, se é para ganhar, prefiro mil vezes ganhar jogando bonito'', afirmou sem titubear.