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Amadurecimento
precoce: realidade
ou sintoma?
Hoje em dia fala-se muito no amadurecimento precoce das crianças,
por conta da facilidade de acesso à informação,
do abandono de brincadeiras lúdicas e mais voltadas para a
competitividade... enfim, os motivos alegados para o fenômeno
são muitos, tido já como uma verdade, uma evidência
que dispensaria discussão.
Seria o caso de perguntar se as crianças estariam mesmo precocemente
amadurecidas ou, como as pessoas mais velhas de todos os tempos, apenas
nos surpreenderíamos com as tiradas das crianças, sempre
curiosas e questionadoras?
O JB Online conversou com uma professora e uma psicanalista, para
dissecar melhor o assunto, e ambas se manifestaram de forma diversa
sobre o tema.
Para a professora de educação física do Programa
de Educação Física Escolar da Fundação
Municipal de Educação de Niterói, Analice Fonseca,
o amadurecimento precoce nas crianças com as quais trabalha,
de sete a 11 anos, é patente. E aponta as brincadeiras em grupo
- que não devem ser confundidas com esportes coletivos - com
uma saída para resgatar parte de uma inocência perdida.
Brincadeiras essas que são aplicadas nas escolas do município,
através do Projeto Recriando, com o objetivo de resgate da
infância.
"As brincadeiras antigas de roda, pique-esconde,
pular corda, elástico, taco e garrafão têm mais
a ver com o simples fato de brincar, sem a competição
inerente dos esportes coletivos, como o futebol, por exemplo, que
até cumprem seu papel em outro setor, mas onde o talento
é fator predominante e surte como critério de inclusão
ou exclusão. Nas brincadeiras lúdicas, isso não
acontece. A criança brinca com as outras e o que predomina
é a diversão, a brincadeira em si. E isto, naturalmente,
ajuda a criar em torno da criança um ambiente mais infantil,
mais próprio à faixa etária em que se encontra",
comenta Analice.
Segundo ela, os chamados "brinquedos cantados"
são os mais bem sucedidos.
"Elas amam! Tanto que os pais depois vem
perguntar qual foi o professor que ensinou determinada música...
de quando eles ainda eram crianças..." conta.
Analice não descarta os famigerados hormônios,
aliados ao excesso de informação, como responsáveis
pelo tal "amadurecimento" antes do tempo.
"A comida que ingerimos hoje também
é muito modificada e isso certamente altera o metabolismo
da criança", salienta.
Problemas alimentares à parte, a professora
acredita que as brincadeiras lúdicas trazem não só
uma aura infantil de volta, como melhora a auto-estima, com reflexos
positivos na sala de aula.
"Os professores agradecem", conclui.
Não pensa da mesma forma a psicanalista
e psicóloga do Instituto de Psicologia da Universidade Estadual
do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Luli Milman. Segundo ela, o
fenômeno da atualidade seria justo o contrário, ou
seja, de um desamadurecimento cada vez maior.
"O que se vê hoje em dia, ao meu ver,
não é um amadurecimento, mas uma caricatura de adulto,
o que é bem diferente" - afirma - "meninas vestidas
de gostosas", exemplifica.
De acordo com Luli, do ponto de vista de uma independência,
a adolescência está ainda mais tardia do que antes,
devido a fatores econômicos e sociais.
"A sensação de fracasso do
brasileiro, a falta de perspectiva fazem com que os pais invistam
tudo nos filhos, colocando suas expectativas e compensando suas
frustrações neles. Isso é ruim, porque cria
uma sensação irreal de amadurecimento. Mas é
só aparência. As crianças estão até
mais infantilizadas. Os jovens também", diz.
A psicanalista ressalta a discrepância entre
o salário de um recém-formado hoje e o preço
do aluguel como fator econômico de retardo para a entrada
na vida adulta de fato. Além de apontar a postura dos pais
da geração atual, que se sentem jovens e não
se incomodam tanto de ter os filhos dependentes deles. Ou pior,
incentivariam essa dependência para se sentirem jovens.
"Agora, essa sexualidade exacerbada que se
percebe nas crianças brasileiras é um fenômeno
típico do nosso país. Em outros lugares isso não
acontece. O que também não tem nada a ver com amadurecimento.
Se as compararmos com crianças francesas, por exemplo, estas
são bem mais infantis, no sentido positivo do termo",
argumenta.
Luli alerta aos pais, inclusive, para que assumam
a posição de pais, do lugar do mais velho, da autoridade
para o bem e para o mal, não importa, para que a criança
possa ser criança com mais alma e não uma caricatura
de adulto, até para que, na juventude, possam adentrar com
segurança na vida adulta.
"Porque esse fenômeno da caricatura
do adulto é muito grave. Mas é apenas conseqüência
de um país que está muito desregrado, como é
o caso do Brasil, onde o coletivo é pouco cultivado e as
perspectivas são nulas. É grave porque aquilo que
não encontra lugar na realidade, fica perdido no corpo como
um sintoma", finaliza.
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